Elas não são suas musas
A convite do colunista Eliano Jorge, aqui escrevo dentro do movimento #AgoraÉQueSãoElas, no qual homens dos mais variados espaços cedem seu lugar de fala a uma mulher. No caso, eu, repórter do Caderno 2+, de A TARDE.
Não sou do esporte. Mas sou mulher. Uma mulher leitora. Jornais, sites, blogs, Facebook e afins fazem parte da minha rotina. E, como observadora e crítica, percebo que a cada campeonato esportivo deparo-me com textos e comentários a respeito de alguma "musa do *inserir esporte qualquer*".
Pouco importa o esporte. Ginástica. Natação. Futebol. Basquete. Vôlei - esse, melhor ainda se for de praia. Tênis. MMA e por aí vai. Pouco importam as habilidades da atleta. Se ganhou medalhas. Se foi a campeã em determinada categoria. Mas foi aquela foto no Instagram em que aparece de biquíni ou a foto pré-balada em seu perfil pessoal do Facebook que fez sucesso. Já estampa as principais páginas de notícias esportivas. Musa! Elegeram-na.
Percebo que as coisas não vão nada bem em pleno 2015, quando um site tem a categoria "Musas do Esporte". A questão não é que não se possa elogiar a beleza feminina. O fato é que priorizar sua beleza física e preterir a sua competência profissional enquanto esportista é colaborar com a manutenção dos valores patriarcais. Sim, o velho companheiro: Sr. Machismo. A impressão é de que o jornalismo esportivo diz: "Ela pode até ser competente, mas ser bonita é o que importa". Parem! Apenas, parem!
Em tempos de lutas dos feminismos em prol do respeito, igualdade e liberdade para com o próprio corpo, não faz sentido profissionais da comunicação insistirem nesse tipo de tratamento. Assim como o assédio nas ruas, do mais simples "fiu-fiu", eleger as mais belas de competições não é elogio. Fotos e expressões que sexualizam e objetificam a mulher ainda são frequentes. Isso sem mencionar quais são tais padrões eurocêntricos de beleza eleitos, né?!
Ser mulher é muito perigoso! Nossas decepções diárias por conta do machismo já são muitas, desde comentários de homens adultos sexualizando uma garota de 12 anos; a interferência do estado em nossos úteros e os tantos relatos de primeiros assédios. Acredito que o jogo está mudando. Mas para isso precisamos de aliados.
Nesse sentido, ter homens sensíveis à nossa causa é de extrema importância. A princípio, cogitei recusar o convite de participar do #AgoraÉQueSãoElas, com o argumento de que "Nós falamos por nós mesmas!". Mas resolvi aceitar, pelo motivo de "Vai ter mulher falando sim!". Seja nos espaços de vocês, seja nos criados e, em algumas vezes, rompidos por nós.
A famosa frase "Meu corpo, minhas regras" continuará, pois, por mais que pareça óbvio, nós, mulheres, é que somos donas dos nossos corpos. Não precisamos, nem queremos, de vossos avais, análises estéticas, muito menos apreciação, quando esta não é o foco.
E a hashtag do movimento pode até ser "Agora É Que São Elas", mas, elas, nós, somos o tempo inteiro! Nossa luta é todos os dias! Na verdade, agora é que são vocês! Chegou a vez de nos escutar. Estamos nas ruas, nas redes, em todos os cantos. E ser mulher é muito perigoso mesmo, sobretudo para o mundo machista, enquanto ele existir.
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