Laboratório político no esporte
Há alguns anos, o mundo vive uma crise de representação política. Os principais modelos - antigos e atuais - recebem críticas por não atenderem às necessidades e às expectativas populares. Protestos eclodiram em diversos países. A democracia não tapou brechas para falhas de funcionamento e malfeitores, precisa-se aperfeiçoá-la. Inserido neste problema, o esporte, nos seus mais diversos níveis, tem a chance de experimentar novas formas de organização.
O grande desafio é conseguir participação direta e efetiva dos cidadãos nas tomadas de decisão. Para que ele possa fiscalizar de perto, opinar e, enfim, ser representado na gestão do que lhe diz respeito.
No âmbito esportivo, existem clubes que poderiam fazer testes - e cada vez mais inclusivos. Não se limitariam a atrair um sócio-torcedor para virar consumidor, e sim parte da instituição. Essa relação em escala comunitária, quem sabe, promova o gérmen de iniciativas bem maiores.
Vem sendo bastante cobrada a reformulação da Fifa, carcomida por mecanismos viciados, politicagem e corrupção. Sem a mínima chance de se eleger, o candidato Zico sugere que não só os cartolas governem, o que abriria espaços para atletas e até torcedores.
Também se contesta o arcabouço da CBF, cujos dirigentes se apoiam em distribuição de favores e recursos, sobretudo para seu restrito eleitorado de clubes e federações estaduais. Esse formato apodrecido se reproduz nos Estados, com as ligas municipais.
Em outros esportes, com menos visibilidade, a situação não muda muito e ainda há verba pública. Transparência, pluralidade de vozes, idoneidade, revezamento no poder e profissionalismo ainda são pouco exigidos.
As regras são feitas por quem está no poder e nascem para mantê-los assim. Brotam de cartolas e parlamentares. Seria coincidência, no Congresso, a presença de tantos ricos e donos de concessões públicas de TVs e rádios? Agentes religiosos também, que detêm outro tipo de poder. Além do mais, candidatos têm suas campanhas financiadas por empresas que contarão com seus apoios para manobras. Desde construtoras - cujas negociatas lotam o noticiário, mas cujos desastres urbanísticos e ambientais, nem tanto - à indústria de armas, passando por planos de saúde.
O filósofo Vladimir Safatle defende, em colunas semanais na 'Folha de S. Paulo', a oportunidade para "novas formas de democracia". No Brasil, ele apontou um "parlamentarismo de espoliação". Ou seja, congressistas que se aproveitam do fisiologismo de sucessivos governos e vivem de achaques. Um ministério ou um órgão federal por uma adesão à bancada, por exemplo.
O ex-presidente uruguaio José Mujica, um dos que bradam contra os políticos profissionais, lamentou que as repúblicas tenham renovado o conceito das cortes das velhas monarquias. Os ocupantes de altos cargos públicos estariam longe de representar o povo. Formariam um casta, aproveitando o que se tornou uma via de ascensão socioeconômica. No Judiciário, no Congresso, nos palácios estaduais, os donos do poder se encastelam, se distanciam da vida normal, da realidade daqueles a quem deveriam servir. E com tantos benefícios, enquanto os ônus das crises financeiras são pagos pelo resto da população.
É assim também com quem administra o futebol e faz negócios milionários com parceiros comerciais. Os interesses da população, do torcedor neste caso, não são prioridade. Novos modelos urgem.
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