O túmulo de Dercy e a falta de escrúpulo em busca do ibope

Conheço o apresentador Gugu Liberato há exatos 20 anos, desde o dia em que troquei (alegremente) o jornalismo político pela cobertura de TV e celebridades.
Tenho grande respeito por ele, e sempre o admirei - só que mais como comunicador popular, e menos como repórter (sua formação acadêmica). Gugu sabe brincar com a plateia, sabe comandar brincadeiras no palco, tem ótima relação com artistas e não lembro de nenhum - exceto Xuxa - que não o tenha em alta estima.
Sua carreira foi meteórica. Começou como um faz-tudo no SBT, mas, voluntarioso, dava tantos pitacos nos bastidores do SBT que acabou atraindo a atenção de Silvio e terminou no palco. Primeiro atrás das câmeras; depois, à frente.
Alguns queridos leitores de A TARDE podem não se lembrar, mas Gugu fez tanto sucesso no início da carreira que acabou sendo contratado na surdina pela Globo em 1988. O rumoroso caso obrigou o próprio Silvio Santos a intervir e implorar para Roberto Marinho para que devolvesse seu pupilo. Em valores de hoje, Silvio teria aceitado pagar uma multa de mais de R$ 30 milhões à Globo pela rescisão.
Durante os anos 90 e começo dos 2000, Gugu foi uma pontuda e dolorosa pedra no sapato da Globo. Seu programa era o único que eventualmente vencia a emissora dos Marinho aos domingos (Fausto Silva), e o embate era tão encarniçado que produziu na imprensa a expressão "a guerra do domingo".
No final da tal "guerra" a situação se complicou. Para o telespectador, bem entendido.
Gugu e Faustão baixaram tanto o nível atrás de ibope que a coisa desandou. Como alguns de vocês se lembram, houve o clássico (e terrível) caso da mulher pelada coberta de sushi no Domingão do Faustão, e a perniciosa e falsa entrevista da produção de Gugu com integrantes do PCC.
A situação ficou tão grotesca que telespectadores, entidades sociais e até o Ministério Público acabaram lançando uma campanha nacional contra a baixaria na TV. Se surtiu efeito? Rá! Digam-me vocês, leitores.
Em 2009, numa guinada profissional, Gugu trocou o SBT pela Record por um salário então estimado em R$ 3 milhões mensais. Quatro anos depois, pressionado por ibope baixo e custo de programa alto, acabou rompendo amigavelmente com a emissora. No ano passado, fez um acordo e retornou à programação da Record.
De cara, seu programa noturno causou impacto na concorrência e deu bons índices de ibope com "furos" como a entrevista com a assassina confessa Suzane von Richthofen, depois o também criminosos goleiro Bruno.
Com o tempo, porém, a audiência caiu, o programa ficou alguns meses em férias no final do ano passado e retornou agora em fevereiro com a promessa de "desvendar" se Dercy Gonçalves havia sido enterrada de pé, como "ela prometera" em vida.
Foram 70 minutos de reportagem (sic) agonizante, apelativa, baixa, mórbida e inútil. Nunca houve "mistério" algum com o caixão do Dercy. O programa de Gugu inventou isso. Forjou uma nova lenda urbana desprezível.
Convenhamos: enrolar o telespectador por 70 minutos, sem falar nos dias e mais dias de "suspense" com a matéria de Dercy, é uma vergonha. É mais que um erro crasso de Gugu. É quase uma necrofilia pública.
Depois da falsa entrevista com o PCC, depois do leilão com a falsa sunga de Thiago Lacerda, Gugu pode acrescentar mais esse momento triste para sua carreira. O apresentador precisa acordar, antes que sua produção e seus conselheiros enterrem sua história a sete palmos.
E Geraldo?
Geraldo Luís, que apresenta Domingo Show na Record, ainda não chegou ao ponto de desencavar mortos. Há muito sensacionalismo em seu programa, o que é uma pena. Ele poderia se contrapor ao péssimo Esquenta da Globo, levando mais atrações musicais, convidados prodígios, virtuoses dos instrumentos musicais, mágicos e outras atrações palatáveis ao público C - que é a maioria diante da TV na Record, no horário.
No entanto, o apresentador também vem apostando no sentimentalismo barato, na ladainha assistencialista, nas histórias (sempre loooooongas) de "superação" e "sofrimento". De gente que era famoso e hoje está no
lixo.
A verdade é que, se Geraldo não se cuidar, vai acabar virando um Gugu.
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