LITERATURA
Clube Literário Leia Mulheres está em 26 cidades

Na sua estante, quantos livros são assinados por homens? Se parar para pensar, talvez o cálculo seja discrepante e você perceba que a literatura produzida por mulheres tem menos espaço nas prateleiras.
Para incentivar o consumo de obras escritas por mãos femininas, em 2014 a autora britânica Joanna Walsh lançou no Twitter a hashtag #readwomen2014. A iniciativa inspirou mulheres do lado de cá, que criaram o Leia Mulheres - um clube de leitura voltado à valorização do trabalho intelectual das escritoras.
O projeto começou em São Paulo, em março de 2015, e agora já acontece em outras 25 cidades - com Salvador entre elas. Na capital baiana, o clube de leitura acontece no último sábado do mês, em que cerca de 20 pessoas reservam duas horas para debater literatura.
Roda de conversas
A edição baiana é iniciativa de cinco mulheres afeitas aos livros - a educadora Ilmara Fonseca, as jornalistas Paula Janay e Jeniffer Geraldine, advogada Eduarda Sampaio e a mestranda Joana Mutti.
"Sempre acompanhava o projeto, morrendo de vontade que tivesse aqui", conta Ilmara, que, após entrar em contato com o Leia Mulheres em São Paulo, reuniu as mediadoras locais. "Todo mundo é apaixonado por literatura", afirma Eduarda Sampaio.
O clube representa mais um movimento de luta pelo reconhecimento da força feminina. "Tem histórias de mulheres que não conseguem publicar, e aí usam pseudônimos masculinos", ressalta Eduarda. Nos debates, o contexto da mulher é posto em evidência.
"A ideia é que seja participativo", explica Eduarda. Atualmente, as reuniões do Leia Mulheres acontecem no Museu de Arte da Bahia (MAB), no Corredor da Vitória, às 14h30. A didática é simples: qualquer um pode participar. Inclusive homens.
"O maior mérito é dar visibilidade ao legado feminino na literatura", afirma a jornalista Daniela Castro, que conheceu o clube pelo Facebook e participou de uma reunião em março, quando foi debatida a obra Poética, de Ana Cristina Cesar.
Juntos, os cerca de 20 integrantes do clube exploram detalhes das narrativas, características dos personagens e o estilo das escritoras. "A leitura se amplia, porque você tem oportunidade de ver outras experiências", comenta Ilmara. Em roda, são trabalhados os livros escolhidos pelos próprios membros do clube.
A escolha acontece de forma presencial e no grupo do Leia Mulheres no Facebook. Em abril, por exemplo, o clube se dedicou ao livro As Meninas, de Lygia Fagundes Telles, pela indicação da autora ao Prêmio Nobel de Literatura.
Na próxima reunião, dia 28 de maio, o título debatido será Precisamos falar sobre o Kevin, da americana Lionel Shriver, integrando um mês cujo tema são livros que viraram filmes.
"Quem vem para o Leia Mulheres são pessoas que estão familiarizadas com o debate", conta Eduarda. Não é incomum que, durante as conversas, o assunto se expanda da literatura e alcance esferas da política, educação e economia. "Há momentos no grupo que são catárticos", diz Ilmara.
Outras leituras
Em São Paulo, o Leia Mulheres é organizado por Juliana Gomes, pioneira no projeto, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques. Mensais, as atividades começaram no primeiro semestre de 2015.
"Sou muito entusiasta do clube de leitura, acho a ideia fantástica", comenta Juliana Leuenroth. "O livro cresce na nossa cabeça, são várias visões diferentes. A ideia é mostrar que a mulher pode escrever o que ela quiser".
As mediadoras de São Paulo fizeram o convite a Camila Borges, Mari Castro e Olívia Gutierez, de Belo Horizonte, para expandir o projeto. Deu certo. A versão mineira, que fez sua primeira reunião no último setembro, teve uma superlotação em janeiro, com a presença de cerca de 40 pessoas para discutir Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie.
"Quando é uma autora ou um livro muito popular, a procura é enorme", afirma Olívia. "A internet às vezes parece fria e distante para discutir literatura, que é sentimento também".
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