ANÁLISE POLÍTICA
Crise e disputa com Michelle: o rastro de desgaste de Flávio Bolsonaro
Pesquisa AtlasIntel expõe cenário delicado para a oposição frente a Lula; veja os números


A pré-campanha de Flávio Bolsonaro entrou em uma fase mais delicada sob teste nas próximas semanas, já que o bolsonarismo preserva um capital eleitoral competitivo herdado do pai e sustentado pela força social do bolsonarismo, mas passou a conviver com um problema típico de candidaturas em crise: a dúvida interna sobre sua capacidade efetiva de vencer as eleições.
A disputa interna com Michelle Bolsonaro acelerou a crise após o escândalo da relação entre Flávio e o banqueiro Daniel Vorcaro. Neste momento, a ex-primeira-dama agrega setores evangélicos, mulheres conservadoras e segmentos da direita que enxergam nela uma imagem menos atingida pelos desgastes de Flávio. O balão de ensaio pela troca de Flávio embolou a organização da campanha fora da bolha da polarização levando a uma estratégia defensiva que já segue por meses.
A carta divulgada no sábado (11) e lida por Flávio nas redes sociais tentou recolocar Jair Bolsonaro como árbitro do bolsonarismo, sendo que ao chamar o filho de pré-candidato e porta-voz, o ex-presidente buscou encerrar as especulações e deu moinho à estratégia de crise de mitigar o dissenso promovido por Michelle.
A pesquisa AtlasIntel do início do mês ajuda a compreender o rastro da crise ao apontar que Lula aparece com 47,2% contra 36,3% de Flávio em um cenário de primeiro turno. No segundo turno, Lula alcança 48,8%, contra 42,3% de Flávio. A vantagem não concretiza o fim da disputa, mas altera o cálculo das lideranças. Todo mundo sabe que um presidente que se aproxima dos 50% num confronto direto modula com maior cuidado o custo de cada aliança.
Ao ser testada pela AtlasIntel, Michelle aparece com 19,3% no primeiro turno e perde para Lula no segundo por 48,7% a 38,9%, mas já confirma a existência de capital político fora do controle de Flávio. O incômodo persistente do núcleo de Flávio é que Michelle se mantém viva como uma alternativa eleitoral diante de um pré-candidato abatido pelo escândalo do Banco Master.
O maior risco para Flávio está na erosão gradual da campanha com o “mercado futuro” da tendência de inevitabilidade da derrota, o que muda a perspectiva da decisão do voto e do apoio pragmático de grupos que podem abandonar o barco bolsonarista em razão dos interesses estaduais.
As candidaturas fortes atraem apoios por gravidade, enquanto candidaturas vistas como vulneráveis passam a ser negociadas, condicionadas ou observadas à distância. O fato é que Lula consolida um cenário positivo para o governismo com a liderança dos principais cenários aproxima-se da casa dos 50% e observa a oposição tropeçar nas próprias pernas. Flávio continua no jogo, mas está ficando difícil sustentar a narrativa de virada sobre o lulismo nas próximas semanas.
*Cláudio André é Professor adjunto de Ciência Política da UNILAB e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRB. E-mail: [email protected]