Israel Kislansky inaugura mostra As Bacantes em Salvador

São 52 obras, além de 23 pinturas sobre papel realizadas especialmente para a exposição

Publicado segunda-feira, 11 de abril de 2022 às 20:46 h | Atualizado em 11/04/2022, 23:06 | Autor: Eugênio Afonso
Israel Kislansky é soteropolitano, mas adotou a capital paulista há muitos ano
Israel Kislansky é soteropolitano, mas adotou a capital paulista há muitos ano -

Apesar do sobrenome de origem europeia (pai romeno), o escultor Israel Kislansky, 56, na verdade, é soteropolitano da gema. Tem mais de 30 anos de carreira como artista plástico e atualmente reside em São Paulo, terra que escolheu para viver e produzir suas obras.

Depois de mais de uma década sem expor em Salvador, nesta terça-feira, 12, às 19h, no Palacete das Artes (Rua da Graça, 284 - Graça), Kislansky inaugura a exposição As Bacantes, com direito à apresentação da performance Escultura Viva da bailarina, atriz, produtora e performer Lucilene Moreira (musa inspiradora do escultor).

“Talvez essa mostra deseje inspirar homens e mulheres a se sensibilizarem pela natureza do desejo, porém muito distante desse desejo maquinal e fabricado pelas mídias, onde a mulher é mais objeto do que ator de uma encenação onde não existem coadjuvantes”, convida Kislansky.

Com curadoria de Heloisa Helena Costa, a mostra exibe 52 esculturas – 35 em bronze, 15 em cerâmica e duas em gesso –, além de 23 pinturas sobre papel realizadas especialmente para a exposição, que estarão ocupando as diversas salas dos dois andares do histórico casarão, e pode ser visitada até 28 de junho, sempre de terça a domingo, das 13h às 19h.

“Kislansky é um artista muito significativo para as artes brasileiras porque traçou até aqui um longo caminho de estudos e experimentações. Seu trabalho figurativo é clássico, mas dialoga com certa dose de abstracionismo. Nessa aparente contradição entre figura e abstração, ele se impõe no cenário das artes plásticas por sua dedicação à escultura e ao modernismo puro”, revela Heloisa.

A mostra faz alusão ao mito grego das bacantes, figuras trágicas do poeta Eurípedes que se deixavam seduzir por Baco/Dionísio para protagonizar os hoje clássicos bacanais. No entanto, Kislansky propõe uma releitura da fábula. 

“Por coincidência, li, desavisadamente, As Bacantes. Foi um choque. Rapidamente, identifiquei que as figuras que nasciam no ateliê possuíam algo que experimentara durante a leitura da tragédia grega. A devoção ao amor, na forma dionisíaca, ou seja, na consciência da importância do desejo como elemento vital de nossa existência. Uma aposta na alegria e, através das bacantes, na potência da mulher como condutora dessa energia”, revela Kislansky.

Tributo às mulheres

O artista garante que, na verdade, a exposição é uma grande homenagem ao feminino através de figuras que representam alegria e vitalidade para a existência. Uma mistura de empoderamento, magia, sensualidade e liberdade.  

“Entre as obras, existe uma série chamada Ânforas. São mulheres potes. A mulher como uma espécie de ânfora, onde é depositada e guardada, nada mais nada menos do que nossa existência. São esculturas onde o ventre e os seios são privilegiados e gostaria de crer que todos se sentirão gratos e homenageados, incluindo os mais diversos gêneros possíveis”, propõe Kislansky.

Composta também por monotipias, vídeos que revelam as diversas etapas do processo criativo do artista, e um roteiro didático sobre a fundição de obras de arte em metal, As Bacantes pretende criar um clima de imersão no trabalho realizado pelo artista. 

Heloisa afirma que o processo de curadoria foi um período de intenso aprendizado. “De aprofundamento no fazer escultórico e de admiração e encantamento por esse artista imenso e, no entanto, humilde, terno, bem humorado e sempre desejando compartilhar o seu saber. Kislansky é uma rara pessoa, ao mesmo tempo artista e cidadão comprometido socialmente”.

E mesmo achando difícil definir o que quer a sua obra, Israel acredita que ela existe para compartilhar sensações, sentimentos, curiosidades, surpresas, indefinições e incertezas. Para ele, o artista trabalha normalmente de modo um pouco inconsciente, criando imagens e mergulhado em uma espécie de sonho. 

“O artista parte de um mesmo lugar: o faz de conta. Levar o público para esse espaço regido pela imaginação é, por assim dizer, a nossa razão de ser. Cada vez que criamos somos conduzidos por forças misteriosas, do nosso inconsciente e de toda uma sociedade. As Bacantes vieram num momento importante, quando as mulheres estão ganhando a cada dia mais consciência das suas potências e desafios”, conclui o escultor. 

Figuras humanas femininas  em movimento
Figuras humanas femininas em movimento |  Foto: Divulgação
 

Pequena bio

Nascido em 13 de junho de 1965, filho de pai romeno, que sofreu perseguição nazista, e mãe pernambucana, o soteropolitano Israel Kislansky é escultor e especialista em fundição de obras de arte em metal. 

Radicado na capital paulista desde 1983 e formado em Artes Visuais pela Faculdade Santa Marcelina (SP), o artista realizou entre os anos de 1996 e 2006 intensa atividade educacional, levando cursos e palestras sobre escultura figurativa aos principais centros culturais do país. 

Entre 2008 e 2014, criou e coordenou o Centro Técnico em Fundição Artística SENAI-SP. Em 2015/16 coordenou junto ao DPH (Departamento de Patrimônio artístico de São Paulo) a restauração de parte do conjunto escultórico do Monumento do Ipiranga. 

Ao longo dos últimos anos, realizou algumas mostras, com destaque para a exposição A Cor do Corpo (Caixa Cultural São Paulo) em que apresentou detalhes de sua produção em cerâmica dos anos 2007 a 2011.

Aqui em Salvador, levam sua assinatura as esculturas Esperança, que fica no pátio central do Hospital Santa Isabel, e Mãe, localizada no Recanto São Francisco, no bairro do Itaigara.


Serviço

O quê: As Bacantes

Onde: Palacete das Artes (rua da Graça, 284, Graça)

Quando: 7 de abril a 28 de junho / terça a domingo, das 13h às 19h

Entrada: Gratuito

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