O Fisco já é digital. E a sua empresa?
Coluna Direito e Tributos desta sexta-feira, 16

Durante décadas, o sistema tributário brasileiro foi sinônimo de complexidade normativa, excesso de leis e insegurança jurídica. Esse cenário não desapareceu. Mas algo mudou de forma silenciosa e profunda. O sistema tributário brasileiro entrou, de maneira definitiva, na era dos dados.
Hoje, o Fisco é digital, integrado e cada vez mais inteligente. Cruzamentos automáticos de informações, uso intensivo de bases de dados, inteligência fiscal, SPED, notas eletrônicas e monitoramento praticamente em tempo real transformaram a fiscalização. Ela deixou de ser episódica, reativa e pontual. Tornou-se contínua, preventiva e, muitas vezes, preditiva.
Nesse novo ambiente, o risco tributário já não está apenas no erro grosseiro, na omissão evidente ou na fraude clássica. O risco moderno é mais sofisticado — e, por isso mesmo, mais perigoso. Ele reside nas inconsistências entre sistemas, nos desalinhamentos de informações, na ausência de processos claros e, sobretudo, na falta de uma governança tributária minimamente estruturada.
O problema é que grande parte das empresas ainda opera com uma visão analógica da tributação. Trata o tema como uma obrigação contábil de fim de mês, delegada quase exclusivamente à contabilidade, como se fosse apenas mais uma etapa burocrática do negócio. Essa leitura já não se sustenta. Tributação, hoje, é tecnologia, é gestão de dados, é tomada de decisão e é, acima de tudo, gestão de riscos.
A reforma tributária tende a aprofundar esse abismo. O novo modelo com IVA Dual, novos mecanismos de crédito, obrigações acessórias mais sofisticadas e maior transparência exigirá sistemas integrados, dados confiáveis, rastreabilidade das operações e decisões rápidas. Não haverá espaço para improviso, retrabalho ou controles paralelos em planilhas. O sistema passa a exigir coerência, consistência e velocidade.
Enquanto isso, o Fisco já fez sua parte. Investiu em tecnologia, integração de bases, inteligência artificial e capacidade de fiscalização em escala. A pergunta que se impõe, simples na forma, mas incômoda no conteúdo, é inevitável: as empresas acompanharam essa evolução?
Em um ambiente tributário orientado por dados, quem não investir em tecnologia, processos e inteligência fiscal não enfrentará apenas autuações ou litígios administrativos. Enfrentará algo mais grave: perda de competitividade. Custos invisíveis, decisões mal informadas, insegurança jurídica interna e dificuldade de crescer de forma sustentável.
A era da tributação analógica ficou para trás. O jogo agora é outro. E, como em todo novo jogo, não basta conhecer as regras. É preciso entender o sistema, dominar os dados e assumir que, no mundo tributário atual, governança não é luxo; é sobrevivência.
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