A magia e a poesia que fazem a autêntica pamonha de milho artesanal | A TARDE
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A magia e a poesia que fazem a autêntica pamonha de milho artesanal

Uma das iguarias mais pedidas no São João é simples de fazer, mas guarda segredinhos e macetes

Publicado sábado, 17 de junho de 2023 às 06:35 h | Atualizado em 17/06/2023, 06:41 | Autor: Isabel Oliveira
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 “Olha a cobra! É mentira”!, diz uma das expressões tradicionalmente citadas durante a quadrilha de São João, um dos festejos mais esperados pelos nordestinos. Principalmente depois de dois anos sem a “festa da roça”. Mas a cobra apareceu de verdade para a família do senhor Antônio e de Marcela, pai e filha, que trabalham com um dos principais produtos juninos, o milho, base da pamonha, da canjica e de tantas outras delicias dos festejos juninos. 

Eram 4h da madruga quando o senhor Antônio foi para a roça comprar o milho. Mas ele não contava com o rebuliço que aconteceria minutos depois. No caminhão lotado com a iguaria, vários trabalhadores contavam as unidades e colocavam nos sacos para os muitos compradores. Foi aí que avistaram a cobra. A gritaria foi geral! Pense num bando de homens a “pular” fogueira! Um verdadeiro arrasta-pé, em plena madrugada, em cima do caminhão.

A melhor pamonha é feita com milho irrigado, segundo especialistas em gastronomia
A melhor pamonha é feita com milho irrigado, segundo especialistas em gastronomia |  Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE
  

Foi um tal de corre aqui, corre acolá para pegar a cobra, que se esgueirava e tentava escapar em meio ao “milharal” do caminhão. O animal havia se enroscado em pés de milho que cercavam o automóvel para segurar as espigas durante a comercialização. Ao final, eles conseguiram conter a bichinha, que na certa achou que iria participar dos festejos juninos. 

Esta é uma das muitas histórias pitorescas que fazem parte do dia a dia da família Silva, principalmente nesta época do ano, quando as encomendas para atender a dez estabelecimentos com as deliciosas iguarias do São João se multiplicam e são distribuídas na capital baiana. 

  

“Fora da época, são mil pamonhas por dia, mas quando chega a época de São João são cinco mil por dia”, explica o senhor Antônio Silva. Isso sem contar com as outras delícias produzidas pela empresa

Das iguarias juninas, a pamonha tem seu lugar de prestígio e deve ser feita com muito cuidado. É preciso observar todos os detalhes para que se ofereça um produto de qualidade, ensina Marcela Silva. 

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“O segredo para fazer uma boa pamonha, em primeiro lugar, é o milho de boa qualidade, um milho bom, maduro. Em seguida vem o açúcar, vem o sal, vem o leite de coco, indispensável. É ele que dá o sabor. E muito amor também, viu!”, conta Marcela Silva, filha e braço direito do senhor Antônio.

Segundo Marcela, um milho para fazer a pamonha perfeita deve considerar a massa de qualidade e essa massa só encontramos no milho bastante maduro. Ela chama a atenção para as adversidades e cuidados na escolha.  

“O milho produzido no sistema sequeiro, aquele cujo cultivo depende da chuva, não tem palha suficiente para fazer a pamonha. O milho que tem palha suficiente é o milho do sistema irrigado, que depende da ação humana. Então, tem todos esses contratempos para escolher a palha e as condições do milho para render uma boa pamonha, pois ela tem que ter uma massa boa e a palha também tem que ser bastante grande para amarrar a pamonha e ela não estourar”, explica. 

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Ela continua explicando a necessidade da palha grande para que guarde a pamonha sem que haja problemas na produção da iguaria, bem como o milho maduro. 

“Uma pamonha de qualidade, bonita, vai depender do milho irrigado, porque este milho que nos dá uma palha grande, tanto na largura, quanto no comprimento. Além disso, este tipo de palha não é ressecada, é bastante úmida, e, quando a gente dobra, a pamonha sai perfeita”, finaliza. 

É a qualidade da pamonha que garante a cultura e tradição do produto em Taperoá, cidade a 143km de Salvador, cultivada pela família de Tâmara Souza, que vende a iguaria há 22 anos, carro-chefe da pequena empresa artesanal. 

  

Ela explica que tudo começou com as vendas do avô Augusto Brito, o velho da pamonha, como toda a cidade o chamava. A figura folclórica começou vendendo coco por cerca de 35 anos, sempre recitando versos improvisados. Na poesia improvisada, ele dizia que o coco era versátil e com ele se fazia 25 produtos. 

E foi à base da poesia que ele conquistou a cidade inteira. Tanto, que para ouvir os seus repentes, os clientes sempre diziam: “Para comprar hoje, o senhor tem que bater um pandeiro. E então surgiam os repentes e as vendas saíam com facilidade”, conta Tâmara, que ao lado da avó, ficou à frente dos negócios do velho Augusto.  

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Hoje, a pamonha e os derivados de milho ganharam destaque na produção da família, que trabalha de forma artesanal com o produto há 22 anos. O pequeno negócio garante o sustento de todos que continuam a tradição mesmo com a morte do senhor Augusto, aos 98 anos, há três meses. 

“Nesse mesmo dia, antes de morrer, meu avô saiu vendendo nas portas de todos os clientes, como se estivesse se despedindo com seus repentes”, conta. 

Com a voz embargada, a neta relata que apenas a família tem a tradição de vender pamonha na cidade. “Até já tentaram comercializar por aqui, mas não pega, eles não conseguem fazer um produto de qualidade como meu avô. Além disso, não é apenas a venda de um produto, nós também vendemos alegria. Vir a Taperoá e não comer a pamonha do velho Augusto é como se não viesse à cidade. É assim que o povo fala”, conta a neta do senhor Augusto.  

  

Tâmara, aprendeu o ofício e hoje é a terceira geração a produzir o que o avó deixou como legado, tratando de manter a qualidade do produto. 

“Para ter uma pamonha de qualidade, a gente trabalha com todos os produtos frescos, do dia. Se hoje a gente vai fazer 100 pamonhas então vai passar a quantidade que necessita para aquele mesmo dia, de modo que no dia seguinte a gente não venha trabalhar com produtos do dia anterior. O coco a gente rala no dia, a palha a gente vai tirar no dia, passar, lavar, tudo no dia, pois isso ajuda na qualidade”, conta.  

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A história do folclórico senhor Augusto chamou a atenção da rede municipal de ensino de Taperoá, que resolveu trabalhar a pamonha como valor nutricional e geração de renda.

“A Secretaria de Educação de Taperoá, como forma de homenagem, resolveu contar a história da pamonha através do senhor Augusto, pois foi a partir dele que a história ganhou vida no nosso município. Senhor Augusto foi um homem que viveu da agricultura familiar e viu na pamonha e demais produtos uma forma de renda para sua família. Todos os dias saiu vendendo a pamonha no projeto Pamonha e Poesia”, conta a coordenadora da Educação do Campo e Quilombola, da rede municipal, Renata Rozendo Piedade. 

 

A neta do senhor Augusto enfatiza que a família tem amor pelo que faz, diz ainda que a produção da pamonha não é apenas um negócio. Antes de partir, o avô fez questão de apresentar todo o processo da produção e comercialização à neta. 

“Meu avô saiu de porta em porta me apresentando aos clientes, pois sabia que já não iria durar muito. Hoje eu também saio e vendo à base do repente, da poesia e do amor, usando os versos do meu avô”, conta emocionada. 

Ela lembra o repente mais conhecido do senhor Augusto, que até mesmo as crianças de Taperoá conhecem. Com isso, a cultura dos repentes, da pamonha, das vendas do velho Augusto vai sendo mantida. De acordo com a neta, o avô teve o cuidado de pedir para que a tradição não morresse. Então lá vai o repente de Senhor Augusto:

 

 

“Eu não bebo água de coco, eu não chupo cana de nó, não namoro com as moças da canela de socó! Perguntei a São João se eu podia me casar, São João me respondeu: deixa as coisas melhorar! Quando as coisas “melhorou “ ,arrumei “sete” mulher! Uma para deitar galinha, a outra deitar sacuê; uma para fazer comida, outra para fazer o café! Uma para fazer a cama, outra para lava meus pés! E a bonitinha eu não digo para o que é!”

Para homenagear o senhor Augusto e todo produtor de pamonha, iguaria muito apreciada no São João, vamos hoje dar a receita de um dos produtos mais saborosos da culinária nordestina.

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Pamonha de milho

Ingredientes (para 10 pamonhas):

8 espigas de milho

250g de açúcar

1/2 colher rasa de sal

200ml de leite de coco

Modo de preparo:

Corte as espigas de milho em uma vasilha, depois passe duas vezes no liquidificador com 500ml de água. Em seguida, passe na peneira e ponha em um recipiente fundo. Vá acrescentando o leite de coco, o açúcar e o sal. Mexa tudo e depois pegue as palhas do milho para embalar e amarrar a iguaria. Coloque para cozinhar, ponha as pamonhas em água em temperatura de fervura e deixe por 20 minutos. E pode comer no embalo do anarriê!!!!  

NOTA COM HISTÓRIAS & SABORES

Afroempreendedoras levam a gastronomia junina para o Shopping da Bahia

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O clima junino tomou conta da cidade e no Acelera Iaô não pode ser diferente. Os doces, salgados e bebidas típicas produzidos pelas afroempreendedoras do programa Acelera com Elas, ganham espaço especial. Elas participam do espaço Iaô Junino com Elas até quarta-feira (21/06), no 2º piso do Shopping da Bahia, na Praça Divaldo Franco.Em suas cozinhas, elas preparam deliciosas comidas e bebidas típicas, como bolos de Aipim, Carimã, Coco, Amendoim, Munguzá, cocadas, Cuscuz de Tapioca, amendoim cozido e licores. Esta ação faz parte do programa Acelera com Elas, realizado pela Fábrica Cultural, com o patrocínio do Instituto Nu, voltado para capacitação de empreendedoras negras.

Outback inaugura nova unidade na capital baiana

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O Outback Steakhouse inaugura oficialmente, no próximo dia 19 de junho, mais um restaurante na capital baiana, no Salvador Shopping. Esta será a loja de número 150 da marca no país, e reforça a continuidade do investimento da expansão do restaurante de temática australiana no Nordeste. A inauguração será marcada por uma importante ação solidária em prol do Hospital Martagão Gesteira, referência no atendimento a diversas especialidades pediátricas na Bahia. E para lembrar, o cardápio do Outback traz pratos que são queridinhos do público, a exemplo da Bloomin’ Onion, famosa cebola gigante, além da Junior Ribs, costela suína dentre outras delícias!

Artista pernambucano Bacaro assina lançamentos da Tupperware; peças celebram o mês das festas juninas

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Para armazenar aquela comidinha preciosa, a Tupperware, líder global em produtos inovadores, funcionais e ambientalmente  responsáveis, lançou nova linha de produtos com cores e traços das xilografias nordestinas na sua campanha para o Vitrine 6, catálogo de junho de 2023.No tradicional mês das festas juninas, a marca traz a Linha Arraial, que mostra cenas inspiradas na literatura de cordel, característica da região nordeste, em desenhos assinados pelo artista pernambucano Bacaro, dono de uma vasta produção autoral. 

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