FLIPELÔ
Casa do Benin reabre com debate sobre preservação da memória e acervo de Pierre Verger
Equipamento cultural foi interditado após caminhão atingir fachada no Pelourinho


Fechada desde fevereiro, quando um caminhão atingiu sua fachada no Pelourinho, a Casa do Benin reabriu as portas na tarde desta quinta-feira, 6, durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô).
O retorno do equipamento cultural marca a retomada das atividades após obras de recuperação e a restauração completa do acervo de arte afrodiaspórica.
A retomada das atividades começou com uma edição especial do projeto "Patrimônio É...", sob o tema "Memória Publicada", que debateu a publicação de livros, pesquisas e acervos digitais para a preservação de saberes tradicionais. O encontro também marcou o lançamento de duas revistas produzidas pelo projeto.
Reconexão, acervo e memória ancestral
Presidente da Fundação Gregório de Mattos (FGM), responsável pela gestão da Casa do Benin, Fernando Guerreiro destacou, em entrevista ao portal A TARDE, o simbolismo da reabertura para a capital baiana.
"A gente hoje está vivendo um dia muito especial, porque essa casa faz parte da memória da cidade. Principalmente a memória preta de Salvador. Aqui a gente tem uma ponte de conexão entre Salvador e o Brasil. E essa casa é uma casa de resistência, é uma casa de memória, é uma casa de ancestralidade.... Agora está retomando a pleno vapor, recuperando o acervo, recuperando toda a parte cultural e entregando de novo", declarou Guerreiro.

A requalificação abrangeu também as peças do acervo permanente do espaço. "Nesses 10 anos de Flipelô, aproveitamos esse momento para requalificar a casa e restaurar o acervo doado pelo Pierre Verger, que está lindo e pronto para receber toda a população", afirmou Manuela Sena, gerente de equipamentos culturais da FGM.
Para Jane Palma, gerente de bibliotecas da fundação, a atuação na Flipelô reforça a formação educativa e cultural.
"Nesses 10 anos de Flipelô, nós sempre estamos atuando dentro da feira com a literatura de matriz africana com foco na linguagem infanto-juvenil... Programamos para esses dois dias de Flipelô, para poder estarmos trabalhando a linguagem do Afrobeto, uma professora que desenvolveu um alfabeto através dos elementos africanos. Tipo, o A é de acassá, o V é do vatapá. Você trabalhar todos os elementos dessa história da África e os elementos que estão ligados África-Brasil, de maneira lúdica, mas também bem educativa, focada na valorização da cultura afro dentro de nossa Salvador", detalha.
Pesquisa e resistência em debate
A roda de conversa sobre patrimônio cultural reuniu pesquisadores e educadores para discutir a salvaguarda da memória e da identidade negra.
A pesquisadora, historiadora e escritora Vanda Machado enfatizou o papel da memória na construção do pertencimento e da educação. "A memória nos traz a responsabilidade e a possibilidade de vivenciar um tempo antigo que reverbera em quem somos. Nós não somos mais um barco, somos pessoas que pensam, criam e fazem do seu navio guerreiro a sua resistência. Trabalho com a formação de educadores pensando na potencialidade de cada história mítica para preservar a luta, os afetos e o jeito de estar junto, diminuindo as diferenças", pontuou a escritora.
O arquiteto, urbanista e professor da Universidade FBA, Fábio Velame, apresentou os resultados de um estudo recente sobre o patrimônio nigeriano. "Desenvolvi nos últimos quatro anos uma pesquisa colaborativa sobre o patrimônio material e imaterial da cidade de Oyó, para instruir o processo de reconhecimento como patrimônio da humanidade pela Unesco. Elaboramos um livro-dossiê com todo esse conjunto, lançado recentemente com a presença de representantes de universidades nigerianas e da comitiva da cidade de Oyó", relatou Velame.
A Casa do Benin segue com funcionamento e programação abertos ao público até sábado, 8, das 9h às 17h.