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Protagonismo negro é destaque em evento histórico

Publicado sábado, 15 de janeiro de 2022 às 06:01 h | Atualizado em 14/01/2022, 23:39 | Autor: Cleidiana Ramos
O babalorixá Joãozinho da Goméia (à direita) foi um dos destaques na programação
O babalorixá Joãozinho da Goméia (à direita) foi um dos destaques na programação -
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Em três edições, A TARDE publicou informações sobre um grande evento sediado em Salvador há 85 anos: o II Congresso Afro-Brasileiro. Organizado por uma comissão formada por Édison Carneiro, Martiniano Eliseu do Bonfim, Aydano do Couto Ferraz, Azevedo Marques e Reginaldo Guimarães, o encontro divulgou publicações de estudiosos brasileiros e estrangeiros sobre a cultura afro-brasileira. Mas, talvez, a sua maior marca foi o protagonismo para sacerdotisas e sacerdotes de candomblé. Entre as lideranças dos terreiros envolvidas com o congresso estavam João Alves de Torres Filho, conhecido como Joãozinho da Goméia, mas no período ainda chamado de João da Pedra Preta por conta do caboclo que incorporava; Maria Escolástica da Conceição Nazareth (Mãe Menininha do Gantois); Pai Procópio Xavier e Eugênia Anna dos Santos ( Mãe Aninha), do Ilê Axé Opô Afonjá. 

Instalado na sede do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), o evento deu atenção ao candomblé, mas também à capoeira e à música, como destacou A TARDE ao publicar a programação, na edição do dia 11 de janeiro, data de início das atividades: 

“Dla 11 — Sessão de instalação às 15 horas no Instituto Histórico da Bahia. Leitura e discussão de theses. Sessão ordinária às 20 horas. Dia 12-Sessão ordinaria, às 9 horas.  Sessão ordinária às 14 ½ horas. Visita ao “terreiro” de Procopio no Matatu Grande às 18 horas. Visita ao “terreiro” do Engenho Velho, às 21 horas. Dia 13-Sessão ordinaria, às 9 horas. Exhibição de samba e de “batuque” no campo de basket-ball do Club de Regatas Itapagipe, às 14 ½ horas. Visita ao Centro Cruz Santa do  Aché do Opô Afonjá, em São Gonçalo do Retiro, às 20 horas. Dia 14- Exhibição de capoeira Angola, sob a direcção de Samuel Querido de Deus, no campo de basket-ball do Club de Regatas Itapagipe, às 9 horas. Festa fetichista do candomblé da Goméa, do pae-de-santo João da Pedra Preta em São Bartholomeu, às 14 ½. Sessão ordinaria, às 20 horas. Dia 15- Última sessão ordinaria, às 9 horas. Sessão solenne, em homenagem a Nina Rodrigues, iniciador dos estudos africanos no Brasil na Faculdade de Medicina da Bahia, às 14 ½. Visita ao candomblé do Gantois, às 20 horas” (A TARDE, 11/01/1937, p.2). 

A TARDE cobriu o II Congresso Afro-Brasileiro
A TARDE cobriu o II Congresso Afro-Brasileiro |  Foto: Cedoc A TARDE
 

A colaboração com o congresso superou as fronteiras da Bahia. Além dos textos de pesquisadores norte-americanos como Melville Herskovits houve a colaboração de intelectuais brasileiros de outros estados. De acordo com a reportagem, a Prefeitura de São Paulo enviou o compositor Camargo Guarnieri para representar Mário de Andrade. O objetivo era recolher canções consideradas de origem africana e “popular” para promover a divulgação da música nacional. 

A programação incluiu uma diversidade de atividades, como exposições e estímulo à visita aos acervos especializados na cultura afro-brasileira. A partir do texto é possível saber que, naquele período, estavam funcionando os chamados museus afro-brasileiros no IGHB e no Instituto Nina Rodrigues. Na mesma reportagem também foi anunciada a transmissão, pela Rádio Commercial da Bahia, da festa de encerramento do congresso prevista para acontecer no Terreiro do Gantois. 

No clichê que mostra a festa realizada no terreiro do babalorixá Procópio Xavier de Souza, a reportagem publicada na edição de 15 de janeiro aponta os detalhes de como o congresso estava empolgando a cidade. Na imagem, o músico Camargo Guarnieri aparece fazendo anotações, provavelmente sobre as músicas da cerimônia. Outro dos destaques da programação do congresso foi o samba organizado por Joãozinho da Goméia, ainda chamado de João da Pedra Preta, no Clube de Regatas Itapagipe. 

A TARDE cobriu o II Congresso Afro-Brasileiro
A TARDE cobriu o II Congresso Afro-Brasileiro |  Foto: Cedoc A TARDE
 

Memória

Terreiros, como o que era comandado por Joãozinho, localizado na Goméia, em São Caetano, e o Ilê Axé Opô Afonjá também receberam visitas. Além disso, mestres de capoeira deram um show à parte, segundo o texto que ainda cita a prática como “esporte da malandragem”, um estereótipo que a perseguiu durante muito tempo. Barbosa, Zepelin, Bugaia, Onça Preta e Juvenal são os capoeiristas mencionados. 

A reportagem fez ainda um importante registro. Devido à necessidade de apresentar todos os trabalhos inscritos e a disposição dos participantes em conferir a Festa do Bonfim, o encerramento, previsto para o dia 15, foi adiado.  Na edição do dia 18 de janeiro, A TARDE voltou ao assunto destacando os trabalhos apresentados e a palestra de um dos jornalistas da sua equipe: Jorge Calmon que abordou, segundo a reportagem, a influência árabe entre os negros bantos. 

A importância do II Congresso Afro-Brasileiro pode ser medida pela variedade de artigos e outros textos científicos sobre ele. Um deles, com foco especialmente na cobertura jornalística é o intitulado O negro em O Estado da Bahia, monografia de conclusão de curso do jornalista Vinicius Clay, orientada pelo antropólogo Renato da Silveira, em 2006. Édison Carneiro era colaborador desse jornal em paralelo às suas pesquisas no campo da etnografia do candomblé até se mudar para o Rio de Janeiro onde morreu em 1972.  

Outro destaque do evento é o seu presidente, Martiano Eliseu do Bonfim, um intelectual que se pode dizer orgânico das comunidades afrorreligiosas, pois era filho de africanos e esteve vinculado a vários núcleos da prática do candomblé especialmente a Casa Branca do Engenho Velho da Federação e o Ilê Axé Opô Afonjá. Neste último teve um papel importante na fundação. Adolescente, Martiniano passou uma temporada em Lagos, Nigéria, e era fluente em inglês e iorubá, além de ser babalaô, uma formação de prestígio especialmente no período em que essa religião estava às voltas com o discurso de originalidade quanto maior a proximidade com uma experiência de estadia na África Negra. 

Amigos muito próximos, Édison Carneiro e Martiniano Eliseu do Bonfim estabeleceram um interessante diálogo a partir das posições que ocupavam. O primeiro, como jornalista, construiu uma ponte em lugar importante, pois nos jornais da época circulavam discursos de perseguição ao candomblé definidos por esta linha como uma prática “bárbara, primitiva e atrasada”. Já Martiniano era o informante especializado e com autoridade não apenas para Édison Carneiro, mas para outros intelectuais que estavam produzindo estudos sobre o candomblé.   

Novos caminhos

Além dos trabalhos apresentados pelos pesquisadores no congresso, a organização política marcou o evento. Foi dele que resultou a fundação da União das Seitas Afro-Brasileiras da Bahia abrindo caminho para a Federação Baiana do Culto Afro-Brasileiro (Febacab) e atualmente Federação Nacional do Culto Afro-Brasileiro (Fenacab). 

“Além da fundação dessa organização dá para perceber como o II Congresso Afro-Brasileiro conseguiu reunir pessoas das mais variadas correntes ideológicas na Bahia daquele período: gente mais progressista, mas também alguns conservadores”, avalia Jeferson Bacelar, professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), autor de trabalhos como Mário Gusmão, um príncipe negro na terra dos dragões da maldade, A hierarquia das raças- negros e brancos em Salvador, dentre outros. Em 2018, Bacelar, ao lado dos professores Cláudio Luíz Pereira e Jaime Nascimento, organizou um encontro para marcar os 81 anos da realização do II Congresso Afro-Brasileiro.   

“Tentamos fazer em 2017, nos 80 anos, mas foi muito difícil conseguir recursos mesmo para marcar uma data tão importante. No ano seguinte ao menos conseguimos realizar com a participação de vários pesquisadores, inclusive de outros estados”, destaca o historiador Jaime Nascimento. Em sua avaliação, um dos destaques do congresso, foi a diversidade de eventos e o protagonismo para o candomblé. 

“O congresso foi importantíssimo tanto pelo conteúdo como pela forma. Foi também uma resposta à descrença, especialmente de Gilberto Freyre em uma disputa sobre esse evento, pois o primeiro havia acontecido em Pernambuco. Édison Carneiro, ainda era muito jovem assim como os outros membros da comissão, mas a presença de Martiniano Eliseu do Bonfim, inclusive na presidência, deu um outro tom e marcou o protagonismo dado ao candomblé com a participação dos representantes dos terreiros”, completou. 

Para o doutor em antropologia, Cláudio Luiz Pereira, o II Congresso Afro-Brasileiro sedimentou a importância de Salvador como local dos estudos sobre a cultura afro-brasileira. “O congresso foi muito importante para a forma de pensar diversas questões envolvendo a população negra. E, com ele, Salvador sedimentou-se, sem dúvida, como um laboratório de pesquisa social”, acrescentou o antropólogo. 

A memória dos estudos do congresso foi organizada nos chamados anais, que permitem a consulta aos textos apresentados e a crítica às abordagens do período apontando para novas reflexões. Em 2019, por exemplo, Pereira visitou, em São Paulo, a exposição intitulada “2º Congresso Afro-Brasileiro de 1937- O Encontro entre Édison Carneiro e Camargo Guarnieri”. 

“O material exibido é muito interessante e mais um exemplo da importância desse evento realizado em Salvador”, diz o antropólogo. A mostra realizada pelo Centro Cultural São Paulo (CCSP) apresentou os resultados do trabalho de campo que Guarnieri, substituindo Mário de Andrade, realizou durante as atividades do congresso e os desdobramentos dessa experiência em suas composições.  A maior parte do material exibido pertence ao Acervo Histórico da Discoteca Oneyda Alvarenga, do CCSP. Há, portanto, diversas aberturas para novas histórias sobre esse evento marcante.  

A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período. Fontes: Edições de A TARDE, Cedoc A TARDE. Confira mais conteúdo de A TARDE Memória  no Portal A TARDE e em A TARDE FM.

*Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em antropologia

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