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Histórias & Sabores

Por Isabel Oliveira

ACERVO DA COLUNA
Publicado sexta-feira, 04 de fevereiro de 2022 às 23:20 h • Atualizada em 05/02/2022 às 10:05 | Autor:

Patrimônio biocultural, o licuri é bastante valorizado

O produto é considerado um alimento fundamental para a economia solidária

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Às vezes é bem interessante como fatos das nossas vidas se cruzam com outras histórias para que algum feito possa ser realizado. Muitas vezes nem desconfiamos quando os acontecimentos vão tecendo sua trama, produzindo uma sintonia que mais lá na frente pode fazer toda s diferença para muita gente.

Ceci Silva, até então uma gestora cultural, trabalhava no ramo de hotelaria quando resolveu, em 2018, abraçar sua verdadeira vocação: a gastronomia. E lá se foi ela ser padeira. A empreendedora criou o Brisa Pães Artesanais e levou para o seu trabalho o principal ingrediente, a valorização da cultura alimentar e produtos de pequenos agricultores.

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Ceci é adepta da ecogastronomia, um movimento que valoriza essa cultura e os pequenos produtores locais. “Sempre me incomodou muito o fato de as pessoas darem muito mais valor aos produtos importados do que aos produtos locais”, diz.

Foi nesse ano em que Ceci apostou no seu talento que acontecia um outro fato bem interessante para a cultura e a economia solidária baiana. Uma lei estadual tornou a espécie licuri patrimônio biocultural do povo baiano. O ariri e o umbu também foram reconhecidos nessa categoria.

O cacho de Licuri tem uma média de mais de 1.300 coquinhos do fruto
O cacho de Licuri tem uma média de mais de 1.300 coquinhos do fruto | Foto: Coopes/ Divulgação

Licuri, aricurí, licurizeiro, nicurí, ouricurí e urucurí, como também é chamada a espécie, leva o nome científico de Syagrus coronata. Com mais de 1.300 coquinhos, os cachos nascem em uma palmeira e fazem parte da memória afetiva de Ceci.

Ceci Silva criou a padaria delivery Brisa Pães Artesanais, que valoriza os produtos da terra
Ceci Silva criou a padaria delivery Brisa Pães Artesanais, que valoriza os produtos da terra | Foto: Olga Leiria /Ag. A TARDE

O alimento tem muito a ver com o processo de transformação de Ceci, que busca alinhar a gastronomia com a valorização dos produtos da terra. E a amêndoa tem um importante papel na sua vida, bem como faz parte da sua mais terna lembrança. O mesmo pode se dizer dos pequenos agricultores que precisam de gente como Ceci, que valoriza o trabalho das cooperativas no interior baiano e fazem parte da economia solidária.

“O licuri me traz uma memória afetiva muito grande porque, além daquele rosário de licuri que a gente comia muito quando criança, no interior a gente achava ele no coquinho, sentava na calçada e, com uma pedra na mão, ia quebrando (as amêndoas). A minha relação com o alimento vem muito dessa minha criação de casa, do interior, das comidas mais tradicionais, dessa culinária”, diz Ceci, bem feliz com sua escolha.

A planta nativa era utilizada pelos índios; o fruto foi encontrado em achados arqueológicos no Município de Brejo da Madre De Deus
A planta nativa era utilizada pelos índios; o fruto foi encontrado em achados arqueológicos no Município de Brejo da Madre De Deus | Foto: Olga Leiria /Ag. A TARDE

E o licuri tem é história. O professor Aurélio José Antunes de Carvalho, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (Ifba), explica que o licuri é “uma planta nativa já utilizada pelos índios e isso estava, por exemplo, em achados arqueológicos de Brejo da Madre de Deus, onde foram encontrados restos de licuris junto aos corpos que eram enterrados. Portanto, os indígenas usaram bastante o licuri”, revela.

O professor conta ainda que o fruto é fundamental para a alimentação de alguns animais que só existem na Bahia. Ele cumpre um papel importante na recomposição dessas espécies, a exemplo da arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari). "O alimento basico dela é o licuri. São aves muito bonitas que há 20 anos estavam restritas a uma população de 120 indivíduos e hoje contam-se mais de mil. A partir disso, o licuri assume uma importância muito grande para a garantia da fauna”, explica, deixando evidente a importância do fruto.

Carvalho reforça que grande parte da produção comercial do licuri passa pela economia solidária. “Hoje, temos dois grades polos que estão trabalhando com isso. Um deles é a Cooperativa de Produção da Região do Piemonte da Diamantina (Coopes), que fica situada em Capim Grosso, e a outra é a cooperativa chamada Cooper Sabor, que fica situada em Monte Santo. Duas cooperativas que trabalham com o licuri que geram renda no semiárido. Ele é considerado um agroextrativismo dos mais sustentáveis dentro da caatinga”, explica o professor.

Renata Silva, gestora da Coopes que integra o projeto Aliança Produtiva, da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional – CAR, vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Rural do Estado da Bahia, conta sobre a importância da amêndoa, um dos principais produtos da cooperativa.

A colheita do licuri é feita, principalmente, por mulheres
A colheita do licuri é feita, principalmente, por mulheres | Foto: Coopes/ Divulgação

"Nosso trabalho é ampliar a comercialização, fortalecer a base produtiva, que são as mulheres que trabalham diretamente na colheita do licuri, e trabalhar na inovação tecnológica da entidade”, afirma Renata.

Nesta proposta de valorizar a economia solidária está fundamentado o trabalho de Ceci Silva.

“Comecei a fazer pães, mas não queria ficar só com a panificação e aí eu faço os acompanhamentos e muitos dos acompanhamentos trazem essa valorização dos produtos locais, de um pesto de coentro com licuri, de fazer bolos utilizando os produtos da terra. Eu sempre procuro trazer essas referências locais para os meus produtos”, diz a padeira.

Ceci afirma que todas as referências que traz para a gastronomia têm muito a ver com sua infância. Está vivo em sua memória o licuri como um dos alimentos que ela preza na culinária. “A rua em que a gente morava no interior tinha muita criança. E quando a gente terminava de comer o licuri, a gente pegava as cascas e fazia guerra, jogava um no outro, era como um jogo de baleado, quem levasse mais, perdia, saía do jogo”, lembra.

“Nós é nós e o licuri é um coco”, diz a frase que se escuta muito, principalmente no interior baiano, onde o coquinho está presente na vida das pessoas. O professor Aurélio é quem arremata a história.

"Eu escutava muito desde criança. ‘Nós é nós e licuri é um coco’, que é para dizer assim: a nossa amizade é forte, então, nós é nós, ou seja nós podemos e o licirui é um coco”, conta.

Quer mais sintonia do que esta entre Ceci, o licuri, o professor, a cooperativa e o universo? É para festejar que vamos ensinar no Histórias & Sabores um pão à base de ouricuri, licuri, nicuri e tantos outros nomes desse coquinho que sempre fez a alegria de muita gente.

  • A amêndoa é fundamental para a alimentação da arara-azul-de-lear, garantia para a sobrevivência da ave
    A amêndoa é fundamental para a alimentação da arara-azul-de-lear, garantia para a sobrevivência da ave |
  • A massa do pão é sovada para depois receber o licuri
    A massa do pão é sovada para depois receber o licuri |
  • Aricurí, licurizeiro, nicurí, ouricurí e urucurí são outras denominações da espécie, que leva o nome científico de Syagrus coronata.
    Aricurí, licurizeiro, nicurí, ouricurí e urucurí são outras denominações da espécie, que leva o nome científico de Syagrus coronata. |

Pão de licuri

400g de farinha de trigo branca

100g de farinha integral

300ml de água

100g de fermento natural ou 2g de fermento biológico

12g de sal

50g de licuri

10g de azeite de licuri

2g de pimenta rosa (aroeira) a gosto

Modo de fazer

Numa tigela grande, misture as farinhas e abra um buraco no centro. Acrescente o fermento e a água, misturando com a mão para incorporar.

Assim que a farinha tiver absorvido o líquido, junte o azeite e amasse bem para incorporar. Aperte, amasse, estique e amasse novamente até ficar com a textura macia e úmida durante dez minutos. Se preferir, sove a massa na bancada ou na batedeira com o gancho.

Acrescente o licuri e a pimenta rosa, sove mais um pouco para incorporar os ingredientes.

4. Modele uma bola, volte a massa para a tigela e cubra com filme (ou pano de prato). Deixe descansar por uma hora ou até dobrar de tamanho.

Unte com azeite de licuri duas formas para bolo inglês de 22cm x 10cm (se a forma for antiaderente não há necessidade de untar).

Assim que tiver crescido, transfira a massa para a bancada e divida ao meio. Achate delicadamente cada uma das metades até formar um retângulo. Para modelar os pães, dobre a base do retângulo (lado maior da massa) até o centro e aperte delicadamente; cubra com a base oposta e aperte bem para selar; dobre cerca de 4cm das laterais (use a fôrma de bolo inglês como referência para o tamanho) e aperte bem as emendas para selar.

Transfira as massas, com a emenda voltada para baixo, para as formas untadas. Cubra com um pano de prato limpo (ou filme) e deixe crescer por mais 40 minutos. Quando faltarem 20 minutos, preaqueça o forno a 180ºC (temperatura média).

Leve ao forno para assar por cerca de 40 minutos até os pães crescerem e dourarem. Retire do forno e, com cuidado, desenforme sobre uma grelha - se o pão ficar na fôrma ou sobre uma superfície lisa pode acumular vapor e amolecer a casca.

NOTAS COM HISTÓRIAS & SABORES

BOLO DA LUZ INAUGURA SEU CAFÉ NA PITUBA

O Café Bolo da Luz vem com grandes novidades
O Café Bolo da Luz vem com grandes novidades | Foto: Rafael Gomes Maranhão/ Divulgação

O Bolo da Luz, localizado na Pituba, acaba de inaugurar o seu Café Bolo da Luz, com um cardápio especial, como bolos artesanais e pãezinhos delícias, além das novidades criadas pela chef e fundadora do grupo Joelia Simples. Entre os lançamentos destacam-se os sanduíches de Pernil, Carne de Panela e Linguiça, além dos Quiches de camarão, frango, alho poró e peito de peru com saladinha. O café Bolo da Luz funciona de segunda a sexta, das 7h às 19h, e aos sábados, das 7h às 13h.

MARIPOSA RESTÔ OFERECE 4 OPÇÕES ESPECIAIS DE RISOTO

O Mariposa Restô está com quatro opções de risoto de encher os olhos e a boca. O Funghi, Filet Mignon com Gorgonzola, Camarão e Limão Siciliano e Abóbora com Carne Seca. Todos eles acompanham o arroz arbóreo, queijo (parmesão, coalho ou gorgonzola) com ingredientes selecionados e o talento da chef Mia Carazoli. Ainda dá para curtir a região histórica que o local oferece. O restaurante funciona no Largo do Terreiro de Jesus, no Casarão 17, e está aberto de segunda a domingo das 11h30 às 17h. Para reservas tem o telefone (71) 98802-4362.

FILÉ DE TILÁPIA A VÁCUO É APOSTA DE COOPERATIVA; PRODUTO PODE SER ADQUIRIDO POR SITE

O filé de tilápia tornou-se o principal produto da Cooperativa de Produção e Comercialização dos Derivados de Peixe de Sobradinho (Coopes), que comercializa o peixe a vácuo, em embalagens de 1 quilo. Além da tilápia, a cooperativa também trabalha com filé de peixe congelado, peixe congelado em posta, espalmado congelado, linguiça de peixe, espetinhos de peixe, bolinho de peixe e peixe fresco. A expectativa é que a produção aumente para mil quilos por mês com o investimento realizado pelo Governo do Estado, por meio do projeto Bahia Produtiva. O consumidor pode adquirir os produtos por meio do site www.mercaf.com.br.

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