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Reportagem abriu corrida por reconhecimento de violinos como antiguidades

Publicado sábado, 01 de maio de 2021 às 06:03 h | Autor: Cleidiana Ramos*
Homem exibe um violino Stradivarius de 1721 considerado original; foram feitos cerca de 1.200 | Foto: UPI | Cedoc A TARDE
Homem exibe um violino Stradivarius de 1721 considerado original; foram feitos cerca de 1.200 | Foto: UPI | Cedoc A TARDE -

A edição de A TARDE publicada em 15 de junho de 1951 trouxe a história de Edmilson Ribeiro, que achou entre pertences antigos de sua família duas preciosidades: um violino Stradivarius e outro da marca Guarnerius. O primeiro tinha uma inscrição o datando como fabricado em 1721 e com o selo de garantia de um famoso luthier, denominação usada para indicar o especialista na produção de instrumentos de corda: o italiano Antonio Stradivari (1644-1737). Calcula-se que Stradivari fabricou durante a vida 1.200 violinos que assinava com a versão do seu sobrenome em latim: Stradivarius. O texto sobre os achados de Ribeiro desencadeou o que o jornal denominou alguns dias depois, no seguimento da cobertura sobre esse assunto, de “chuva de violinos”.

“Chuva”

“Notícias sobre nada menos de meia dúzia deles chegaram à nossa redação somente esta manhã – Com uma reportagem sobre o jovem Edmilson Ribeiro que, residente em Castro Alves, diz possuir um legítimo Stradivarius, recentemente publicada por este jornal, se assanharam os donos de violino”. (A TARDE, 20/6/1951, p.2).

Imagem ilustrativa da imagem Reportagem abriu corrida por reconhecimento de violinos como antiguidades
Jornal definiu como “Chuva de Stradivarius” a corrida para atestar antiguidade || 20.6.1951

A expectativa de confirmar a posse de um Stradivarius justifica-se pela preciosidade da peça. Segundo texto do site Opera Mundi, publicado em 2006, estimava-se que estavam em circulação, naquele ano, apenas 500 exemplares dos violinos fabricados por Antonio Stradivari. Além da apontada qualidade técnica das peças criadas por ele, Stradivari foi discípulo de Nicolo Amati, membro da família a que foi atribuída a invenção do violino a partir da viola utilizada para as composições na Idade Média.

Ao encontrar o instrumento com a inscrição “ANTONIUS STRADIVARIUS CREMONENSIS FACIEBAT ANNO 1721”, Edmilson Ribeiro considerou-se diante de um golpe de sorte. A ideia de ir verificar a peça, uma memória de família, veio por meio de outra reportagem de A TARDE que contava como um soldado norte-americano encontrou um Stradivarius em meio a ruínas em uma cidade coreana. Ao checar o instrumento que tinha em casa, ele encontrou também o violino “Guarnerius”. Essa assinatura é para as peças fabricadas por Giuseppe Guarneri “del Gesù”, outro mestre da cidade de Cremona, mas que não alcançou a visibilidade e fama na extensão das conquistadas por seu conterrâneo, Stradivari.

Com a descoberta, Ribeiro, de acordo com a reportagem, enviou cartas para o Conservatório de Santa Cecília, localizado em Roma, e para os museus do Louvre, Britânico e Metropolitano de New York. Também escreveu para o Ministério da Educação e Saúde e, por fim, comunicou sua descoberta aos jornais.

“Agora, com os dois violinos nas mãos, Edmilson, que não quer se transformar, ele próprio, num museu ambulante, procura vender suas preciosidades depois de autenticá-las. Já recebeu várias propostas, sendo a mais alta, pelo Stradivarius, 50 mil cruzeiros e pelo Guarnerius 30 mil. Também várias emprezas de publicidade já lhe propuseram viagens de propaganda, com os seus violinos, mas essas propostas não foram aceitas”. (A TARDE, 15/6/1951, p.2).

Em todas as respostas que recebeu das instituições consideradas especializadas em música e memória que consultou, Edmilson Ribeiro foi aconselhado a procurar uma autenticação das peças com especialistas. De acordo com a reportagem, Ribeiro afirmou que o seu Stradivarius tinha as especificações para ele sugeridas pela Enciclopédia Britânica, uma fonte de referência reconhecida.

“O Stradivarius, cujo peso e dimensão, já foram conferidos por Edmilson com os que aponta a Enciclopédia Britânica tem, adiante da inscrição, o símbolo AS, entremeado por uma cruz, tudo dentro de um círculo duplo. A parte posterior do violino tem raias como as listas de uma zebra. Seu verniz é castanho e bem conservado, um pouco claro no ombro esquerdo e no braço, escurecendo novamente na extremidade superior. Sua sonoridade é, deveras, magnífica. O Guarnerius tem a seguinte inscrição: JOSEPH GUARNERIUS FECIT CREMONAB ANNO 1782”. Mais adiante, o símbolo IHS. Uma particularidade: o 82 é escrito a tinta, sendo o resto impresso. Seu verniz é de tonalidade mais clara do que a do Stradivarius, quase marrom, sendo o braço claro”. (A TARDE, 15/6/1951, p.2).

Os especialistas recomendaram que Edmilson Ribeiro buscasse os atestados de origem das peças. A comprovação da procedência e antiguidade dos instrumentos os alçaria a valores muito acima do que já era considerada uma excelente estimativa em moeda nacional. De acordo com o texto de A TARDE, o Stradivarius estava na faixa de três milhões de cruzeiros e o Guarnerius valia cerca de quatro milhões, pois era o preferido para concertos.

Especialista

Com a repercussão da reportagem e a correria de proprietários de violinos para saber se os de sua propriedade estavam incluídos na categoria de preciosidade, A TARDE voltou ao tema na edição de 21 de junho de 1951. O texto já começou informando que era muito difícil a presença de tantos exemplares autênticos na Bahia, afinal, diante dos cálculos entre o número de peças fabricadas por Stradivarius e as que ainda circulavam no século XX, ficava muito difícil a disponibilidade de tantos em território baiano.

“Digamos que, entre os 26 e noventa e poucos anos, Antonio Stradivarius tivesse fabricado 1.200 violinos, dos quais cerca de 300, pelo menos, hajam sido perdidos, por motivos vários, na mesma época de sua existência. Se considerarmos outros fatores, poderemos acrescentar a essas perdas, até hoje, uns 600. Restam, portanto, 300, na melhor das hipóteses. Seria um desses cúmulos absurdos a concentração de dez ou vinte Stradivarius na Bahia – ainda vão aparecer mais – quando existem – no mundo pelo menos 1 bilhão de pessoas, de todos os continentes, com chance de possuir um desses violinos por quaisquer meios”. (A TARDE, 21/6/1951, p.2).

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Reportagem mostra técnicas para reconhecer quando violinos são originais | Foto: Arquivo A TARDE | 21.6.1951

Para tentar conter os entusiasmados proprietários de violinos o jornal ampliou a reportagem para prestação de serviço ao consultar um especialista no assunto: Camerino Sales, professor de violino, piano, teoria e trabalhos manuais. Na reportagem ele disse que havia em circulação uma série de cópias e algumas, por não ser bem-feitas, não resistiriam a um exame visual realizado por especialistas.

“Ele mesmo é dono de ‘uma suspeita de Guaernerius’, que classifica como uma boa cópia, e de um autêntico Kloz pelo qual já achou oferta de 30 contos”. (A TARDE, 21/6/1951, p.2).

O professor Camerino Sales explica, portanto, como é possível atestar a idade de um violino a partir de um exame da peça:

“No violino velho, a madeira não tem mais seiva, não deixa passar a luz. Se você puser uma lâmpada forte sobre um violino novo, olhando, pela base, para o seu interior, você o verá iluminado, em estrias. Isso não acontece com a madeira velha, cuja seiva já desapareceu: nem um raio de lua a atravessará. Por outro lado, em geral, nos violinos velhos, a cabeça é emendada ao cabo, pois o mesmo se gasta com o uso, se adelgaça e é substituído. Geralmente, também, a parte inferior da cabeça, nos violinos antigos, está gasta pelo contacto com o veludo ou flanela da caixa”. (A TARDE, 21/6/1951, p.2).

A reportagem do dia 21 de junho parece ter encerrado o assunto em 1951. Nas edições seguintes do mês o tema não voltou a ser abordado. Mas eis que 43 anos depois a localização de um possível Stradivarius voltou a ser notícia no jornal. Dessa vez, o instrumento estava em Juazeiro e pertencia ao comerciante de pedras Evilásio Carvalho Muniz. De acordo com ele, o instrumento foi de Altina Duarte Branco, membro da sua família, e que integrava uma orquestra local.

O violino foi encontrado num velho baú e resgatado após ter sido jogado no lixo. “Por pouco não perdíamos essa preciosidade, pois as meninas, sem dar importância aos detalhes, simplesmente jogaram o violino no lixo, e eu tive a curiosidade de abrir aquela caixa preta e descobri que se tratava de uma relíquia, embora não soubesse que fosse um Stradivarius. Só mais tarde, conversando com pessoas do ramo é que identificaram a peça e nos transmitiram a sua importância”, disse. (A TARDE, 17/9/1994, caderno 2, p.7).

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Texto aborda reivindicação da existência de violino Stradivarius em Juazeiro || 17.9.1994

O instrumento encontrado em Juazeiro tinha a indicação de 1737 como o período da sua fabricação. Este foi o ano da morte de Antonio Stradivari. Infelizmente, nas edições posteriores não consegui localizar, assim como no caso das peças de Edmilson Ribeiro, notícias sobre os exames para autenticação. Além disso, em 1994, parece não ter se repetido a corrida de outros candidatos a guardiões de uma peça extremamente valiosa.

A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período. Fontes: Edições de A TARDE, Cedoc A TARDE e Opera Mundi (https://operamundi.uol. com.br/historia/45968/ hoje-na-historia-1737- morre-antonio- stradivarius-fabricante- de-violinos)

*Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em Antropologia

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