Castigo de mentirinha
Não ajuda o combate à violência e é somente oficiosa a exclusão de Bamor e Os Imbatíveis dos estádios por, respectivamente, 120 e 90 dias. Mais uma resposta apenas aparente para os graves e diversos problemas baianos.
A falácia começa pelo fato de que os membros das duas torcidas organizadas não estão proibidos de irem a jogos. O veto limita-se às instituições. Ou seja, uniformes, bandeiras, faixas e instrumentos musicais delas não são permitidos nas arquibancadas, mas seus integrantes, sim. Como em outras ocasiões que isso ocorreu, eles ocupam os lugares de sempre e realizam as habituais manifestações verbais e gestuais. Só que à paisana.
A hipocrisia da punição também não impede que uma parcela deles brigue a caminho ou nas cercanias das praças esportivas, seja qual for a partida. É o que vem acontecendo, mesmo com apenas um dos clubes envolvidos. Isso, aliás, desmonta a inócua reivindicação da presença de torcida única nos clássicos.
Poderia se afirmar que, sem as identificações das organizadas, seria mais difícil detectar seus associados, mas, na verdade, os autores de arruaças se tornaram conhecidas de policiais, ambulantes, funcionários dos estádios e quem mais frequente jogos. Afastá-los não exige muito, entretanto, quando detidos, eles logo são liberados. Em raríssimas vezes, acabaram barrados dos eventos seguintes. Falta cumprir com frequência esse dispositivo da lei.
A impunidade favorece a repetição dos ataques. Quem promove a violência tem que ser punido individualmente. Hoje, reina a permissividade, mesmo após homicídios.
Os confrontos entre facções são agendados. Seus valentões poderiam se trancar num galpão e lutar. Mas, não. Sua diversão brutal usa apenas como pretexto as partidas e não respeita a presença dos outros habitantes da cidade. As emboscadas não poupam transeuntes inocentes. É uma guerra covarde. Há anos, Salvador foi dividida em núcleos de Bamor (TOB) e Os Imbatíveis (TUI). Suas pichações quase onipresentes só deixaram isso mais evidente. Vestir camisa da organizada inimiga é se expor a um atentado nas ruas.
Defensores de Os Imbatíveis alegam que ela surgiu, em 1997, para contrapor a agressividade da Bamor, pois as torcidas rubro-negras não eram de briga. Realmente parece que uma foi feita para a outra. Nos cânticos, ofendem-se mutuamente, ainda que na ausência da rival. Os times ficam em segundo plano.
Amanhã, como de costume, provavelmente, as piores cepas dos dois lados procurarão o milionésimo conflito entre eles.
Antes de cada Ba-Vi, acontece um jogo de cena, noticiado em TVs, sites e jornais, em que representantes da Polícia Militar, do Ministério Público, dos clubes e das organizadas se reúnem para tratar do esquema de segurança. Anunciam-se centenas de agentes, acordos, promessas, precauções. Velho engodo.
No clássico, integrantes das duas torcidas descumprem seus limites, se aproximam, se provocam, partem para a agressão, atiram bombas, provocam correria e pânico, causam ferimentos e até mortes. Como se estivessem estreando, os policiais, mesmo fazendo escoltas dos grupos, parecem surpresos, tentam reagir porque se mostram incapazes de se anteciparem aos atos. Dão tiros de bala de borracha, disparam mais bombas, usam mal o spray de gás pimenta e distribuem pancadas. Assustados, os demais torcedores - inclusive idosos, crianças e mulheres - ainda precisam se proteger dos cavalos da PM. É um ritual tradicional. Dias depois, autoridades terão visibilidade por anunciar alguma pseudoprovidência.
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