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Cineclube Roberto Pires é inaugurado

Publicado domingo, 07 de dezembro de 2008 às 16:10 h | Atualizado em 07/12/2008, 16:18 | Autor: Laura Dantas, do A Tarde
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Filosofia, política e cidadania são os focos da vasta programação de lançamento do Cineclube Roberto Pires, que acontece nesta segunda, 8, a partir das 16 horas, no Grande Hotel da Barra, no Porto da Barra. O evento homenageia o cineasta baiano que impulsionou o Ciclo Baiano de Cinema, no final dos anos 50. Roberto foi o autor do primeiro longa-metragem baiano, Redenção, lançado em 1959 e que, em março de 2009, completará 50 anos.

A iniciativa surgiu a partir de uma oficina de documentários e formação cineclubista promovida, em outubro,  pelo Sindicato dos Analistas Tributários da Receita Federal (Sindireceita/DS Salvador) com o objetivo de formar um cineclube intersindical que pudesse atuar como uma espécie de produtora cinematográfica sem interesse comercial. “É a visão do público com a câmera na mão”, explica a delegada sindical Gleciara Ramos, do Sindireceita/DS Salvador.

Segundo ela, o cineclube funcionará no Espaço Ciranda, no Rio Vermelho, e atuará em três frentes: como pólo multiplicador para formação de público e de cineclubes; como incentivo à produção de documentários focados na realidade brasileira, e como ferramenta de apoio à veiculação de filmes e à criação de uma cinemateca.

Debates – Segundo Gleciara, a compreensão de que a função maior do Sindireceita é a da cidadania fiscal favoreceu a articulação do sindicato com outras associações de classe, a exemplo do Sindsefaz, na promoção de atividades que coincidam com o interesse do público. “Achamos que o audiovisual é uma das melhores ferramentas de acesso à cultura”. Segundo ela,  todos os problemas na Receita nascem de uma “blindagem da economia”, que impede a transparência da administração tributária e permite injustiças fiscais e privilégios a uma elite social.

Durante o evento, além da exibição do documentário Artesão de Sonhos, curta sobre a obra de Roberto Pires, com direção de Paulo Hermida e Petrus Pires, haverá uma palestra com a filósofa, psicóloga e psicanalista Viviane Mosé, que irá tratar de novos valores sociais e do papel do Estado na atual conjuntura das relações de poder no mundo contemporâneo.

Além dela, o compositor e escritor Jorge Mautner, que encerra o evento com o show A Senhora da Praia, aborda o tema O kaos e a diversidade cultural na grande revolução da comunicação. Duas mesas de debate – uma para repensar a estrutura a administração tributária e outra em defesa dos direitos do público – completam a programação.

Cinqüenta anos de um marco do cinema baiano

Redenção, primeiro longa-metragem baiano, foi dado como perdido há muito tempo, até que recentemente uma cópia preservada da fita do cineasta Roberto Pires (1934-2001) veio à baila. “O filho dele, Petrus, esteve no Instituto Lula Cardoso Ayres, em Pernambuco, e o pessoal doou a cópia em 16 mm que está na Cinemateca, em São Paulo, precisando de restauração urgente”, diz o jornalista e documentarista Aléxis Góis, que pretende lançar um livro sobre a vida e obra de Roberto Pires.

“Pretendo lançá-lo em março de 2009, época em que o filme completa 50 anos”, diz. O objetivo dos envolvidos com a preservação da obra de Pires é captar recursos para a restauração da película que, segundo Aléxis, deve ficar em torno de R$ 1 milhão.

“Uma das características do Roberto era a generosidade, ensinava tudo o que sabia e nunca se preocupou com popularidade” pontua o jornalista ao falar sobre as muitas habilidades do cineasta: fotografia, trucagem, produção, direção e montagem. Criador de seu próprio equipamento de filmagem, Roberto Pires inventou, na ótica do pai, um sistema de lentes anamórficas baseado no CinemaScope, padrão de filmagem adotado pela indústria americana a partir dos anos 50 e que permitia ampliar o panorama das imagens.

O invento baiano reproduzia a avançada tecnologia do cinema da época e foi apelidado pelo próprio cineasta de Igluscope, nome derivado da Iglu Filmes, produtora de Roberto, responsável pelo primeiro longa-metragem de Gláuber Rocha. “O Roberto Pires assistia a filmes policiais, não tinha nenhuma pretensão de renovar a linguagem cinematográfica e o Glauber, inclusive, era cético, não acreditava que o projeto do Roberto pudesse sair”, explica Aléxis.

Diretor de clássicos da filmografia nacional como A Grande Feira (1961) e Tocaia no Asfalto (1962), Roberto Pires se embrenhou também em roteiros que tratavam dos riscos da energia nuclear e, antes de o tema ganhar projeção com o acidente radioativo, em 1987, em Goiânia, ele já havia feito Abrigo Nuclear (1981). “Depois do acidente, o Roberto entrevistou as vítimas para fazer o filme [Césio 137 – O Pesadelo de Goiânia] de forma mais fidedigna e, como ninguém da equipe se dispôs a entrar no local do acidente, ele resolveu filmar sozinho. Anos depois apareceu com um câncer na laringe que veio ser a causa da morte dele”, conta Aléxis.

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