Século XX começou com cancelamentos recorrentes das Olimpíadas

Publicado sábado, 12 de junho de 2021 às 06:01 h | Atualizado em 12/06/2021, 00:16 | Autor: Cleidiana Ramos

Previstos para acontecer no ano passado, os jogos olímpicos foram adiados para este ano. A cerimônia de início está prevista para o próximo dia 23 de julho. Imaginava-se que a edição, agora em 2021, poderia transformar-se em uma celebração universal de alívio, afinal aguardavam-se as vacinas, que realmente chegaram. Mas as desigualdades da geopolítica persistem para além dos limites da boa vontade do esporte. Se há países com altas taxas de vacinação, como os EUA, no Brasil, quem consegue a imunização comemora à semelhança de um milagre. A organização confirma a realização dos jogos, mas há ainda quem duvide, afinal nas primeiras décadas do século XX três edições foram canceladas devido às guerras mundiais. Fundada em 1912, A TARDE, por exemplo, só pôde iniciar sua cobertura de Olimpíadas oito anos depois, coincidindo com a estreia brasileira no evento realizado em Antuérpia, na Bélgica, de 20 de abril a 12 de setembro de 1920.

A participação brasileira ocorreu por meio do empenho do embaixador do Brasil na Suíça, Raul Paranhos do Rio Branco. A delegação formada por 29 atletas enfrentou contratempos, como o atraso na viagem de navio, a necessidade de fazer o resto do percurso via ferrovia e o roubo das armas para a competição de tiro esportivo.

Das cinco modalidades disputadas nas Olimpíadas de 1920 só a natação continua a ter visibilidade durante as competições. As demais – polo aquático, remo, saltos ornamentais e tiro esportivo – já não mobilizam a torcida brasileira, mas no período tinham esse poder. Nas reportagens de A TARDE há destaque principalmente para o remo e o polo aquático. As histórias sobre as disputas foram contadas com o amplo uso de palavras em inglês. O polo aquático era chamado de water polo e as equipes de team.

Na edição de 26 de agosto de 1920, uma fotografia na capa do jornal destacava Mangangá, o goleiro do time de polo brasileiro, mas chamado de keeper:

“MANGANGÁ - O heróe do dia em Antuerpia - Keeper do team brasileiro de water polo é considerado entre as equipes estrangeiras como o primeiro jogador do mundo em tamanho e destreza”. (A TARDE 26/8/1920, capa).

Na seção especial dedicada aos esportes, A TARDE apresentou mais detalhes sobre a partida. Apesar de ter sido derrotada pela Suécia por

7 a 3, a equipe brasileira foi elogiada pelas qualidades demonstradas ao longo da disputa com destaque para a atuação do goleiro Mangangá.

“O jogo foi sensacional, emocionando a enorme assistência que não escondia as suas sympatias pela representação brasileira admirando especialmente a extraordinária perícia de Mangangá” (A TARDE 26/8/1920, p.3).

Em meio ao uso de tantas palavras em inglês para descrever os lances de polo aquático neste período, Mangangá – uma das formas que um inseto parecido a uma abelha e com picada extremamente dolorida é chamado em algumas regiões do Brasil, como no sertão da Bahia – não era o único da equipe com apelido. O grupo de jogadores contou ainda com Chocolate. O time incluía Orlando, Abrahão, Alcides, Angelo e Jorio. Este último era considerado o craque da equipe, mas não enfrentou a Suécia devido a uma contusão no braço.

A participação brasileira na edição terminou com medalhas, mas elas vieram pela atuação da equipe de tiro: Guilherme Paraense ganhou a de ouro em tiro rápido (25 m); Afrânio Antônio da Costa ganhou a prata na pistola livre (50 m). A terceira medalha de bronze foi por equipes na mesma modalidade. A equipe foi composta pelos dois medalhistas na categoria individual e mais Sebastião Wolf, Fernando Soledade e Dario Barbosa.

Sequência difícil

Em 1924, A TARDE anunciou, na capa da edição de 6 de maio, os cartazes dos jogos iniciados em Paris, França, dois dias antes. A participação brasileira em sua segunda Olimpíada consecutiva começou tumultuada. Faltou dinheiro para o envio e acomodação dos atletas.

Na edição de 6 de maio de 1924 uma reportagem de A TARDE afirmou que o Brasil estava fora das Olimpíadas devido a uma série de erros do comitê responsável pela ajuda aos competidores:

“Tinhamos quatro annos para uma intensa preparação. O que aconteceu não é mysterio para ninguém. A Confederação descuidou-se, quiz resolver tudo às pressas nos últimos mezes e tudo falhou. Escassearam-lhe os recursos, recusando-se o governo, por fim, a sancionar o decreto de subvenção votado pelo Congresso”. (A TARDE, 6/5/1924, p. 2).

O texto de A TARDE apontou o futebol como uma possibilidade de que houvesse sucesso nas Olímpiadas, mas o país acabou por enviar uma delegação formada por apenas 12 atletas para competir em três modalidades: atletismo, remo e tiro esportivo. Não houve conquista de medalhas.

Em 1928, na edição seguinte dos jogos, realizados em Amsterdã, Holanda, o Brasil não enviou delegação. Devido a mais uma das muitas crises econômicas decidiu-se pela não participação dos atletas nos jogos que inauguraram a cerimônia de acender a pira olímpica.

Mulheres

Los Angeles, EUA, recebeu, em 1932, a quarta Olímpiada consecutiva após a parada traumática devido à Primeira Guerra Mundial. A delegação brasileira foi formada oficialmente por 66 atletas, mas 82 embarcaram. Como havia cobrança de uma taxa para cada passageiro desembarcado e os recursos não chegavam para essas despesas, houve o acordo de que só deixaria o navio que os transportou quem tivesse chance de medalha. Uma segunda negociação incluiu no desembarque também a equipe de polo aquático e a de atletismo.

Mas a grande novidade dessa delegação brasileira foi a presença de uma mulher. Aos 17 anos, a nadadora Maria Lenk foi não apenas a primeira brasileira a disputar uma Olimpíada como a primeira sul-americana.

Em A TARDE, as notícias sobre os jogos foram publicadas em “Todos os esportes”, a seção especializada do jornal. Mas o complemento do conteúdo editorial destacava o complicado contexto das cicatrizes deixadas pela Primeira Guerra. O Brasil também passava por conflitos como a Revolução Constitucionalista, que ocorreu em São Paulo. O enfrentamento começou dias antes da abertura das Olimpíadas complicando as relações do governo de Getúlio Vargas com os grupos que lhe faziam oposição. A Bahia, por exemplo, estava sob intervenção.

O aumento no número de atletas enviados para a competição não se traduziu em medalhas. A delegação brasileira voltou de Los Angeles sem ter conseguido colocações em pódios das disputas.

Ruptura

Os jogos realizados em Berlim, Alemanha começaram em meio a uma ameaça de boicote de outras nações devido ao governo de Adolf Hitler (1889-1945). Suspeitava-se que os nazistas iriam utilizar os jogos de 1936 para fazer a propaganda das suas ideologias racistas, mas um acontecimento ainda hoje é celebrado como uma amostra de que o esporte tem força para mandar recados contundentes por meio de um resultado ou do gesto de um atleta.

Hitler e seus seguidores assistiram ao triunfo de um americano negro: Jesse Owens. O atleta que ficou conhecido como “o homem que calou Hitler” ganhou quatro medalhas de ouro em provas de atletismo: 100m, 200m, 4x100m e salto em distância. Além disso, ainda estabeleceu novos recordes mundiais nas provas de 200 metros e salto em distância. Por ironia, o atleta que esfarelou, com a sua performance, o discurso de superioridade de raças na cara dos nazistas, ao retornar ao seu país, os EUA, estava diante da política de segregação, outra aberração derivada do racismo.

Na edição de 12 de agosto de 1936, A TARDE publicou uma reportagem com o perfil de Owens:

“Interrogado pelo nosso representante sobre o segredo das suas provas fenomenais, Owens respondeu: “Eu vivo como um verdadeiro athleta e esse é o segredo do meu sucesso”. ( A TARDE, 15/08/1936, p7).

Na delegação brasileira para a Olímpiada de Berlim, formada por 94 atletas, Maria Lenk ganhou mais cinco companhias do mesmo gênero: sua irmã, Sieglind Lenk, Piedade Coutinho, Scylla Venâncio, Helena de Moraes Salles e Hilda von Puttkammer.

O futebol brasileiro não esteve representado, mas A TARDE acompanhou a polêmica envolvendo a seleção peruana. Após vencer a Áustria, a equipe do Peru foi comunicada que o jogo estava anulado pois as dimensões do campo estavam fora do padrão. A proposta dos organizadores era por um novo jogo que os peruanos recusaram.

“Todos os jornaes do paiz protestam violentamente contra a decisão do comitê Olympico annullando a victorla do Peru . O povo percorre as ruas da cidade, fazendo manifestações de protesto contra a decisão olymplca” (A TARDE, 11/8/1936, p4).

Pelo mundo as tensões não resultavam apenas da irritação com o resultado de uma prova. A Espanha, por exemplo, caminhava para a guerra civil, em lances noticiados por A TARDE, como na capa da mesma edição sobre a confusão após a anulação do jogo entre Peru e Áustria. Outros conflitos aumentavam o medo que se tornou concreto três anos após os jogos de Berlim: a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Por conta do novo conflito em escala global, as Olimpíadas de 1940 e 1944 foram canceladas. Os jogos renasceram na edição de 1948, realizada em Londres, Inglaterra. Desde então o cronograma foi sendo seguido até a edição prevista para ocorrer no ano passado em Tóquio e que agora se apresenta como a edição do adiamento. Como a ocorrência dos jogos em meio a uma crise sanitária é algo inédito o que podemos ter certeza é que valores tão caros a esse evento, como a união por meio do abraço ou do cumprimento entre atletas após uma disputa não serão imagens possíveis ou, no mínimo, prudentes.

Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em Antropologia

*A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período

Fontes: Edições de A TARDE, Cedoc A TARDE, site do Comitê Olímpico Brasileiro (https://www.cob.org.br/)

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