CULTURA
Biografia da escritora Zélia Gattai
Por Cláudia Lessa, do A TARDE On Line
Leia também:
>>>Cronologia da vida de Zélia
Filha e neta de imigrantes italianos, Zélia Gattai nasceu no dia 2 de julho de 1916, na capital de São Paulo, onde viveu toda a sua infância e adolescência. Seu pai, Ernesto Gattai, fazia parte do grupo de imigrantes políticos que chegou ao Brasil no fim do século XIX, para fundar a antológica "Colônia Cecília" (uma tentativa de criar uma comunidade anarquista no Brasil). A católica família de sua mãe Angelina Da Col chegou ao Brasil após a abolição da escravatura para trabalhar nas plantações de café, em solo paulista.
Memorialista, romancista e fotógrafa, Zélia Gattai casou-se aos 20 anos com o intelectual e militante do Partido Comunista, Aldo Veiga, com quem teve seu primeiro filho, Luiz Carlos. O matrimônio a aproximou de renomados intelectuais: Oswald de Andrade, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Rubem Braga, Vinicius de Moraes, entre outros. Em 1938, seu pai foi preso pela Polícia Política e Social de São Paulo, durante o Estado Novo. O episódio a motivou a se tornar cada vez mais atuante na vida política.
A separação do seu primeiro marido se deu em 1945, quando conheceu Jorge Amado, durante o I Congresso de Escritores. Após um período de trabalho, militância e paquera, o ilustre escritor declarou seu amor por Zélia. Ela já era uma entusiasmada leitora de Jorge. Em poucos meses, os dois decidiram viver juntos. O que aconteceu por 56 anos, até a morte do marido, em 2001.
Em 1946, com a eleição de Jorge Amado para a Câmara Federal, Zélia e Jorge se mudaram para o Rio de Janeiro. Em 1948, o casal foi exilado, vivendo na Europa por cinco anos. Foi nesse período que nasceu, em Praga, Paloma, sua segunda filha. Foi uma época em que os dois participaram intensamente da vida cultural européia, na companhia de personalidades como Pablo Neruda, Nicolás Guillén, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Paul Éluard, Picasso e Fréderic Curie.
No início da década de 1960, Zélia e Jorge se mudaram para Salvador e fixaram moradia no bairro do Rio Vermelho. Em 1978, após 33 anos de vida em comum, eles oficializaram a união.
Aos 63 de idade, um ano após a mudança para a Bahia, Zélia lançou seu primeiro livro, o romance Anarquistas, graças a Deus. A publicação, que tem como pano de fundo o cotidiano de uma cidade em desenvolvimento, traz um relato da vida dos imigrantes italianos na São Paulo do começo do século. Ela conta histórias da sua família, composta por anarquistas que pregavam a fundação de uma sociedade sem leis, sem religião ou propriedade privada, em que mulheres e homens tivessem os mesmos direitos e deveres.
Quando completou 20 anos da primeira edição, Anarquistas Graças a Deus já contava com mais de 200 mil exemplares vendidos no Brasil. Além disso, o livro de estréia foi adaptado para minissérie pela Rede Globo.
Sua obra é composta de nove livros de memórias, três livros infantis, uma fotobiografia e um romance. Alguns de seus livros foram traduzidos para o francês, o italiano, o espanhol, o alemão e o russo.
Em 1982, dois anos antes de receber o título de Cidadã da Cidade do Salvador, Zélia publicou Um chapéu para viagem, que foi adaptado para o teatro. Nele, a escritora conta histórias sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, a queda da ditadura Vargas, a anistia dos presos políticos, a redemocratização do país. Senhora dona do baile, o terceiro livro, tem como cenário dois mundos separados por uma cortina de ferro e apresenta a seus leitores algumas das personagens mais importantes da História deste século.
Seu quarto livro, Jardim de Inverno, reúne recordações do exílio e do continente europeu dividido em leste e oeste. A obra, que recebeu o Prêmio Destaque do Ano, gerou um convite para uma visita à Rússia de Gorbatchev. Crônica de uma namorada, publicado em 1995, embaralha personagens reais e fictícios para contar as experiências e emoções de uma adolescente que descobre o amor, na São Paulo dos anos 50.
O público mais jovem foi contemplado com dois livros: Pipistrelo das Mil Cores e O segredo da Rua 18.
Em 1999, Zélia lançou A casa do Rio Vermelho. Trata-se de uma coletânea das memórias do casal e da casa em que viveram durante 21 anos. Neste período, a famosa residência dos Amados recebeu os mais ecléticos e ilustres convidados do Brasil, Europa e América, a exemplo do escritor chileno Pablo Neruda, padrinho de Paloma. Em 2000, lançou Cittá di Roma e, em 2001, Códigos de família. Nesse mesmo ano, ela foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, sucedendo a Jorge Amado, na Cadeira nº. 23, que tem como patrono José de Alencar.
Em Memorial do Amor, lançado em 2005, Zélia resgata novas memórias de sua vida ao lado de Jorge Amado, na casa do Rio Vermelho. Depois da morte de Jorge, não viu mais sentido ficar ali. Decidiu, então, abrir a casa para a legião de amigos e admiradores do escritor baiano. Seu desejo é que a casa do Rio Vermelho seja transformado no Memorial Jorge Amado.
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
Compartilhe essa notícia com seus amigos
Siga nossas redes