Trinta anos separam a abertura das duas maiores avenidas de Salvador
Estrada Velha do Aeroporto e Paralela funcionaram como vetores de expansão urbana de Salvador durante a II Guerra Mundial e nos anos 1970

As avenidas Aliomar Baleeiro, conhecida como Estrada Velha do Aeroporto, e Luís Viana Filho, a Paralela, marcam a expansão urbana e o desenvolvimento de Salvador em fases distintas. A primeira, dos anos 1940, foi aberta com finalidade militar e se transformou em eixo essencial de ligação na periferia. A segunda, inaugurada na década de 1970, se consolidou como vetor de crescimento em direção à Região Metropolitana (RMS). As duas também são as maiores em extensão com, respectivamente, 20 e 18 quilômetros.
A abertura da Aliomar Baleeiro, entre 1943 e 1944, no período da II Guerra Mundial, se dá no contexto da primeira grande reforma urbana prevista para a capital a partir da criação do Escritório Público de Urbanismo da Cidade (Epucs), coordenado pelo engenheiro Mário Leal Ferreira. O Epucs contemplava zoneamento urbano, vias de comunicação, serviços públicos e a preservação de prédios e monumentos históricos. Esse plano foi responsável por diversas outras modificações ocorridas na cidade a partir dos anos 1940.

Com 20km de extensão, a Aliomar Baleeiro – ou Estrada Velha do Aeroporto - é a maior avenida da cidade e foi criada para ligar a Base Naval, em São Tomé de Paripe, à Base Aérea de Salvador, no aeroporto da cidade, daí o apelido. Seu nome foi escolhido em homenagem ao soteropolitano Aliomar de Andrade Baleeiro, professor, advogado, deputado estadual e federal, ministro e presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Já o traçado seguiu a topografia natural, sem preocupações com curvas ou aclives, o que explica os trechos desafiadores que exigem atenção redobrada dos motoristas ainda hoje.
"Todos os elementos que envolvem os aspectos da vida urbana não são isolados, estão vinculados às dinâmicas sociais, econômicas e políticas. Então, em plena guerra, foi necessário fazer essa articulação das bases aérea e naval, mas a avenida também ajuda a estruturar um modelo físico territorial, expandindo a cidade a partir do centro", explica o arquiteto, urbanista e professor Luiz Antônio de Souza.

Hoje, a Estrada Velha do Aeroporto é a principal ligação entre bairros periféricos de Salvador. O professor lembra que a capital da década de 1940 não tinha nem 300 mil habitantes, eram cerca de 290 mil pessoas, e era uma cidade que tinha a sua área de ocupação muito concentrada. Segundo ele, naquela época, o Rio Vermelho era longe e pouco se falava do bairro da Liberdade ou mesmo de Brotas, que tinha um conjunto de chácaras.
Um milhão de pessoas
Os quase 300 mil habitantes da década de 1940 já eram um milhão em 1970, um crescimento muito significativo e que aconteceu, em parte, pela migração de pessoas que se deslocaram para Salvador vindas de outras regiões da Bahia ou de outros estados, por motivos diversos.
“Na década de 1970, do ponto de vista da sua estrutura física e territorial, a construção da Paralela [Avenida Luís Viana Filho] é um elemento importantíssimo", afirma Luiz Antônio de Souza, apontando que não podemos esquecer que antes da Paralela ser inaugurada, em 1974, portanto 30 anos depois da Aliomar Baleeiro, já existiam o Shopping Iguatemi (agora Shopping da Bahia), a rodoviária, já desativada e com uma nova em Águas Claras, a Avenida Tancredo Neves e o Centro Administrativo da Bahia (CAB), implantado dois anos antes, em 1972.

"Até amanhã estará asfaltado um trecho de seis quilômetros da segunda pista da Avenida Luís Viana Filho (Paralela). Os oito quilômetros restantes ficam concluídos até o fim deste mês, 'se as chuvas não atrapalharem', segundo informou, ontem, o Diretor do Departamento Municipal de Estradas de Rodagem, Sr. Adalberto Rocha e Silva. A segunda pista da Paralela terá 14 quilômetros de extensão, 10,5 metros de largura e custará à Prefeitura cerca de Cr$16 milhões, dando tráfego sentido Aeroporto-Cidade", registra a edição de 3 de setembro de 1974 de A TARDE, sobre a finalização das obras.
Batizada em homenagem ao advogado, professor, historiador e governador da Bahia (1967-1971), a Avenida Luís Viana Filho, com 18km, é a segunda no ranking das vias mais extensas da cidade. Ela corre quase em paralelo com a orla atlântica da capital, por isso ganhou o apelido de Paralela. Ligando a região do Iguatemi até a divisa com Lauro de Freitas, foi criada como conexão estratégica para acompanhar a expansão da cidade em direção à RMS.
"A construção da Paralela está associada a um novo modelo de desenvolvimento econômico e social, comandado pelo capital monopolista. [Após sua abertura] ela ainda vai servir para estruturar a BR-324, que por sua vez possibilitou a expansão do Litoral Norte e, inicialmente, Lauro de Freitas até o Complexo Petroquímico. É um estirão viário que, além de ser uma estrutura de circulação, imprimiu um modelo de crescimento da cidade, trazendo em seu bojo uma forma de espraiamento e de esgarçamento social, pois a partir daí é que foi possível estabelecer o que chamamos hoje de periferias urbanas", explica o urbanista Luiz Antônio de Souza.
Paisagismo
Na década de 1980, a região da Paralela ainda era considerada uma área distante e deserta da cidade, um local que estava longe de ser visto como ideal para morar por boa parte da população. Tinha gente que até considerava um desperdício expandir a cidade para aquela região. Ainda assim, em 1982, os primeiros empreendimentos imobiliários começaram a ser erguidos.
A edição de A TARDE de 14 de abril daquele ano explicava que as obras de paisagismo e urbanização da Paralela estavam em ritmo acelerado. "Cartão-de-visita da nova Salvador, a Paralela terá, em breve, um aspecto condizente com a arquitetura que abriga. A Paralela, por sua extensão, pela excelente salubridade e por sua importância como via de acesso ao Centro Administrativo da Bahia, ao aeroporto e à orla marítima, será uma das mais belas avenidas da cidade", diz o texto.

O trabalho de paisagismo e urbanização visava tornar a Paralela mais atrativa, mas não se restringia somente a essa avenida. "Uma iniciativa elogiável, a da urbanização das avenidas de vale, a começar pela Luís Viana Filho que, devidamente ajardinada e arborizada com palmeiras, amendoeiras e outras árvores tropicais, proporcionará a quem chegar a Salvador por via aérea um dos mais belos acessos ao Centro. (...) E é de desejar que seja concluído com todos os complementos indispensáveis à transformação das avenidas de vale, inclusive a Paralela, em verdadeiras avenidas, com calçadas para os pedestres, áreas para estacionamentos, passarelas", listava A TARDE, em 31 de março de 1982.
Uma curiosidade registrada pelo jornal, na edição de 28 de março do mesmo ano, é o hábito de “roubar mudinhas”, delito leve que todo aficionado por plantas conhece em Salvador, mas que ameaçava atrapalhar os planos paisagísticos na Paralela: “Em um ponto a área foi totalmente gramada e plantadas muitas mudas de coqueiros, por ser próximo a uma das lagoas. No dia seguinte verificou-se que mais da metade das mudas foram roubadas”, diz trecho de uma matéria sobre o ajardinamento dos canteiros da avenida.
Desafios modernos
Hoje, a Paralela já está tomada por construções residenciais e comerciais das mais variadas finalidades, mas imagens da avenida nos anos 1980 e 1990, quando ainda era ladeada por Mata Atlântica e cheia de lagoas, guardadas no acervo do Centro de Documentação (Cedoc) de A TARDE, preservam esse tempo em que por lá ainda era tão deserto que dava até para alguém ousar roubar uma muda de coqueiro.
"A estruturação das cidades, desde o início, apresenta grande influência das relações comerciais e a preocupação com a segurança do aglomerado humano. As necessidades básicas do ser humano social continuam as mesmas desde que este se tornou sedentário: abrigo, alimentação, higiene, socialização e descanso. A forma como o homem modifica o meio ambiente a fim de adequá-lo às suas necessidades é que se mantém em contínua transformação", diz trecho da dissertação "Paralela XXI: A expansão urbana no vetor da Avenida Luís Viana Filho Salvador/BA - 1968 a 2013", de Cristina Filgueiras Araújo.
A partir do final dos anos 1990 e começo dos 2000, a Av. Luís Viana Filho se tornou uma área de constante expansão imobiliária, com o desafio de manter a mobilidade da população da cidade que se aproxima dos três milhões de habitantes, quase o triplo de quando a via foi aberta. "Essa nova infraestrutura mostra que a mobilidade não pode ser entendida apenas como circulação. Mobilidade tem a dimensão da gestão de um sistema de transporte e de circulação cada vez mais complexo. O que se sente falta é de uma forma de pensar a cidade na sua totalidade. Pensar a região na sua totalidade", argumenta Luiz Antônio de Souza.

O urbanista explica que muitas ações são pontuais e descoladas da ocupação ideal do solo e que à medida que a região é cada vez mais ocupada por novos empreendimentos e modais de transporte, vai ficando mais difícil garantir uma boa circulação e fluidez na avenida. "Isso vai exigir soluções complexas, algumas sem resposta razoável, porque são infraestruturas caras e que convivem com uma cidade sem preocupação com planejamento. Estamos muito numa fase de planejamento corporativo, que considera os interesses das empresas, mas não os da sociedade. Esse passivo vai ficar para os mais jovens, porque é muito grave", alerta o professor.
RODAPÉ
*Com a colaboração de Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE
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