PAPO PET
Dilema ético gera sofrimento e faz da eutanásia animal um tabu
Confira coluna Papo Pet, do jornal A TARDE, deste domingo


Que humano que ama bichos decidiria sacrificar seu próprio animal de estimação se não fosse por um gesto de amor? Foi por isto, para aliviar o sofrimento do gatinho Max, com quem conviveu por mais de 10 anos, que a personal trainer Rosane Oliveira, 47 anos, tomou uma das decisões mais difíceis da vida dela.
“Ele já não levantava a cabeça, não bebia água, não se alimentava e ficou inchado porque os rins não filtravam mais nada”, conta ela, que manteve Max internado por 5 dias antes de ter que recorrer à eutanásia.
A prática regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), por meio da resolução nº1000/2012, envolve muitos tabus, sentimentos de dúvida, medo e culpa.

Ato de amor
A psicanalista Priscila Pinto, 42 anos, que também é médica veterinária, classifica a prática como um ato supremo de amor. Foi o que moveu a família da universitária Roberta Beatriz Vila de Almeida, 21 anos, a recorrer ao procedimento para o felino Samuel após extensa rotina de cuidados. “Foi uma decisão muito difícil, mas pior foi vê-lo naquela situação, ele não reagia mais”, lembra.
Já a fisioterapeuta Marta Gomes Duarte, 64 anos, buscou aliviar o sofrimento de Nina, 14 anos, e Kika, 19 anos, caninas, uma Golden Retriver e uma poodle. Elas tinham tumores pelo corpo e muita dor. “Foi difícil, mas foi pensando nelas”, conta
Segundo a psicanalista Priscila Pinto, a decisão exige um desprendimento amoroso. “Ela deve ser guiada estritamente pelo bem-estar do animal, nunca pelo ritmo da dor humana. Aceitar a finitude do bichinho para poupá-lo da dor”, explica.
Foi este dilema que levou as estudantes de Medicina Veterinária da UNIFTC Allana Amorim, 23 anos, Amanda Alves, 20 anos, e Lorena Pereira, 21 anos, a escolherem o tema para o trabalho final de curso. Vivências durante a graduação motivam a produção do estudo “Eutanásia animal e bem estar: decisão terapêutica ou dilema moral?” (leia artigo ao lado).
“O que mais nos chamou a atenção foi perceber que a decisão pela eutanásia é influenciada por muitos fatores além da condição clínica do animal”, dizem elas, em depoimento conjunto para esta reportagem. Com crenças religiosas distintas, Allana (católica), Amanda (espírita) e Lorena (sem religião) entenderam a necessidade de superar os tabus.
“A eutanásia é considerada conduta ética quando seu objetivo é aliviar um sofrimento intenso e irreversível; nunca deve ser encarada por conveniência mas como um ato profissional diante das doenças terminais”, explica a veterinária Aline Quintela, 48 anos, coordenadora do Curso de Medicina Veterinária da UNIFTC.
Hoje, os avanços médicos permitem mais tempo de vida. “Mas prolongar a vida não deve ser o único objetivo. Quando os tratamentos passam apenas a prolongar o sofrimento é necessário reavaliar a conduta”, explica a médica veterinária Juliary da Costa Correia, 28 anos, docende do curso de Medicina Veterinária da Universidade Salvador (Unifacs).
DR. PET
Veterinário deve recusar o procedimento quando não há justificativa clinica
Quais são os principais dilemas éticos enfrentados pelos veterinários?
O maior dilema está em equilibrar o desejo dos responsáveis com aquilo que realmente é melhor para o paciente. De um lado , há responsáveis que querem prolongar o tratamento, e em outro, os que querem eutanásia sem justificativa clínica.
O médico-veterinário pode se recusar a realizar a eutanásia?
Sim. O médico veterinário pode e deve se recusar a realizar a eutanásia quando não há respaldo técnico, científico ou ético.
Fonte: Juliary Correia, médica veterinária e docente do curso da Unifacs
ARTIGO
Eutanásia animal e bem-estar: decisão terapêutica ou dilema moral?
Allana Amorim Santos*, Amanda Alves Neves* e Lorena Pereira dos Santos*
A palavra eutanásia procede do grego, o prefixo eu significa boa e thanatos, morte, boa morte (Fernandez, 2000). Sob a perspectiva filosófica, a eutanásia revela-se um tema profundamente complexo, envolvendo diferentes correntes da ética normativa.
Dessa forma, a eutanásia animal não pode ser compreendida como um procedimento meramente técnico, mas sim como uma decisão moral situada na interseção entre sofrimento, valor da vida e responsabilidade ética humana, principalmente com cães e gatos passando a desempenhar uma função social cada vez mais relevante na sociedade, sendo frequentemente considerados membros da família, associados a um determinado grau de afetividade (Carlisle-Frank e Frank,2006; Cohen, 2002).

Diante disso, a decisão por cessar a vida de um membro tão inserido no meio afetivo, torna-se especialmente desafiadora para a maioria dos responsáveis. A linha tênue entre bem-estar e crueldade torna-se um dos principais problemas quando se fala em eutanásia animal. Para os profissionais, trata-se de uma situação delicada, pois, ao mesmo tempo em que defendem a vida, precisam lidar com o dilema de interrompê-la para evitar o sofrimento do animal, o que pode gerar intenso desgaste emocional e sentimento de culpa (ROLLIN, 2006). Além disso, a decisão nem sempre é simples ou consensual, já que envolve avaliar a real condição do animal e seu prognóstico, buscando garantir que a eutanásia seja, de fato, uma medida voltada ao bem-estar. Aos responsáveis, somam-se emoções, crenças religiosas,valores pessoais e a dificuldade de aceitar a perda do animal, tornando esse processo ainda mais doloroso e complexo.
Nesse contexto, existência de critérios legais e científ icos não elimina os conflitos morais envolvidos, especialmente diante de situações como a eutanásia de conveniência. Dessa forma, torna-se imprescindível que a decisão seja cuidadosamente avaliada, considerando não apenas o estado clínico do animal, mas também os impactos emocionais e as responsabilidades éticas inerentes ao processo.
Graduandas de Medicina Veterinária UNIFTC Salvador*