Biblioteca reafirma vocação de Neil Gaiman como tecedor de narrativas

Publicado terça-feira, 07 de setembro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 06/09/2021, 21:48 | Autor: Chico Castro Jr.

A arte de contar histórias é um dos atributos mais fascinantes e antigos da humanidade – mais antigo do que a própria linguagem falada (pense nas pinturas nas cavernas). Através das histórias, sejam literárias, sejam orais, a humanidade se reconhece no outro (gerando empatia), se instrui, se conforta e evolui.

Nas últimas décadas, o premiado escritor inglês Neil Gaiman (Sandman, Deuses americanos) tem louvado essa tradição universal constantemente em sua obra. Como que para confirmar isso, a Biblioteca Gaiman, volume com seis de seus contos literários adaptados para os quadrinhos, chegou há pouco tempo às livrarias.

Neste Volume 1 da Biblioteca, três dos seis contos apresentados trazem justamente histórias dentro de uma outra história. Em Mistérios divinos (o melhor conto deste volume), um homem dá um cigarro para um estranho em um banco de praça. O segundo lhe paga a gentileza contando-lhe uma história ambientada literalmente no paraíso.

Nela, o anjo Raguel é designado por Deus para investigar o assassinato de um colega, Carasel. Evidentemente, haverá muitas reviravoltas e segredos a desvendar, mas nem tudo está dito textualmente. Vale prestar muita atenção em cada detalhe da arte, pois nelas podem estar pistas importantes para um melhor entendimento do que se passou no paraíso e sua relação com os dois homens do começo – o que conta a história e o que a ouve.

Publicado em 1992, o conto foi magnificamente adaptado em HQ por um verdadeiro mestre: P. Craig Russel, velho conhecido dos apreciadores de Neil Gaiman, tendo ilustrado uma das edições mais marcantes de sua opus magnum Sandman: Ramadan (número 50 do premiado gibi).

Outro conto que traz uma história dentro de outra, curiosamente, é justamente a mais fraquinha do volume: As noivas proibidas dos demônios desfigurados da mansão secreta na noite do desejo sinistro. Com os desenhos interessantes, porém um tanto poluídos de Shane Oakley, a HQ de título quilométrico traz um escritor em crise em sua mansão sombria no século 19 e seu mordomo esquisitão.

No conto que trava sua criatividade, o escritor traz donzelas em perigo, atormentadas por bruxas e estranhas criaturas. A referência a Edgar Allan Poe é explícita, com direito à aparição de um corvo que diz ao escritor “nunca mais”. Oakley de fato traduz bem o climão gótico do conto, ainda que às vezes o excesso de elementos gráficos nas suas páginas pareça atravancar um pouco a fluidez da HQ.

Outro parceiro habitual de Gaiman, o desenhista Michael Zulli responde pelas adaptações de três contos do volume: O sacrifício, A filha das corujas e A verdade sobre o desaparecimento da Srta. Finch. Os dois primeiros foram publicados juntos (inclusive no Brasil, há pouco mais de dez anos) na graphic novel Criaturas da noite. O último é inédito por aqui, junto com As noivas proibidas dos demônios...

Pelota de coruja

O melhor dos três contos ilustrados por Zulli é seguramente O sacrifício. Nele, Gaiman traz outro elemento recorrente em sua obra: gatos. Aqui, um escritor em sua casa de campo percebe que um dos muitos gatos que abrigou aparece machucado todo dia de manhã.

Intrigado, ele compra um binóculos de visão noturna e passa a noite à janela, tentando descobrir quem (ou o que) está machucando o gato preto em suas incursões noturnas. O que ele vê é descrito de forma tão espetacular – em texto e desenhos – que só lendo e vendo mesmo. Uma pérola.

E aqui chegamos à terceira história dentro de uma história: A filha das corujas. Em um daqueles clubes tipicamente britânicos para cavalheiros, um homem mais jovem conta a um mais velho uma história que disse ter ouvido de um ancião em uma vila do interior – e que este lhe disse que a narrativa em questão já era velha quando lhe foi contada. Em um vilarejo remoto, um bebê foi deixado à porta da igreja local. A menina estava coberta de “caca de passarinho”. Em suas mãozinhas, uma pelota de coruja – matéria não digerida, usada pelas fêmeas desta espécie para alimentar suas crias.

O ancião da cidade avisou que a bebê era uma cria do demônio e, portanto, deveria ser queimada imediatamente em uma fogueira. Em vez disso, o conselho local optou por deixá-la em um convento abandonado próximo, sob os cuidados de sua única habitante, uma ex-freira. Para saber mais, vale a leitura.

O conto mais bem-humorado da publicação é certamente A verdade sobre o desaparecimento da Srta. Finch. Nele, um escritor (é, Gaiman tem esse costume do alter ego) e um casal de amigos têm de “entreter” uma conhecida de um deles, uma mulher galesa que só vai ficar dois dias em Londres. Logo após encontrá-la, o escritor abdica de qualquer chance de se dar bem (em qualquer sentido) com a tal mulher, que é um poço de antipatia e mau humor.

Ainda assim, levam adiante o plano de irem todos juntos para um espetáculo de vanguarda meio circense, meio teatral em uma casa, um daqueles eventos em que os artistas conduzem os espectadores pelo vários cômodos do local. O que se segue é uma sequência de situações absurdas e bastante imprevisíveis, além de muito divertidas.

A deslumbrante arte realista John Bolton embeleza a narrativa de Arlequim apaixonado, conto que fecha o primeiro volume da Biblioteca Gaiman. É uma homenagem do escritor ao clássico personagem da commedia dell’arte italiana.

Narrada em rimas – traduzidas de forma muito competente por Stephanie Fernandes – a HQ se desenrola no Dia de São Valentim, o equivalente anglo-saxônico ao nosso Dia dos Namorados, quando a bela e jovem Missy encontra um coração (um real, de carne, mesmo) pregado à porta de sua casa. A partir daí ela passa a ser seguida na rua pelo arlequim apaixonado, um ser que, aparentemente, ninguém enxerga ali, seguindo a moça pela rua.

A forma imprevisível com que Missy vai se livrar deste romântico inconveniente é mais um must deste livro, desde já um dos grandes lançamentos em HQ do ano no Brasil. Vale acrescentar que a edição é primorosa: em capa dura (com a lindíssima e exclusiva ilustração do paraibano Shiko), papel cuchê e fitilho.

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