Drible jurídico legaliza lira de 1870
Confira a coluna Tempo Presente do Jornal A TARDE deste domingo

Disputar editais, firmar convênios e fechar negócios. A Sociedade Orpheica Lyra Ceciliana, fundada em 1870, precisou de um drible jurídico inédito para ter sua existência reconhecida pelo poder público. O tento, com projeção de jurisprudência, foi lavrado pelo presidente da lira, o advogado e ex-vereador por Cachoeira três vezes, José Bernardo, ao pleitear – e conseguir – o registro em cartório.
É como se a república só chegasse agora para a instituição, até então invisível aos trâmites: José Bernardo (Dr. Zé Luís) usou uma figura de analogia com casos de pessoas solicitantes de uma certidão de nascimento já na vida adulta, como ainda ocorre na zona rural. Na lógica aceita pelo juízo, Dr. Zé Luís persuadiu o magistrado com o seguinte raciocínio: se uma pessoa, provando estar viva, pode pedir a certidão, também uma sociedade civil tem este direito.
“Quando o maestro Manoel Tranquilino Bastos criou a lira, em 1870, para se ter uma ideia, era a Igreja quem atestava o nascimento de um bebê”, afirmou Dr. Zé Luís. Tentativas anteriores de provar a existência da lira paravam na burocracia de pedidos de documentos, formulários e algum carimbo impossível atestando a fundação.
Uma grave contradição republicana salta com ênfase do contexto gerado pela atitude da lira: enquanto sociedades são legalizadas, nem sempre visando os fins aos quais afirmam se propor, uma entidade longeva e revolucionária como a lira enfrenta resistência. A instituição abolicionista e libertária buscou inspiração no poeta e músico Orpheu – filho da musa Calíope e do deus Apolo –, eternizado no imaginário da humanidade como o sumo de um amor incondicional, ao tentar resgatar Eurídice.
Lavagem de Itapuã
A Lavagem de Itapuã completará 121 anos de identidade e pertencimento na próxima
quinta-feira, celebrando uma trajetória de resistência iniciada pelos pescadores e preservada pela mobilização da comunidade, de entidades culturais e da Associação de Moradores de Itapuã (AMI), que organiza a festa em mutirão, mantendo viva a tradição local e fortalecendo os laços culturais do bairro e de gerações, em um dos eventos mais simbólicos do calendário popular de Salvador.
Neste ano, serão homenageados Dona Teresa Alves de Souza, 64, ekedi do Ilê Axé Oya Demim, e Ulisses dos Santos, 84, músico, pescador e fundador do Afoxé Korin Nagô.
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