CULTURA
Bruno Gagliasso vive policial em série espanhola da Netflix
Ator vive policial atormentado que tenta capturarnarcotraficante em série com cenas gravadas em Salvador
Um traficante de drogas internacional que coordena um cartel de produção clandestina, de que ninguém nunca viu o rosto e ainda realiza uma série de rituais macabros e sacrifícios humanos, junto com seus fiéis seguidores. Esse é Santo, o vilão a ser perseguido na série espanhola de mesmo nome e que vira de ponta-cabeça a vida do policial brasileiro Ernesto Cardona (Bruno Gagliasso).
Santo é a primeira série espanhola a ser filmada em parte no Brasil e acabou de estrear na Netflix. Entre Madri e Bahia – as perseguições contra o misterioso bandido são iniciadas aqui mesmo em Salvador –, um rastro de violência e misticismo se alastra.
A Polícia Federal brasileira começa a investigação que persegue esse bandido já com larga experiência em fugas e uma conhecida ficha corrida no Brasil; mas logo ele foge para a Espanha, onde a caçada continua em um esforço conjunto da polícia dos dois países.
“Poder trabalhar em uma série multicultural, interpretando um brasileiro e levando nossa cultura para todo o mundo como artista, é uma experiência que eu nunca tive antes e que me enche de orgulho”, revelou o ator Bruno Gagliasso em entrevista para o ATARDE.
A série possui seis episódios. Foi criada por um espanhol (Carlos López) e dirigida por um brasileiro (Vicente Amorim, diretor de longas como Irmã Dulce e Motorrad, além da série da Globoplay A Divisão). Esse esforço entre países evidencia o melhor dos dois: a expertise espanhola em produções de gênero policial e histórias de crime, e a mística brasileira que destaca os encantos e também os mistérios e violências do mundo underground.
De modo geral, a série se constrói como um verdadeiro quebra-cabeça. As peças vão, a cada episódio, se formando, entre as idas e vindas no tempo – as investigações no Brasil e a tentativa de desmascarar o cartel de Santo, antes da sua fuga para a Espanha –, mas também os conflitos pessoais e o jogo de interesses dos personagens quando as buscas se concentram no país ibérico.
Ali, Cardona terá que colaborar com a polícia espanhola, chefiada pelo linha dura Millán (Raúl Arévalo) e sua equipe de agentes treinados, o que não exclui uma série de conexões e negócios escusos que ele ou os demais agentes possam estar escondendo. Além disso, Cardona também lida com o trauma pela perda de pessoas queridas ao se envolver com a seita chefiada por Santo.
“Posso dizer que foi a personagem mais intensa da minha carreira. Santo é uma série visceral, com uma trama pesada e que exige que as pessoas assistam aos episódios com atenção”, pontua o ator.
“A obsessão do meu personagem faz com que ele descubra e enfrente demônios pessoais, veja e faça coisas que ele não achava ser capaz. Foi um papel que exigiu muito de mim, física e mentalmente”, complementa Gagliasso.
Salvador concreta
A cidade de Salvador não foi escolhida por acaso para ser o “braço” brasileiro por onde a série tem início – e que reverbera até no seu fim.
Cardona vive um policial que chega como um desconhecido na Bahia e, por isso, pode ser escalado para se infiltrar no cartel de Santo. Na capital baiana, ele estabelece fortes raízes, sejam com pessoas – passa a se envolver amorosamente com a fotógrafa Vera (Isamara Castilho) –, seja com a religião, uma vez que se inicia no Candomblé.
“Ter a chance de trabalhar e viver – mesmo que por pouco tempo – em Salvador mais uma vez, com certeza, foi um dos motivos que me fez topar fazer a série. Eu já morei na cidade por um ano e sou apaixonado pelas pessoas, comida, cheiro, energia e pela beleza de Salvador. A gente teve muito cuidado para que a Salvador retratada fosse o mais fiel possível à cidade real, sem estereótipos e com toda riqueza cultural que os baianos transbordam”, observa o ator.
E foi justamente na Bahia que Gagliasso conheceu Carlos López, o espanhol criador da série. Ele esteve aqui pela primeira vez em 2019 para conhecer e fazer pesquisas locais. Gagliasso observa também que parte da equipe e do elenco da série é baiana.
“Acho que todo mundo vai ver a paixão que temos pela cidade, muito bem registrada pelo Vicente Amorim que, como eu, apesar de não ser baiano, tem uma ligação muito íntima e carinhosa com Salvador”, afirma o ator.
Mística ancestral
Santo perpassa ainda por toda uma mitologia ancestral de origem africana que está muito explícita na série, seja nas bênçãos do candomblé que Cardona recebe na Bahia, seja nas influências negativas que envolvem Santo e sua seita – ele promove sacrifícios humanos de crianças em nome de uma entidade obscura do antigo Daomé.
Poderia ser um caminho perigoso esse trilhado pela série, mas há também toda uma construção em torno do Candomblé que dignifica o retrato religioso construído na narrativa. Sobre isso, Gagliasso destaca: “Sou do Candomblé e pedi licença para fazer a série. A gente quis mostrar bem claramente essa relação com a religião africana como uma base de sustentação para o meu próprio personagem, enquanto o Santo e sua seita deturpam símbolos e redesenham seus significados para justificar as barbaridades que eles cometem”.
O ator afirma também que a equipe contou com a consultoria de um pai de santo, algo sempre muito importante para esse tipo de produção, a fim de aparar qualquer representação errada ou deturpada que as religiões de matriz africana normalmente sofrem no audiovisual.
É interessante como a série se apropria disso e consegue complexificar ainda mais tal registro. “Sempre que mostramos o Candomblé, Cardona está passando por um processo de proteção ou defesa, quando está prestes a bater de frente com as perversidades cometidas pelo Santo. A religião está ali para protegê-lo, para trazer paz de espírito”, complementa Gagliasso. Mas, a depender de Santo, essa paz tardará a ser alcançada.
Santo / Criado por Carlos López / Com Raúl Arévalo, Bruno Gagliasso, Victória Guerra / Disponível na Netflix
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