De concorrente a aliado

Publicado sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022 às 06:00 h | Atualizado em 24/02/2022, 23:22 | Autor: Luiz Carlos Lima* | [email protected]
A união dos pequenos 
tem  capacidade  para superar 
os donos 
do espaço
A união dos pequenos tem capacidade para superar os donos do espaço -

Todo empreendedor no início de sua carreira tem por objetivo colocar suas ideias à frente do mundo, ter sucesso, crescer e tornar seu negócio promissor e longevo. No afã de buscar o destaque, muitas vezes se contrapõe aos pares que atuam no mesmo segmento de mercado, nem sempre de forma ética ou educada. A competição acirra, incita o lado animal que habita em todos nós. Nessa guerra, muitas vezes o vencer se sobrepõe ao politicamente correto. Somos humanos afinal, animais em essência e com inteligência e moral a nos guiar, às vezes!

Mas nos devaneios da luta por um lugar ao sol, é preciso tempo para observar do alto, analisar os grandes personagens que atuam no ambiente em que os negócios se desenrolam. Porém, quando se inicia, um conjunto de fatores rouba o tempo precioso para essa análise. Com recursos limitados, torna-se um grande desafio pensar estratégias, analisar o entorno, montar as melhores táticas para vencer. O tempo é o maior inimigo, afinal, atualmente no mundo da conectividade, das redes sociais, a informação está sempre disponível. Falta é espaço na agenda para acessá-las.

Nos dias atuais estamos submetidos a uma infinidade de possibilidades que se transformam em um tormento de escolhas. Essa pulverização de informações tem efeito devastador sobre a paz interior e por consequência afeta as organizações. No mundo do “tudo é possível e acessível a um click no computador” fica latente um sentimento de estar em permanente “atraso” em relação ao mundo pulsante. Essa sensação, por sua vez, gera instabilidade, ansiedade, terreno fértil para estabelecer um ambiente de acirramento das relações profissionais, dentro e fora das empresas. Todos tendem a enxergar no outro um perigo ao seu negócio, um concorrente.

Nasce aí um momento difícil, onde a perseverança e o espírito de equipe falarão mais alto que a força do indivíduo. Nesse instante a união dos pequenos tem uma capacidade surpreendente para superar os donos do espaço, que por natureza são grandes, pesados, acomodados e avessos às mudanças e à evolução. Afinal, evoluir e transformar traz incertezas, riscos, dói e incomoda muita gente.

Quanto menores são as células empresariais, mais importante se torna a união delas em um ambiente de interesses comuns. Um tecido consistente tem maior capacidade de resistir às adversidades do ambiente exterior e à concorrência dos grandes.

Vários segmentos de negócios têm passado por um movimento contínuo de surgimento de startups, aquisições e fusões. Os grandes grupos estão cada vez mais líquidos e em busca dos pequenos que se estruturam para crescer mostrando a força de uma concorrência desproporcional. No setor de tratamento de saúde, educação, farmácias, laboratórios, dentre outros, o movimento é visível. O profissional de saúde, em sua ação individual, estará cada vez mais sujeito aos ditames dos grandes operadores do setor.

O próximo segmento que se insurge aos grandes, ainda de forma sutil, é o setor de energia. O Brasil, com mais de 86 milhões de consumidores de energia elétrica, atingiu em fevereiro a marca recorde de 1 milhão deles, que produzem a própria energia. Os grandes grupos do setor elétrico não gostam dessa situação, mas foram compelidos a aceitar a geração distribuída pelo efeito de criação de empregos, devastador num momento de crise mundial com a Covid-19, e pela força dos movimentos de defesa ao direito de gerar a própria energia sem taxação.

As energias renováveis vieram para ficar e abriram um mercado para milhares de profissionais criarem seus pequenos negócios. Desde a instalação dos sistemas, construção, distribuição de produtos, fabricação, logística, passando pelo aluguel de usinas para oferecer energia mais barata, prometem um processo de crescimento importante nos próximos anos. O fim das concessionárias de energia com seus mercados cativos por região deve acabar em menos de uma década. Até lá, porém, a resistência é forte ao avanço da geração distribuída e ao processo de abertura do mercado livre de compra e venda de energia. Mais do que nunca é momento para esse setor transformar o seu concorrente num aliado contra os grandes que estão nesse mercado.

*Luiz Carlos Lima, engenheiro eletricista, especialista em Gestão e Comercialização de Energia Elétrica

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