Biografia escrita por Tom Cardoso homenageia Nara Leão

O autor tenta reconstruir a vida da cantora que participou ativamente dos mais importantes movimento do Brasil

Publicado terça-feira, 25 de janeiro de 2022 às 07:30 h | Atualizado em 24/01/2022, 23:30 | Autor: Eugênio Afonso

Quando ainda estava no exílio, o cineasta Cacá Diegues (marido de Nara Leão à época) recebeu uma carta de Glauber Rocha dizendo o seguinte: “Amo Nara Leão. Nara e Narinha. Essa mulher sabe tudo do Brasil 1964. Essa mulher é a primeira mulher brasileira. Essa mulher não tem tempo a perder. Atenção: ninguém pode com Nara Leão”.

Se ainda estivesse viva, a capixaba Nara (nascida a 19 de janeiro de 1942, em Vitória) completaria 80 anos no último dia 19, e para agraciá-la o jornalista carioca Tom Cardoso, 49, escolheu exatamente a expressão Ninguém pode com Nara Leão para dar título à biografia que escreveu sobre a eterna musa da bossa nova.

No livro editado pela Planeta (disponível nas versões impressa e digital), Cardoso tenta reconstruir a vida da cantora que participou ativamente dos mais importantes movimentos musicais surgidos a partir da década de 1960 e que, entre outras atitudes típicas de sua inquietação, deixou a bossa nova para se juntar à turma politizada do Centro Popular de Cultura, o emblemático CPC, e aos intelectuais do Cinema Novo. “O livro nasceu com o propósito de dar uma outra dimensão a Nara. Ele veio um pouco para desconstruir esse estereótipo (da eterna bossanovista) e dar luz a muitas Naras que existiam nela. A bossa nova foi importante para Nara, mas ela não era só isso”, conta Cardoso. 

O autor gosta de frisar que Nara era uma mulher visionária e que tinha total domínio sobre a carreira. “O que mais me impressionou na Nara é que ela era uma artista que não fez nenhum tipo de concessão. Ninguém tinha ingerência no trabalho dela. Nunca gravou música porque a gravadora queria. Fazia apenas o que acreditava. Era uma artista de vanguarda, transgressora a seu modo e fazia uma revolução silenciosa”, pontifica.

E apesar de aparentar um estilo tranquilo e doce, quase inofensivo, a cantora é considerada a primeira estrela da MPB a falar abertamente contra a ditadura militar, por exemplo, e justamente numa época de repressão em que a mulher ainda tinha um espaço reduzido para se manifestar abertamente sobre diversos temas, sobretudo os mais polêmicos.

Musa vanguardista

Com prefácio do crítico carioca Tárik de Souza, Tom apresenta passagens da infância de Nara, marcadas pela angústia e reclusão, detalhes da inimizade com Elis Regina, dos famosos encontros no apartamento em que morava no bairro de Copacabana, onde nasceu a bossa nova, do relacionamento com o jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli, entre outros envolvimentos amorosos, e da amizade com figuras influentes como Vinicius de Moraes, Roberto Menescal e o poeta Ferreira Gullar – por quem a cantora nutriu uma paixão e chegou a ter um caso. 

À frente de seu tempo, Nara nunca se acomodou e foi responsável por apresentar ao Brasil nomes hoje consagrados como o de Chico Buarque de Holanda, a quem lançou ao estrelato com a gravação de A Banda, e o de Bethânia, que a substituiu no lendário show Opinião, em fevereiro de 1965, no Rio de Janeiro. A partir daí, Bethânia se consagra como uma das maiores intérpretes da música popular brasileira, sobretudo pela visceral interpretação de Carcará (João do Vale). 

É importante lembrar que foi a própria Nara quem indicou Bethânia após tê-la visto em Salvador, no Teatro Vila Velha. E segundo Tom, a intérprete de O Barquinho e João e Maria já nasceu tropicalista antes mesmo de o termo existir. No disco de estreia, por exemplo, recusou-se a pegar carona no sucesso da bossa nova e gravou um álbum com sambas de Cartola, Zé Kéti e Nelson Cavaquinho.

Nara no Leblon com os filhos Isabel e Francisco, do casamento com o cineasta Cacá Diegues
Nara no Leblon com os filhos Isabel e Francisco, do casamento com o cineasta Cacá Diegues |  Foto: Divulgação
 

Avessa a rótulos 

Apesar de ter tido uma carreira relativamente curta, afinal morreu aos 47 anos (1989) em função de um tumor no cérebro, Nara gravou 24 LPs, às vezes mais de um por ano. Sempre privilegiando a diversidade temática como o samba, a bossa, os manifestos libertários, a mistura de ritmos e estilos, além de clássicos de Roberto e Erasmo, numa época em que os intelectuais execravam a dupla.

“Ela lidou com a doença de forma insegura. Não quis investigar o problema, mas conviveu bem com o tumor e produziu loucamente. O modo como ela tratou a doença não reflete a maneira como ela tratou outras coisas da sua vida”, observa Tom.

O escritor garante que Nara era muito mais do que aquela imagem que ficou estereotipada da cantora de bossa nova, de voz suave. “Ela não gostava de rótulos. Foi a primeira artista a se posicionar de forma mais veemente contra a passeata da guitarra elétrica. Foi a primeira cantora da geração dela a gravar samba de morro. Era uma mulher de vanguarda e, como não tinha nenhum tipo de amarras, não se prendia a rótulos ou gêneros. Essa é a importância da Nara para a música brasileira”, finaliza o escritor.


Serviço

O quê: Ninguém pode com Nara Leão - uma biografia / Tom Cardoso / Editora Planeta/ 240 p.

Preço: R$ 49,90 / E-book: R$ 30,90

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