Planejamento tributário nunca foi tão necessário — e nunca foi tão arriscado
Confira a coluna Direitos e Tributos
Durante muito tempo, o planejamento tributário foi um exercício legítimo de racionalidade econômica. Em um sistema caro, complexo e fragmentado como o brasileiro, organizar juridicamente as operações para pagar menos tributos dentro da lei sempre foi uma necessidade prática, não um privilégio. Planejar era sinônimo de eficiência, previsibilidade e sobrevivência empresarial.
Esse ambiente, porém, mudou — e mudou com velocidade. Nos últimos anos, e de forma ainda mais intensa com o avanço da Reforma Tributária, o planejamento passou a ser visto com desconfiança. Técnicas lícitas começaram a ser confundidas com fraude. A economia tributária, que sempre foi consequência natural de boas escolhas jurídicas, passou a ser tratada, em certos discursos, como algo moralmente questionável. O paradoxo é evidente.
Planejar nunca foi tão necessário. A carga tributária segue elevada, as margens diminuem, a concorrência se acirra e o novo sistema de tributos sobre o consumo exige decisões cada vez mais técnicas. Não planejar, hoje, significa operar no escuro, aceitar custos desnecessários, perder competitividade e comprometer a sustentabilidade do negócio.
Ao mesmo tempo, planejar nunca foi tão arriscado. A insegurança jurídica cresce, os critérios de fiscalização tornam-se mais subjetivos e a linha entre o que é lícito e o que é questionado passa, muitas vezes, a depender da interpretação do fiscal, do órgão ou do momento político. Combater a fraude é essencial. Criminalizar escolhas legítimas do contribuinte, não.
É preciso reafirmar um ponto fundamental: forma jurídica não é artifício. Forma jurídica é expressão do Estado de Direito. É a própria lei que oferece alternativas, regimes, estruturas e opções para que o contribuinte escolha aquela que melhor se adequa ao seu modelo de negócio. Ignorar isso é esvaziar a segurança jurídica e transformar o sistema tributário em um ambiente de medo, e não de conformidade.
Planejamento tributário não é evasão fiscal. É o direito de organizar os negócios dentro das alternativas legais existentes. Quando esse direito é enfraquecido, o resultado não é mais justiça fiscal. O resultado é menos investimento, mais litígio, mais contencioso e menos confiança. Empresas deixam de investir, projetos são adiados e o custo do conflito passa a substituir o custo da conformidade.
É exatamente por isso que o planejamento tributário mudou de natureza. Ele deixou de ser um exercício pontual e passou a ser um processo contínuo, técnico e estratégico, que exige leitura cuidadosa da legislação, compreensão do negócio, avaliação de riscos e governança. Planejar hoje não é “buscar atalhos”, mas construir caminhos juridicamente sólidos em um ambiente regulatório cada vez mais exigente.
O empresário que entende essa mudança sai na frente. Não porque paga menos imposto a qualquer custo, mas porque paga o imposto correto, com previsibilidade, segurança e estratégia. Em tempos de reforma, improvisar custa caro. Planejar bem é o que separa quem resiste de quem cresce.
E talvez essa seja a maior lição do novo momento tributário brasileiro: planejar não é um problema, mas parte da solução.
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