CONJUNTURA POLÍTICA
Enigma soteropolitano
Confira a coluna Conjuntura Política desta segunda-feira


Foi o governador Otávio Mangabeira quem cunhou o fenômeno do “enigma baiano”, intrigado com o contraste entre a riqueza natural do estado e a pobreza do seu povo. O desenvolvimento da Bahia veio de forma gradual com o petróleo do Recôncavo em 1939, a chegada da Petrobras em 1953 e com a implantação do Polo Petroquímico de Camaçari a partir de 1972. Sem dúvidas, a construção de um parque industrial metropolitano ajudou na formação de uma classe trabalhadora organizada e sindicalizada, o que estruturou boa parte da base eleitoral do PT em Salvador muito antes de Lula virar presidente.
Essa genealogia explica para nós um enigma novo. Salvador nunca deu a Lula ou ao PT menos que 67% dos votos válidos desde 2002, ou seja, ao longo de seis eleições seguidas sem interrupção. A questão é que o enigma reside exatamente na disputa estadual. Em 2022, Lula obteve 70,7% contra 35,5% de Jerônimo Rodrigues, 35,2 pontos de diferença percentual, no mesmo ano em que ACM Neto tirou do PT o controle do Território Metropolitano pela primeira vez em vinte anos, com saldo positivo de 485.962 votos. Este apoio ao voto “Lula-Neto” em Salvador será nas eleições de 2026 o nosso “enigma soteropolitano” sob teste.
A série histórica mostra um resultado eleitoral expressivo para o PT ao governo nas eleições de 2002 (57%), 2006 (57%), 2010 (64%), 2014 (42%), 2018 (72%) e 2022 (36%). Ou seja, percebe-se que fogem do padrão de vitória petista as eleições de 2014 e 2022, exatamente no mesmo patamar de votos quando se apresentaram sucessores menos conhecidos entre os eleitores soteropolitanos.
Ainda tem o fato que dos treze municípios do Território Metropolitano, Jerônimo venceu em oito no segundo turno de 2022. A vantagem de ACM Neto só ficou robusta em Salvador. A questão é que o prefeito Bruno Reis acumula desgastes que não existiam quatro anos atrás, isto é, existe uma percepção a ser conferida que o segundo governo do gestor não está à altura do que foi o seu primeiro mandato.
Outro elemento reside na presença estratégica do governo estadual em agendas como o VLT, a ampliação do metrô até o Campo Grande, a nova rodoviária e a Ponte Salvador-Itaparica são apostas de que ACM Neto terá dificuldades de afirmar retoricamente que o governo tem sido omisso em presença institucional na capital baiana.
De maneira geral, o favoritismo de ACM Neto em Salvador é hipótese provável e realista. Mas o desempenho menos popular de Bruno Reis e a presença forte do governo do estado na capital colocam em xeque o grau deste favoritismo diante de um eleitorado claramente lulista e que transfere há várias eleições apoio significativo aos candidatos petistas a governador. Lula será um trunfo na eleição a governador em Salvador e freio ao voto “Lula-Neto”?
*Cientista Político, Professor do Mestrado Profissional em Governança e Políticas Públicas (UNILAB) e pesquisador da UFRB. E-mail: [email protected].