Túnel Américo Simas levou 15 anos e vários desafios para ficar pronto
Obra viária inaugurada em janeiro de 1967 foi pensada no contexto da modernização urbana de Salvador a partir da segunda metade do século XX

Um dos corredores viários mais movimentados de Salvador, o túnel Américo Simas foi inaugurado em janeiro de 1967 após décadas de debates e projetos que buscavam superar a barreira natural oferecida pela falha geológica que separa a cidade em Alta e Baixa. Construído ao longo de 15 anos, a obra se tornou um marco da modernização da capital no seu tempo e revolucionou a mobilidade urbana ao oferecer uma ligação direta entre o Vale de Nazaré e o Comércio, Além disso, tornou-se um símbolo da capacidade soteropolitana de enfrentar os nossos desafios geográficos com engenharia ousada.
Salvador, como registra a história e lembra o arquiteto Nivaldo Andrade, professor da Escola de Arquitetura da Ufba, foi fundada em 1549 para ser o principal porto e a sede do governo português nas Américas. Essa dupla função exigiu a escolha de um terreno estratégico, mas que se revelou complicado logo na origem da cidade, uma encosta com cerca de 60 metros de altura, separando o alto da montanha das águas abrigadas da baía de Todos-os-Santos. “No alto estava a cidade propriamente dita, com igrejas, palácios, casas e a administração pública. Na parte baixa, estava o porto, uma estreita faixa de terra que, naquela época, tinha o mar batendo onde hoje está o estacionamento da Conceição da Praia", acrescenta.

Essa área do porto era bem protegida e isolada, permitindo que as embarcações com mercadorias que navegavam pela baía atracassem e partissem com segurança e facilidade. Mas, o caminho das pessoas e mercadorias até a Cidade Alta era árduo. Com o passar dos anos, soluções diferentes foram sendo tomadas. Primeiro, enumera Nivaldo Andrade, vieram as ladeiras como Preguiça, Conceição, Misericórdia, Pilar e a da Montanha, “que ainda era muito íngreme, mas bem mais suave do que as outras. No entanto, o problema continuava e com a chegada dos automóveis, essa conexão entre Comércio e Cidade Alta passou a ser mais demandada".
Na segunda metade do século XIX foi a vez dos ascensores urbanos como os elevadores Lacerda e do Taboão e os planos inclinados Gonçalves e Pilar. Mas nenhum desses equipamentos resolveria o dilema a partir do século XX de como fazer os automóveis trafegarem entre os dois níveis de Salvador. "Já existiam guindastes para transporte de mercadorias desde o século XVII, mas o problema persistia. O primeiro estudo para a criação do que hoje é o túnel Américo Simas é de 1858, quando se falava em criar um túnel que ligaria a Rua da Vala, atual Baixa dos Sapateiros, com a região de Água de Meninos", explica o professor Nivaldo.

Construir um túnel é um desafio de engenharia que envolve superar barreiras naturais, técnicas e financeiras mesmo nos dias de hoje. E, no caso do Américo Simas, as dificuldades foram ainda maiores por causa da geografia de Salvador. Escavar a montanha exigiu soluções ousadas em uma época de recursos tecnológicos bem mais limitados que na atualidade. Além disso, o risco de desmoronamentos e infiltrações; além da dificuldade de manter o ritmo das obras em meio às restrições orçamentárias, fizeram com que o túnel levasse 15 anos para ser finalmente entregue.
Uma obra desafiadora
O projeto para a construção do túnel Américo Simas surge como consequência direta do primeiro grande projeto de planejamento urbano da cidade, o Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade de Salvador (EPUCS), revela o professor Nivaldo Andrade. Criado em 1942, o EPUCS nasceu sob a coordenação do engenheiro Mário Leal Ferreira, que possuía uma equipe multidisciplinar composta por engenheiros, arquitetos, advogados, médicos, botânicos, historiadores, topógrafos e fotógrafos. Mario Leal Ferreira faleceu em 1947, e o arquiteto e urbanista Diógenes Rebouças assumiu o escritório.
"Esse plano elaborou uma série de diretrizes para o crescimento e a adaptação da cidade para as demandas que vinham crescendo, como questões relacionadas aos automóveis, habitação popular e até onde a Ufba deveria ser instalada. Era o momento de discutir o futuro da cidade e essa conexão entre a Baixa de Sapateiros e o Comércio aparece com mais força a partir daí", conta o arquiteto.

Em 1952, Osvaldo Gordilho, então prefeito de Salvador, montou a comissão de engenheiros da prefeitura para estudar a implantação do túnel, que na época ainda não tinha se chamava Américo Simas, mas Túnel do Pilar. "Um deles, Quintino Steinbeck, foi Rio de Janeiro ver o túnel do Pasmado, que estava sendo construído, para saber como tinha sido a implosão da rocha, como tinha sido feita a dinamitação para abrir o túnel ", complementa Nivaldo Andrade.
O professor detalha que o túnel Américo Simas teve vários desenhos até que o modelo final fosse escolhido. "Os viadutos, que são aquelas alças que chegam ali perto do Moinho, tinham vários desenhos. O primeiro desenho do EPUCS não era daquele jeito. Do túnel, você saía num viaduto que ia até encostar no porto e ligava com a Avenida da França”, exemplifica.
Segundo o especialista, esse desenho que acabou não vingando era mais suave que o atual, que deixou muito terreno subutilizado ao redor dos viadutos construídos. Apesar da crítica, o professor afirma que do ponto de vista da conexão urbana, o Américo Simas continua extremamente importante para o fluxo do trânsito de veículos na cidade.
Cobertura de A TARDE
A construção do túnel foi amplamente noticiada em A TARDE nos 15 anos de duração das obras. O acervo do jornal também preserva fotos da época mostrando o começo da escavação da montanha e a estabilização da encosta, entre outras etapas. As dificuldades financeiras que atrasavam o cronograma também estão nos registros, bem como os custos da empreitada, como forma de manter a sociedade informada sobre a atuação da administração pública.
Em 1957, quando a prefeitura viu a necessidade de firmar um novo contrato, porque a obra já durava cinco anos, A TARDE noticiou: "Para prosseguir as obras de abertura do Túnel Américo Simas entre a rua J. J. Seabra e a Avenida Frederico Pontes, a Prefeitura assinou contrato com a firma Comercial Construtora Vitória Ltda, através do sócio-gerente desta, sr. Antônio Fernandes da Cunha. O valor global da tarefa contratada tem o limite de Cr$16.250.000,00", explicava a edição de 10 de agosto daquele ano.
O contrato estabelecia o prazo de dois anos para a conclusão do serviço, mas em 1959 o túnel estava longe de ser concluído. Naquele ano, já sob a gestão de Heitor Dias, a prefeitura começou a examinar a possibilidade da Companhia Docas da Bahia ajudar na conclusão das obras e o jornal trouxe a informação. "Dadas as suas vantagens também para o porto, a Companhia das Docas da Bahia, que já iniciou suas obras de ampliação, entrará também com numerários do Fundo Portuário. O assunto, disse o sr. Virgildásio Sena, dependerá ainda de maiores estudos entre a Prefeitura e a Companhia Docas da Bahia, que se mostrou bastante interessada", informa A TARDE na edição de 14 de novembro
No ano seguinte, o então prefeito Heitor Dias mandou acelerar os trabalhos e foi vistoriar os canteiros. "Ontem, acompanhado do titular da Secretaria de Viação, eng. Virgildásio Sena, e outros técnicos da Prefeitura, foi ver o andamento dos serviços de alargamento e nivelamento. Todo o túnel, em longa extensão, foi percorrido pelo prefeito e seus acompanhantes em pouco mais de cinco minutos" (...). O prefeito Heitor Dias afirmou que no ano seguinte o túnel seria inaugurado", informava o jornal de 9 de junho de 1960.

Embora o trabalho tenha de fato acelerado, ainda levariam outros sete anos para o túnel ser inaugurado. Em 1960, turmas de operários começaram a se revezar continuamente, garantindo a escavação 24 horas por dia, segundo informou A TARDE, na edição de 10 de agosto. Na mesma reportagem, o jornal descreve algumas características do futuro túnel e informa que a previsão era de que o Américo Simas tivesse 270 metros de comprimento - sendo 250 de galeria e 10 em céu aberto. Além disso, seriam 18 metros de diâmetro e 20 metros de largura, composto por duas pistas e dois passeios, além de um passeio no centro. Outro ponto destacado pelo jornal foi a iluminação escolhida, com lâmpadas de vapores de sódio, “que são especiais contra a neblina. O sistema de iluminação será o mais moderno do mundo. O centro será fortemente iluminado e a intensidade irá caindo à medida que se aproximar das saídas", cita a publicação.
Outra conexão
Enquanto as obras do túnel prosseguiam, em 1962, outra conexão importante da região do Comércio com a Cidade Alta foi inaugurada, a Avenida Contorno que, segundo o professor Nivaldo, foi idealizada no início dos anos 1950 pelo Departamento de Infraestrutura de Transportes da Bahia (Derba). “A avenida está na outra extremidade: o túnel está na extremidade norte do Comércio e a Contorno na extremidade sul", localiza.
Em de 30 de janeiro de 1967, 15 anos depois de muita pedra ser quebrada, o Américo Simas, que acabou batizado em homenagem a um dos fundadores da Escola Politécnica da Ufba, o engenheiro Américo Furtado de Simas, natural de São Félix, finalmente foi inaugurado. O personagem que nomeia a via era uma figura importante para a engenharia baiana entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Algumas fontes também apontam que um dos primeiros projetos para o futuro túnel foi feito por ele.
“Américo Simas trabalhou em diversos órgãos, levantando dados sobre os rios do estado e identificando uma série de questões ligadas ao próprio conhecimento do território da Bahia, além de ter sido um dos primeiros professores da Escola Politécnica da Bahia", lembra Nivaldo Andrade.
*Com a colaboração de Andreia Santana e Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE
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