Clássico contra o racismo
São 2015 do segundo tempo, praticamente os minutos de acréscimos, no terceiro milênio do jogo de volta deste literal mata-mata, mas parecem ser necessárias longas prorrogações para resgatar da ignorância quem se aliena em preconceitos. O mais popular dos esportes seria motivo de integração, mas, em vários países, estádios frequentemente sediam casos de ofensas raciais.
Até negros e descendentes deles vociferam injúrias raciais contra pessoas que têm tons de pele parecidos aos seus. A internet registra número assustador de ofensas desse tipo - anônimas ou explícitas em perfis de "pessoas de bem" nas redes sociais. Agressões gratuitas. Puro ódio. Nefastas tentativas de retirar a humanidade do próprio semelhante que possui diferente origem étnica.
A narrativa do ser humano baseia-se na versão protagonizada pelos brancos da Europa. E a partir dela se mantém o domínio decisório. Prevalece quem venceu pela violência. A história é branca. O poder é branco. A mídia é branca. As representações cristãs, embora oriundas do Oriente Médio, são brancas. O imaginário coletivo é branco. Deveriam ter todas as cores.
Com maior capacidade bélica, europeus desestruturaram nações africanas, usurparam suas riquezas, comprometeram o desenvolvimento do continente e marcaram com um selo depreciativo os negros, forçosamente espalhados pelo planeta. Passaram séculos, mas populações negras continuam em condições inferiores. Ainda assim, há quem não concorde que as injustiças de antes permanecem implicando nisso. Há quem consiga negar a existência de racismo no Brasil, que não perceba as heranças perversas do colonialismo na Bahia.
Diversos povos, de diferentes etnias e origens geográficas, foram escravizados, inclusive brancos. Porém, são os negros os perseguidos pelo estigma de integrar uma linhagem inferior. Um absurdo que não acaba. Resiste, mesmo após o fim de um sistema econômico de exploração de pessoas apoiado pelo cientificismo racista e sob a complacência da Igreja Católica.
Ex-lateral direito e zagueiro campeão mundial e europeu pela seleção francesa, Lilian Thuram, de 43 anos, nascido na caribenha Guadalupe, luta contra isso e prega a igualdade. Ligado às artes, consagrado no Parma, na Juventus e no Barcelona, ele criou uma fundação com seu nome para educar jovens e combater o racismo. Enumerou homens e mulheres de tez escura que foram destacados cientistas, inventores, escritores, faraós, reis, líderes, poetas, ativistas, esportistas, pesquisadores, militares e artistas. Mostra às crianças esses exemplos que lhe foram escondidos na infância. Estão no livro 'As Minhas Estrelas Negras - de Lucy a Barack Obama', lançado em Portugal em 2013 e inédito no Brasil.
Berço da civilização ocidental, a Grécia Antiga herdou de africanos - Thuram ressalta - conhecimentos de matemática, astronomia, medicina, artes e filosofia. Sim, de egípcios e núbios. O ex-jogador também reúne exemplos de avanço cultural, agrário, econômico, arquitetônico, urbanístico, social, intelectual e político na África antes da exploração europeia. Casos soterrados pelo preconceito e por métodos de dominação da história.
No esporte, sobram ídolos negros. Alguns deles são aclamados como os maiores de suas respectivas modalidades: Pelé no futebol, Muhammad Ali no boxe, Michael Jordan no basquete, Jonah Lomu no rúgbi, Tiger Woods no golfe... Até disputas mais elitistas têm sido vencidas por descendentes de africanos, como Serena Williams no tênis e Lewis Hamilton na Fórmula 1.
"Quando é que os homens terão a inteligência de procurar inspiração em todas as filosofias do mundo, do povo banto aos chineses, aos dogons e aos ameríndios, para construírem uma nova humanidade?", questiona Thuram, tentando virar o jogo.
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