Salvo pela camisa do Leão
Era 2011. O baiano fazia sua primeira viagem à Europa. Depois de caminhar durante tarde e noite pelas ruas da bela Verona, com uma mochila de 12 kg, desembarcou em Desenzano e, logo descobriria, numa enrascada italiana.
Passava das 21h. Imediatamente, ele dirigiu-se a um balcão comandado solitariamente por uma jovem e perguntou pelo traslado a Sirmione, um balneário vizinho, à beira do gigantesco Lago de Garda. A moça informou que já não havia ônibus àquela hora.
Foi preciso repetir, para deixar bem claro que não existia mais nenhum meio de transporte disponível. E como seria possível ir até lá? "Caminhando", respondeu ela, com a maior simplicidade e imutável expressão facial. Questionada, acrescentou que a rota - sabe-se lá por qual direção - se estendia em mais de 10 km.
Natural e um tanto desconectada do problemão que acabava de anunciar, ela não parecia cínica nem maldosa. Porém a vontade do turista era esganá-la, pois, exausto, estava sendo indicado a peregrinar por longo caminho desconhecido, com bagagem pesada, na escuridão noturna, sob progressiva queda de temperatura, no outono. O cansaço, a má surpresa e a apreensão venceram a raiva. Era preciso se concentrar e pensar logo numa solução.
De repente, pareceu milagre de Nossa Senhora da Vitória. O cara seguinte da fila do guichê, que acompanhava o diálogo em italiano, falou português e ofereceu carona para a maior parte do percurso! Era brasileiro e já havia reconhecido antes o compatriota pela camisa 10 rubro-negra. Aguardava um colega passar de carro para levá-lo ao trabalho, que começaria em instantes.
O capixaba, então, além de apresentar uma gata maranhense que forneceu celular e auxílio, ajudou com informações e arranjou um raro taxista que aceitou um bico em período de baixa estação. Dali, era só buscar uma das hospedarias listadas detalhadamente a partir de pesquisa prévia na internet. O problema seguinte é que todas - sem exceção - estavam fechadas, pois a temporada turística se encerrara. O experiente motorista deu um jeito, emendou telefonemas e acionou o dono de um hotel, que não recusou o inoportuno hóspede, mesmo sem funcionários e condições normais para abrigá-lo.
Ainda assim, foi incomparavelmente melhor do que dormir ao relento ou vagar pela estrada, de madrugada, já sem energia, arrastando-se sob sua bagagem, por mais de seis milhas. Graças, fundamentalmente, à ajuda do emigrante patrício para quem o rubro-negro se apresentou depois como baiano. "Eu sei, vi pela camisa do Vitória", respondeu o sudestino, desfazendo qualquer dúvida sobre eventual confusão com o uniforme do Flamengo, tão longe do Brasil. Esse orgulho leonino em terras estrangeiras só completou a reviravolta positiva do que se desenhava um perrengue e tanto.
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