GÊNERO E MEMÓRIA
Artista de Serrinha traz universo do sertão baiano em exposição
Obras ficarao expostas de sexta-feira, 15, até 6 de junho, no Centro Histórico


Por ser de lá do Sertão, primeira exposição individual da artista plástica e tatuadora baiana Deisi Rocha, abre ao público a partir desta sexta-feira, 15, até 6 de junho, na Ernesto Bitencourt Galeria, no Centro Histórico de Salvador.
No local, o público vai se deparar com imagens do semiárido baiano – como cactos e couros característicos da região – retratadas com tons e formas da caatinga. Autointitulada uma artista visual figurativa, herdeira de uma cultura africana, indígena e portuguesa, Deisi cria telas onde figuras humanas, flora e símbolos se misturam para ilustrar o cotidiano contemporâneo do Nordeste brasileiro.
“Essa exposição nasceu de uma pergunta simples e difícil: quem sou eu? Se espalhou na busca por uma resposta e tomou corpo ao se deparar com as infinitas possibilidades do que eu sou enquanto indivíduo no íntimo e no coletivo”, comenta a artista.
Ela acredita que a arte é o melhor caminho para se encontrar e construir novas formas de ver e viver, e, por isso mesmo, pretende dividir esta experiência com o maior número de pessoas possível.
“O propósito maior da exposição é sobre a importância dessa busca, desse reconhecimento que nos faz dar um mergulho profundo em nossas raízes para então crescer em direção aquilo que pode nutrir nosso íntimo com vida e coragem”, detalha.
São 13 obras de médio e grande formato, marcadas por uma paleta terrosa, com imagens em que figura e trama se entrelaçam. “As pessoas vão encontrar muitas histórias. Histórias das quais eu participo e que qualquer uma delas já participou ou viveu também. Mesmo que com uma roupagem diferente. Então é basicamente um encontro consigo mesmas”, pontua Deisi.
Ancestralidade
Com curadoria de Danilo Barata, Por ser de lá do Sertão parte da observação da região não como simples paisagem geográfica, mas como território afetivo, histórico e imaginário.
Figuras humanas, mandacarus, rendas, folhas, utensílios, raízes, bois, tecidos e grafismos coexistem em superfícies marcadas pela sobreposição de camadas, fazendo da pintura de Deisi um espaço em que passado e presente se entrelaçam.
“A exposição revela uma artista que transforma o cotidiano nordestino em linguagem visual, fazendo da pintura um dispositivo de escuta, permanência e resistência. Como a própria artista afirma em seu portfólio, sua prática parte da observação do cotidiano nordestino atravessado por ancestralidades e símbolos de resistência, tratando o tempo como matéria pictórica, algo que apaga e revela”, ressalta Barata.
São obras em que o sertão aparece como território vivido e imaginado, ao mesmo tempo duro e fecundo, ritual e cotidiano. “São personagens que não se oferecem de modo inteiramente transparente: eles surgem entre rendas, espinhos, halos, folhas, grafismos e panos, convidando o espectador a atravessar a imagem, e não apenas a contemplá-la. Em trabalhos como Cria do Sertão, Renda-se, A Voz da Terra e Guarda Corpo, a artista constrói imagens de presença, permanência e força simbólica”, explica o curador.
Para ele, a trajetória de Deisi se constituiu a partir de uma formação sensível marcada pelo desenho, pela observação e introspecção. “O reconhecimento como artista foi sendo construído gradualmente e se tornou mais consciente nos últimos anos, quando passou a compreender a pintura como espaço de experimentação, acolhimento, reflexão e comunicação”.
Antes de se dedicar com mais ênfase à pintura, Deisi Rocha transitou por outras práticas visuais, como o muralismo e a tatuagem. “Hoje, sua obra se organiza em torno de questões como ancestralidade, família, religião, cotidiano, gênero e memória, elaborando o sertão como território simbólico e campo expandido de linguagem”, complementa Barata.
Segundo Danilo, o trabalho de Deisi é importante para as artes plásticas baianas porque reinscreve o sertão no campo da arte contemporânea a partir de uma perspectiva que recusa tanto o exotismo quanto a simplificação regionalista.
“Sua obra devolve centralidade a repertórios, sensibilidades e experiências historicamente marginalizados, articulando saberes nordestinos, femininos, afro-indígenas e populares em uma pintura de alta densidade formal e conceitual”, sintetiza o curador.
“Há, em sua produção, uma contribuição relevante para a ampliação do imaginário visual baiano, especialmente por deslocar o foco da representação costeira, urbana ou monumentalizada da Bahia e afirmar o interior como campo de invenção estética e pensamento crítico”, acrescenta.
Território simbólico
A pintura de Deisi Rocha vem se afirmando por ser de forte densidade simbólica, ancorada nas relações entre memória, ancestralidade, território e resistência. E por ser do sertão, Deisi acredita que não poderia pintar outro lugar se não o território em que nasceu, se criou e se moldou.
“E, além de tudo isso, eu sinto e vejo que esse lugar é mágico. O sertão seco é uma barreira climática que o torna capaz de fazer nascer uma imensidão de vidas. Das mais simples às mais complexas”.
“E digo isso, falando da flora e da fauna. Sendo a humana, a mais instigante e curiosa que existe. Um povo com uma dualidade poética e física que o torna capaz de existir em qualquer ambiente do mundo”, alinhava a artista.
Ela conta que seu trabalho quer ser visto e causar diálogos, quer construir pontes para encurtar distâncias, sejam elas físicas ou mentais. “Eu acho que ele quer tudo (risos). As pinturas me exigem e me dão muitas coisas enquanto estão se revelando. Então, enquanto artista eu quero ser um canal da arte. E ela quer de nós uma entrega genuína de atenção e tempo, para então fazer algumas perguntas, dar algumas respostas, confrontar e também abraçar”, finaliza.