Destinos sonhados

Até hoje, muita gente insiste que Fabián Oscar Cancelarich foi o melhor goleiro de todos os tempos. Os argumentos numéricos se espalham por recordes de minutos sem tomar gol e de pênaltis defendidos, além de prêmios individuais e todos os títulos possíveis nos seus clubes. Mas avaliações subjetivas não são menos convincentes. Suas atuações eram impressionantes. Completo, ágil, com reflexo e posicionamento impecáveis, saía bem em cruzamentos e para fechar o ângulo dos atacantes. Praticamente, unanimidade.
Mas, apesar de todas as glórias, Cancelarich nunca escondeu uma frustração que, na sua opinião, minimizava sua carreira em comparação com outros currículos: jamais sentiu o gostinho de ganhar uma taça com a seleção argentina. Sua grande chance teria sido na vitoriosa campanha da Copa América de 1991. Queria, ao menos, ir a um Mundial. Embora durante anos sua presença fosse um apelo generalizado da imprensa e da torcida no seu país, ele havia rompido relações com os dirigentes ao confrontá-los. Acabou excluído das convocações após os primeiros chamados.
A partir daí, criaram versões mentirosas para justificar um suposto motivo real de sua ausência: escândalo com drogas, briga com Batistuta, um caso com a esposa de um cartola, exorbitante pedido de premiação financeira, falta de patriotismo. Os boatos só aumentaram sua mágoa de não brilhar com a camisa que mais idolatrava. Certa vez, não reconhecido num restaurante de Buenos Aires, ao lado da família, o goleiraço escutou acusações escabrosas da conversa na mesa vizinha. Entrou em depressão. Aposentado, adotou o anonimato de uma vida caseira e afastou-se completamente do futebol.
Distanciar-se da bola é justamente o que não quer seu compatriota Lionel Andrés Messi. Atualmente sem contrato, o baixinho de 28 anos mantém a forma em vários babas diários, aguardando o desfecho de sondagens de clubes paraguaios.
Ele ficou mais conhecido por ser primo do atacante Maxi Biancucchi, ex-Flamengo e bem-sucedido na dupla Ba-Vi. Apesar da sua modesta trajetória, Messi adora narrá-la em detalhes, e só assim deixa de ser tão calado. Sempre destaca sua maior façanha: a conquista da Copa América de 2007.
A Argentina tinha levado só reservas à Venezuela: veteranos sem perspectiva - para transmitirem experiência -, destaques do campeonato nacional e jovens promessas a serem testadas, como Messi, aos 20 anos. Ele quase não entrou em campo, mas, olhos brilhando, não disfarça sua empolgação com as histórias, a medalha, as comemorações, as fotos, o gramado compartilhado com atletas famosos, a sensação de pertencimento, sua dose de colaboração, os recortes de jornal e seu nome - ainda que discretamente - cravado na história.
O meia-atacante formou-se nas categorias de base do seu amado Newell's Old Boys, muitas vezes sob risco de ser dispensado devido à fragilidade física. Depois daquele torneio continental, nunca voltou à seleção. Não vingou na Espanha, defendendo Getafe e, na Segundona, Tenerife. Perambulou por Nueva Chicago, Banfield e Huracán, O'Higgins, do Chile, e Sportivo Luqueño, do Paraguai. No seu bairro de classe média em Rosário, é saudado por vizinhos com admiração comedida, chamado de "campeón" por causa da única conquista.
Outro dia, o esquecido Messi viu, na TV, um craque consagrado, dono de quatro títulos de melhor jogador do mundo, dizer que trocaria todos os êxitos por um troféu com a seleção argentina. Ele deliciou-se com um sorriso de canto de boca.
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
