O futuro do PT
Confira a coluna Conjuntura Política
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Imagina o delírio de alguém achar que está em crise profunda um partido que ficou em primeiro ou segundo lugar simplesmente em todas as eleições presidenciais desde 1989? O Partido dos Trabalhadores (PT) completa 45 anos com vitalidade. Lula (2002, 2006 e 2022) e Dilma Rousseff (2010 e 2014) venceram cinco das últimas seis eleições, consolidando o lulismo como o grande fenômeno recente da democracia brasileira.
O programa do PT desde a sua fundação em 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion (SP), firmava a luta pela democracia como uma estratégia imprescindível à tática de organização interna do conjunto de trabalhadores da cidade e do campo. Naquele momento, os petistas enfrentavam um debate sobre a forma de resistência á ditadura militar, mas também avaliavam qual linhagem de pensamento político poderia solidificar as teses marxistas adaptada a uma forma mais “leve” de mobilização política diretamente vinculada à luta pragmática dos sindicatos.
Não é à toa que a ascensão nacional da liderança de Lula como um novo tipo de líder de massas levou imediatamente o petista a uma carreira política. Essa foi a principal novidade dada com a fundação do PT: a chegada de uma nova safra de lideranças de esquerda que conseguiu concatenar a luta pela democracia aos anseios da classe trabalhadora. A partir da década de 1990, o PT foi se moldando na institucionalidade, o que configura um grande desafio organizativo, isto é, ser um partido programático ideologicamente, mas que tem a sua estratégia centrada na competição política presidencial. Em termos comparativos, é o avesso do MDB e do PSD, partidos municipalistas que enxergam o poder de baixo para cima.
O partido também viveu crises e tempestades perfeitas diante dos desafios que são inerentes à presidência. A crise do mensalão (2005), o impeachment da presidente Dilma Rousseff (2016) e a prisão de Lula (2018) mostraram que o partido perdeu a batalha em torno da superação do patrimonialismo e das relações espúrias entre o público e o privado no Brasil, mas, sem dúvida, o saldo é positivo: se o PSDB que está à beira da morte deixou como grande legado ao país uma nova moeda decorrente da estabilidade macroeconômica, os petistas se tornaram o partido signatário de um projeto de modernização calcado na inclusão social como uma etapa histórica da nossa redemocratização.
Não precisa gostar do PT para reconhecer que o partido depois de quatro décadas está vivo em nossa democracia. Alguns desafios moldam o futuro do PT: o partido precisa entender melhor as novas demandas da sociedade e as mudanças em curso no mundo do trabalho. Será inevitável dar centralidade à mobilização digital para enfrentar a desinformação, um fenômeno complexo das democracias pelo mundo afora.
*Professor Adjunto de Ciência Política da UNILAB e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (UFRB). E-mail: [email protected].