(Im)pacto nacional

Determinados acontecimentos motivam discussões cruciais para a proposta de país que seus cidadãos desejam. Um atentado, um desastre natural, um crime bárbaro, a luta por eutanásia ou aborto, uma epidemia e um escândalo de corrupção, por exemplo, já mobilizaram nações inteiras em debates filosóficos e por providências para um futuro melhor. O Chile vive um desses momentos históricos hoje, com um dilema ético.
Enquanto sediam a Copa América e atraem as atenções do planeta inteiro devido à presença de astros do futebol, os chilenos lutam por seu primeiro título relevante. Tentam curar décadas de frustrações no seu esporte preferido. Para isso, contam com sua melhor geração de jogadores e a população mobilizada para apoiar e festejar em casa.
Porém, terça-feira, durante folga da seleção, o meio-campista Arturo Vidal, de 28 anos, artilheiro da competição, com três gols e uma assistência em dois jogos, dirigiu com o triplo do nível alcoólico permitido no sangue e envolveu-se num acidente de trânsito.
Ainda que ninguém tenha se ferido gravemente, a lei foi cumprida, Vidal dormiu na cadeia e perdeu a carteira de habilitação. O processo tem prazo de 120 dias para a decisão.
No boletim de ocorrência, policiais teriam relatado agressões físicas e verbais. Um vídeo mostra 'Rey Arturo' - como se reivindicasse a majestade conferida por seu apelido, na versão "Sabe com quem você está falando?", repleta de palavrões - alegando que, se fosse algemado, "todo o Chile" se daria mal.
No dia seguinte, com cara e voz de choro diante de câmeras e microfones, Vidal pediu desculpas a todos, assumiu os erros e voltou a treinar, respaldado pelo técnico argentino Jorge Sampaoli, por colegas de seleção e por dirigentes.
O país se dividiu entre cobranças por punições e apelos pelo perdão. Alguns compatriotas exigem que o ídolo não tenha privilégios; outros defendem sua saída do time como exemplo para o povo. Mas uma multidão se manifestou, até nas ruas, por apoio ao atleta. "Quem nunca bebeu um pouco quando dirigia?", contemporizou um homem entrevistado pela ESPN Brasil. Uma mulher, que levou filho e neto pequeno para uma vigília por Vidal, disse que o acidente tinha menos importância.
A seleção chilena acumulou vários casos de indisciplina nos últimos anos. A maioria, em decorrência do abuso de bedida alcoólica. Vidal, aliás, já havia sido punido em 2011. E protagonizou outro episódio na Juventus.
Ele joga muito. Alia marcação e chegada ao ataque como poucos. Tanto, que não coube no alemão Bayer Leverkusen e foi se destacar na atual tetracampeã italiana e vice europeia. É essencial à seleção chilena, mas tornou-se também importante para o Chile avaliar conduta, cultura e visão crítica dos seus habitantes, seus parâmetros e o peso que o futebol deve ter no país.
O assunto rodou o mundo. Pode servir para menos idiotas beberem antes de dirigir. Será ótimo se também não trafegarem enquanto falam ao telefone ou trocam mensagens.
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