Irmã Dulce, a alegria de ajudar quem sofre

Publicado domingo, 13 de outubro de 2019 às 08:31 h | Atualizado em 13/10/2019, 08:44 | Autor: Levi Vasconcelos | Foto: Roque Cerqueira | Acervo Pessoal

- Amigo, o senhor não está a fim de fazer uma poupancinha no céu?

Era assim, segundo o jornalista Valber Carvalho, que Irmã Dulce costumava abordar potenciais candidatos a colaboradores da obra.

Ângelo Calmon de Sá, um dos investidores na tal poupancinha, se diz impressionado com um fato:

- Depois que ela morreu, o hospital cresceu 40, 50 vezes mais. Como explicar isso?

Crescendo - Não dá, mas a história dos tempos da poupancinha Valber vai contar bem já, já. Desde 2013 ele mergulhou na ideia de escrever sobre a vida de Dulce, sob encomenda do projeto editorial da Assembleia, ainda num tempo longe da santificação.

Prazo: quatro meses. Botou o pé na estrada, logo depois, avisou: ‘Não dá’. Botaram mais dois meses, desistiu da Assembleia, não do projeto, pelo contrário.

- Era muita coisa. Empolgante, mas na medida em que avançava, a vontade era aprofundar mais.

Resultado: seis anos depois, ele fez 513 entrevistas com gente de todos os naipes, tanto que dividiu os entrevistados em 22 categorias, como médicos, auxiliares, beneficiários e financistas, e leu 12 mil documentos, entre jornais e ofícios até mesmo da Alemanha e dos EUA, de onde é a congregação dela.

Disso resulta um livro, já em fase de finalização, em dois volumes de 400 páginas cada, que deve ser lançado até dezembro. E o que mais o impressionou nesse périplo?

- Todos me disseram que ela era uma pessoa sempre alegre, brincalhona, gostava de beliscar e botar apelidos nas pessoas. Conviver com o sofrimento assim é diferente, não?

Frei Galvão, um santo de igreja

Diz Valber que, na concepção que temos de santos, Irmã Dulce é diferenciada:

- Conhecemos santos de igreja. Ela, não. Veio das ruas, da vivência com os mortais comuns.

Até o Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro, nasceu em 1739 e morreu em dezembro de 1822, três depois que D. Pedro I declarou a Independência do Brasil. Não compete com a baiana.

IRMÃ DULCE COM VATAPÁ

As galinhas do galinheiro

A mais recorrente das histórias engraçadas que se conta sobre Irmã Dulce é a das galinhas do galinheiro onde ela começou o Hospítal Santo Antonio. Contam que quando ela foi expulsa pela prefeitura do largo do Bonfim, falou com a madre superiora para botar os doentes no galinheiro. Autorizada, se instalou. Dias depois,

a madre a chamou e indagou sobre o destino das galinhas que lá estavam. E ela:

- Deram uma boa canja para os nossos doentes.

REGISTROS

Usina de oração

Nos depoimentos que Valber Carvalho colheu para falar da vida de Irmã Dulce, emerge um consenso:

- Ela era uma usina de oração. Ao conversar com um empresário pedindo ajuda, estava orando. Era como se ela, que sempre se alimentava muito pouco, se alimentasse dessa energia.

Fraternidade

Nos seis anos de mergulho na vida da freira, Valber, um jornalista experiente, acostumado a ver muitos se declarando santo, diz que enfim deparou-se com um santo de verdade:

- Muitas pessoas públicas, quando a gente bota a lupa, descobre que são santos com pés de barro. Com Irmã Dulce, não. Quanto mais se aprofunda, mais impressiona, pela fraternidade.

Sem distinção

Angelo Calmon de Sá conta que Irmã Dulce nunca aceitou convênios para atendimento no hospital:

- Ela não queria ter leitos diferentes. O que era para um, era para todos.

Legado

Valber conclui que o melhor da santa é o exemplo:

- O grande barato é o legado. É as pessoas olharem o exemplo para se melhorar.

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