ACM Neto recorre ao lulismo
Confira a coluna Conjuntura Política desta segunda-feira

A contratação do marqueteiro João Santana para a pré-campanha de ACM Neto é o fato político mais estratégico da semana. Não pelo nome em si, embora se trate de um dos profissionais mais experientes do país em grandes campanhas e que conhece a fundo os nexos sociais, culturais e políticos que formam a sociedade baiana. O que o movimento calculado revela é mais importante do que o nome: Neto admite, tacitamente, que a Bahia é lulista e que não há caminho eleitoral viável para quem insiste no anti-lulismo como estratégia principal.
Outra linha explicativa para a contratação de Santana perpassa pela força do digital nas campanhas sem descartar a dimensão (humana) da inteligência política, atenção às nuances do poder e ao capital simbólico que sustenta qualquer estratégia de comunicação. É exatamente o que faltou a Neto em 2022, quando cometeu erros primários ao escolher uma vice pouco expressiva eleitoralmente, teceu críticas banais à classificação racial do IBGE e se recusou em construir uma campanha mais interiorana com a cara do povo baiano de “fora da capital”. O resultado foi uma derrota que ainda pesa na memória do grupo político de oposição ao PT.
Os dados também explicam a correção de rumos, já que ao analisarmos a correlação entre o voto médio do PT para presidente e governador nos 417 municípios baianos entre 2014 e 2022 nota-se que em quatro de cada cinco municípios, quem votou em Lula votou no candidato petista ao governo do estado, o que ajuda a entender o eleitorado baiano ter dado ao PT a vitória nas últimas cinco eleições consecutivas para governador. Em termos práticos, quem levar às urnas um anti-lulismo radical na Bahia estará falando apenas para os convertidos do bolsonarismo baiano, uma minoria que não elege um governador.
Entendemos que o conjunto das agendas emergenciais de João Santana será construir atributos de imagem mais populares para Neto, um programa com pautas de centro-esquerda e um diálogo político que alcance metade do eleitorado que não convive nas 30 maiores cidades do estado. Nas grandes cidades, talvez busque criar um arquétipo de gestor eficiente de Neto, uma espécie de "anti-Jerônimo". No interior, tornar Neto uma liderança palatável ao eleitor lulista sem gerar um confronto aberto. É uma equação difícil, mas é a única que faz sentido eleitoral no estado.
Ao reconhecer a força de Lula na Bahia, Neto assume também que o alinhamento entre Jerônimo, Rui Costa e Jaques Wagner forma um bloco com décadas de capital político acumulado, reforçado pela máquina federal. Contratar um expert em lulismo para chamar de seu é uma resposta estratégica. Se vai dar certo, só o tempo dirá. Por ora, é o movimento mais inteligente que Neto fez até aqui em sua pré-campanha.
* Cláudio André de Souza é professor adjunto de Ciência Política da UNILAB e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRB. E-mail: [email protected]
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