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Visão de Jogo

Por Jornalista l [email protected]

ACERVO DA COLUNA
Publicado sexta-feira, 17 de julho de 2015 às 11:04 h | Autor: Jornalista l [email protected]

Milhões de medalhas perdidas

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tiro com arco em Toronto
tiro com arco em Toronto -

O que acontece aos atletas nos Jogos Pan-Americanos vai muito além de resultados esportivos. Ali, há uma rica coleção de histórias de vida. Escondem-se exemplos bem-sucedidos para conscientizar a sociedade, inspirá-la e reverter seu evidente embrutecimento. É o caso de enxergar em cada cidadão um potencial à espera de oportunidade, mas não somente em âmbito atlético.

Infelizmente as circunstâncias não favorecem para que esse canal revelador seja o jornalismo. Existem os limites do imediatismo e da produção industrial, espaço insuficiente nos jornais, tempo exíguo nas TVs, a internet obcecada por cliques, o desinteresse de levar à tona algo que contrarie padrões e estereótipos. Tudo isso apertado entre as publicidades, que são o que realmente financia a mídia. Ademais, nós, jornalistas, nos acostumamos a registrar disputas, placares, jogadas, classificações, a superficialidade. Resignados na autocensura e no menor esforço. Deixa-se de perceber o valor humano.

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Relatos mais profundos ajudariam a desfazer preconceitos, a aproximar os mais diversos grupos sociais, a promover uma visão mais positiva. Acontecem raramente.
As filhas de um traficante assassinado aprenderam a jogar badminton numa favela carioca e conquistaram medalha de prata, mostrou a TV Globo.

Aos 20 anos, oriundo de uma cidadezinha de 18 mil habitantes, arrimo de família que não conheceu o pai, um ginasta de menos de 1,50 m de estatura colocou sobre duas bandeiras dos EUA uma da Guatemala, na sua cerimônia de premiação. A Folha de S. Paulo o apresentou.
Três medalhas, duas delas douradas, premiaram um dos dez filhos da baiana que os sustentou limpando uma estação rodoviária e lavando roupa num rio, conforme contou A TARDE.

Uma pequenina ilha com tantas carências, embora cada vez mais fragilizada, resiste como potência esportiva, aplicando a eficiente formação de atletas como política de estado e parte do plano de saúde pública. Porém, há resistência para se falar de Cuba.

Quantos competidores agora aplaudidos foram menores infratores? Quantos esmolaram e cresceram em condições impróprias? Quantos são filhos de trabalhadores explorados e humilhados? Quantos sofreram discriminação e abusos? Quantos estavam frequentemente expostos a crimes e desestimulados à escolaridade?

Apesar do clichê, até mesmo os atletas sem a mínima chance de subir ao pódio possuem uma oculta trajetória vitoriosa. As atenções resumem-se literalmente ao topo da pirâmide.

Viver do esporte é difícil até para membros de famílias com boas condições financeiras. A superação de inúmeros jovens pobres não serve para comprovar a viabilidade das exceções que alcançam o sucesso, e sim para se pensar na possibilidade perdida de êxito em escala muito maior se mais gente não sofresse com obstáculos básicos. Esse raciocínio não vale apenas para o esporte, mas para as inúmeras chances negadas para grande parte da população.

Para cada medalhista que o Brasil ganha, quantos ele perde entre 200 milhões de habitantes? E quantos médicos, professores, engenheiros, artistas, executivos...? Quantos cidadãos?

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