O 11º mandamento

Por ter sido surpreendentemente marcada para as 20h30, a partida de ontem da Seleção Brasileira, no Chile, parecia um indício de desalinho na antiga parceria e nos interesses dos operadores dos direitos de transmissão televisiva das competições sul-americanas. Seria um suposto efeito do escândalo das negociatas, do enfraquecimento de personagens poderosos ou das críticas adesistas e oportunistas à cúpula da velha aliada CBF.
Em tese, o horário desagradaria à hegemônica Rede Globo, que prefere mostrar jogos a partir das 22h, depois do 'Jornal Nacional' e da novela seguinte. Desde a década de 1990, só em raríssimas vezes, quando não foi possível alterar a programação de competições de futebol, a emissora mexeu no momento mais valorizado da sua grade. Até sofreu com isso, por exemplo, ao deixar de exibir o Mundial de Clubes de 2000, que culminou com Corinthians e Vasco na final, no Maracanã.
O jornal 'Folha de S. Paulo', porém, publicou ontem um texto que permite outra interpretação sobre a questão. A estreia brasileira nas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2018 seria um trunfo da Globo para concorrer com a novela 'Os Dez Mandamentos', da Record, que estaria causando prejuízos à audiência da principal empresa de comunicação do país.
Havia pontos negativos: a Seleção não vive um dos seus períodos mais animadores; por enquanto, não passou a ressaca da humilhação de 7 a 1 imposta pela Alemanha no Mundial do ano passado, em casa; o astro Neymar, suspenso, não pôde atuar; e o futebol tem atraído menos telespectadores na TV aberta.
Seria, então, uma aposta. O 'Jornal Nacional' foi antecipado para as 20h. 'A Regra do Jogo', protelada para as 22h30. Ainda não se sabe se deu certo a iniciativa.
Entretanto, ela poderia reforçar o movimento de manifestações contrárias à transmissão de jogos às 22h.
A própria CBF havia prometido tentar negociar uma readequação às necessidades dos torcedores. Dirigentes de grandes times chegaram a realizar críticas públicas. Na prática, todos sempre se submeteram à vontade da Globo, que, graças a seus anunciantes, banca a maior fonte de arrecadação dos clubes: as cotas de participação em torneios.
Durante disputas pelos direitos da Série A do Campeonato Brasileiro, outras emissoras prometeram atender aos apelos por partidas mais cedo. Em vão. Agora, a Record pode ajudar a mudar isso, se a Globo entender que é mais vantajoso empurrar a novela e seus reality shows para depois do futebol - até para poder exibir cenas impróprias ao horário anterior.
O próximo duelo da Seleção, terça-feira, em Fortaleza, contra a Venezuela, já está agendado para as 22h. Mas no futuro, quem sabe, não seja necessário os torcedores ficarem acordados tão tarde, tendo compromissos no início da manhã seguinte. Nem seja penoso e arriscado voltar para casa no início da madrugada nas violentas cidades brasileiras, com transporte público precário. Porque, afinal, os jogos profissionais acontecem para alguém assistir - em estádios e pela TV. E seus horários deveriam atender às condições dos espectadores.
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