Deuses no banco de reservas

Comemorações de gols e declarações igualmente ensaiadas estão cada vez mais repletas de religiosidade. Essas manifestações integram o crescimento de uma onda de fanatismo que tenta se apoderar de diversos segmentos no Brasil. Até manjados corruptos aproveitam-se de discursos cristãos para ganharem poder, voto e dinheiro. Seduzem com pregações que não correspondem à sua conduta, e elas funcionam.
No futebol, também soam boas as intenções, mas Deus só é lembrado quando conveniente. Essa insistência não parece natural, e sim forçada, até como tentativa de autoconvencimento. Mostra-se impositiva, para catequizar os outros, e, desta forma, é intolerante, como se tratasse de uma condição superior. Também um sinal de insegurança, mais uma preocupação demasiada na fé alheia do que no próprio bem-estar interior.
Por esses extremismos, cometem-se frequentemente crimes contra adeptos de outras crenças na Bahia, sobretudo as de origem africana. É como se apenas a cristandade fosse aceitável. Afinal, qual jogador está à vontade para afirmar, a exemplo de falas semelhantes: "Essa vitória é graças a meu orixá, que é maravilhoso, maior do que tudo"? E se gols fossem celebrados com dança ou simulação de ritual de candomblé? Como reagiria o público?
Citar Deus virou artifício de autovalorização. Mesmo abusando do Seu nome em vão. Aliás, apontar constantemente a presença divina é se eximir de responsabilidades. E não saber percebê-la. Até porque essas ladainhas, invariavelmente, não se traduzem em ação.
Em junho, a final da Liga dos Campeões da Europa teve caso emblemático. Neymar fez um escândalo, jurando inocência, ao anularem um gol em que a bola desviou num braço seu. Tal era sua convicção, que parecia uma grave injustiça. Pura farsa. Confirmado o título do Barcelona, o craque comemorou com uma marqueteira faixa na cabeça em referência a Jesus.
"Ah, então o jogador tem que ser um santinho?", questionam. Se defende o discurso do 'bem', escancara uma hipocrisia ao se acostumar a ser diabinho. Qualquer um está sujeito a pecar, mas não combinam evocar o Senhor a todo instante e recorrer habitualmente a simulação, violência, desrespeito, golpes baixos. Essa contradição, no entanto, acontece sempre.
Várias pessoas tratam Deus como apoiador de alguns jogadores em detrimento de outros tão fervorosamente fiéis e esforçados. É o nível da fé, a postura cristã ou o desempenho esportivo que garantem uma vitória? Vale lembrar os inúmeros times campeões com muitos péssimos caráteres, além dos títulos com erro de arbitragem.
O então diretor de futebol corintiano Sérgio Janikian considerou "um presente Dele" o confronto com o Guaraní, do Paraguai, nas oitavas de final da Copa Libertadores deste ano. Como foi eliminado em seguida, teria sido vítima de uma brincadeirinha dos céus?
Na prática, de maneira imparcial, com elementos concretos, é impossível comprovar a existência de qualquer entidade sobrenatural. Ou seja, Deus é que foi criado pelo ser humano. Sim, para justificar tudo, e principalmente o inexplicável, a humanidade concebeu, de inúmeras maneiras, hipóteses e religiões. Não que sejam falsas! Mas são teorias, em que acreditam ou de que duvidam milhões de pessoas. A fé nelas e a falta dela precisam ser respeitadas. O limite está justamente em não invadir individualidades. Além do mais, em geral, unem as religiões os valores positivos, como amor, convivência pacífica, preservação da natureza. Entretanto, multidões interpretam mal os conceitos e os deturpam. Falando em Deus oportunistamente, claro.
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
