Quebrando as promessas
Entre as tantas contradições dos torcedores baianos, incluindo os que dispõem de microfone e papel-jornal, existe a conduta esquizofrênica sobre o aproveitamento de pratas da casa. Ao mesmo tempo em que se pede a valorização deles, apressa-se a cobrança por desempenho.
Exige-se a contratação de jogadores com capacidade comprovada para todas as posições, mas também reivindica-se a escalação de mais garotos das categorias de base. Há uma pressa pela utilização dos promissores atletas, muitas vezes encarados como salvadores da pátria. Despreza-se o risco de queimá-los ao atirá-los em plena fervura.
Nesses casos, sempre surge o argumento cretino: "Pelé foi campeão do mundo com 17 anos!". Realmente parece que cada garoto surge com a obrigação de se mostrar craque logo de cara.
Cada pessoa tem seu tempo de maturação - física e psicológica. São necessários funcionários preparados para conduzirem um adolescente à equipe principal. Kaká, por exemplo, sempre foi reserva do São Paulo até estourar na subida ao elenco profissional. Por outro lado, inúmeros badalados juniores decepcionaram na fase adulta.
A torcida e a mídia que clamam pelo prata da casa são as mesmas que não têm paciência com ele. Que passam a persegui-lo. Que o condenam nas suas primeiras más exibições. Fica a impressão de que o Fazendão e o Barradão produzem apenas gênios e o guri não serve se não ratifica este selo.
Foi assim que o lateral direito Madson precisou sair do Bahia para evoluir no Vasco. Daquela sua turma vice-campeã da Copa São Paulo de 2011, quantos vingaram no Tricolor? Nenhum. O volante Filipe Augusto, dono do maior potencial naquele time, foi logo negociado.
A safra do Vitória que desabrochou no título nacional sub-20 de 2012 não rendeu os frutos imaginados. Neste ano, o Leão formou uma geração maravilhosa que conquistou a Copa do Brasil Sub-17. Precisa ter o maior cuidado com ela. Trata-se de raras pedras preciosas a serem sempre polidas, protegidas de roubos e usadas na ocasião certa. Aí, sim, serão as joias esperadas.
O clube investe no sujeito durante anos, tem a chance de criar um ídolo e/ou arrecadar com sua transferência, mas nem sempre sabe lidar com este processo.
Ao contrário do que defendem vários rubro-negros descontentes com seus centroavantes, Rafaelson, de 18 anos, não pode ser visto como solução. Caso ele consequentemente se torne, ótimo. Como ocorreu com Flávio. Entretanto, quem deve ser cobrado é Escudero, Pedro Ken, Elton, Robert, Marcelo Mattos... Eles têm carreiras e salários para esse nível de pressão.
Quando Souza, Pittoni e Léo Gamalho decaíram no Bahia, Yuri, Gustavo Blanco e Jacó deram conta do recado. Mas chegaram como tapa-buracos desacreditados.
Claro, os jovens podem ser trunfos. É excelente tê-los como opções para fazer o diferente, para mostrar ímpeto e garra, para sair da acomodação, para surpreender, para fugir dos padrões, para acrescentar criatividade, para doar energia nova, para acreditar no improvável. Mas não se deve depositar neles a responsabilidade, só a esperança. Os garotos estão aí para errar também. Faz parte do aprendizado. Quem não aprende é o pessoal que opera o sistema de fritura da molecada.
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
