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MAM-BA inaugura Espaço Lina com a mostra Museu de Dona Lina

Lina Bo Bardi foi a primeira diretora do museu que revolucionou a discussão sobre arte e cultura no país

Publicado sábado, 15 de janeiro de 2022 às 09:00 h | Atualizado em 14/01/2022, 23:41 | Autor: João Gabriel Veiga*
O interior do Espaço Lina, com a linha do tempo da artista e curadora
O interior do Espaço Lina, com a linha do tempo da artista e curadora -
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“Lina Bo Bardi foi um provocadora, não só aqui na Bahia, mas em todos os lugares”, diz Pola Ribeiro, diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia, sobre a primeira diretora do museu que, vinda para o Brasil durante a 2ª Guerra Mundial, revolucionou a discussão sobre arte e cultura no país.

Além de sua contribuição histórica, criando e gerindo o projeto de restauro do Solar do Unhão, Lina também é a mente por trás de projetos como o MASP e o SESC Pompeia em São Paulo, sendo homenageada com o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2021. Em sua homenagem, o MAM abre neste sábado, 15, sua mais nova sala, o Espaço Lina.

“Ela vem desde o começo da nossa gestão sendo um farol. Temos um tripé no MAM que é Lina, o local em que o museu está instalado, no Solar do Unhão, e a coleção do museu. Lina entra na nossa filosofia como sendo aquela que traz o questionamento do lugar do museu, ela o pensa como escola”, acrescenta Daniel Rangel, curador do museu.

O Espaço Lina foi concebido com a colaboração do Instituto Bardi, de São Paulo, e abrigará exposições frutos dessa parceria, com temas focados em design, arquitetura, arte moderna e popular. O curador explica que o processo de concepção teve uma participação fundamental de Renato Anelli, professor da USP e conselheiro do Instituto Bardi: “Ele fez uma linha do tempo sobre Lina em seu centenário no MASP, que foi o ponto de partida da nossa pesquisa”, conta Rangel.

“A primeira exposição, Museu de Dona Lina, já traz essa reaproximação do pensamento dela com o Solar do Unhão, que era unir a arte moderna com a arte popular no mesmo espaço”, explica Daniel. “Não é um espaço estático, uma sala que só vai ter uma exposição. Queremos trabalhar seu legado conceitual. É um espaço para a gente ver os desdobramentos de seu pensamento não só no passado como no presente também”.

Pola dá seus dois centavos sobre essa questão: “É um espaço onde a gente possa estar sempre com o pensamento em discussão, em crise, em diálogo. É um pensamento sobre arquitetura, museu, memória, patrimônio, restauro, cultura baiana, até moda”!

Para ele, o Espaço Lina “não é um altar, está mais para um tubo de ensaio”.

O diretor salienta como a arquiteta, que também chegou a escrever artigos para o jornal A TARDE, sempre trouxe o questionamento sobre os padrões da arte.

Ele cita o projeto de restauro do MAM e sua escada, que descreve como “uma mistura de moderno com a tecnologia popular do carro de boi”.

Morta em 1992, Lina Bo segue inspirando artistas e gestores
Morta em 1992, Lina Bo segue inspirando artistas e gestores |  Foto: Geraldo Moniz | Divulgação
 

Museu agregador

Para a dupla, a filosofia de vida e arte de Lina Bo Bardi é a bússola por trás do MAM.

“Ela ensinou essa dimensão humana e contemporânea, desierarquizada que norteia as nossas exposições. É um museu de arte popular ou de arte moderna? Nós diminuímos essas fronteiras. Precisamos tirar as coisas da caixinha, colocar a vida em primeiro lugar, as relações reais, efetivas, que têm complexidade, troca”, reflete Pola.

“Lina teve um posicionamento perante a questão artística que é muito importante na atualidade. Ela quebra os paradigmas de uma arte acadêmica, da elite, e do museu como um espaço para refletir esse espaço da elite. O museu dela é como um espaço aberto para as pessoas, para o povo, para a arte do povo. Não é só como um local de chancela, como também de troca e aprendizado”, declara Daniel.

Eles enxergam nisso uma das razões do MAM ter se tornado um motor cultural de Salvador, com um público jovem que o frequenta passionalmente. “O público do museu não é só quem vai para a exposição. É quem vai dar aula, quem vai para o cinema, ver o pôr do sol. É muito agregador, algo muito necessário numa sociedade como essa que a gente tá vivendo, muito de polos. Esse pensamento rompe com os dois lados porque mostra que tudo é um grande lado só. A gente tá dentro desse caldeirão”, diz Daniel.

Pola acredita que essa é a força do museu. “A relevância de um museu não vem de público, vem de públicos. Todos são públicos. Nosso desafio é desenvolver linguagens para que quem vem para o cinema vá ver o pôr do sol, quem vem pro pôr do sol venha ver a exposição, e quem vem à exposição venha à praia. E também para que isso não seja por uma imposição, mas por estar feliz naquele lugar”, diz.

“O espaço do Museu de Arte Moderna da Bahia é de diálogo entre Cidade Alta e Cidade Baixa, entre Salvador e Recôncavo, entre a Bahia Marina e a comunidade do Unhão. Tudo isso nos remete ao pensamento de Lina”, conclui Pola.

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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