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Convidado da Flica, espanhol Javier Moro fala ao A TARDE

Publicado segunda-feira, 15 de outubro de 2012 às 14:35 h | Atualizado em 19/11/2021, 05:06 | Autor: Eron Rezende
Javier Moro
Javier Moro -
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A formação em história explica o gosto de Javier Moro pelos personagens e fatos dos documentos. Desde que publicou seu primeiro livro sobre a Amazônia, em 1992, Moro tem recorrido a eles para contar a trajetória recente da Índia (em "O Sári Vermelho"), do Tibet e da China ("As Montanhas de Buda") e também do Brasil, cujo imperador Dom Pedro I retratou em sua última novela, "O Império é Você", que obteve o prestigiado prêmio Planeta, em 2011.

"Gosto de injetar vida na história e interpretar o mundo através de personagens reais", diz ele, em entrevista ao portal A TARDE. O autor espanhol é um dos convidados da Festa Literária de Cachoeira, que começa nesta quarta, 17, e vai até domingo, 21. Nela, Moro participa da mesa "Questionando o 2 de julho", onde versará sobre a história da Bahia.

Quando "O Império é Você" foi lançado no Brasil, autores e historiadores apontaram imprecisões e distorções históricas. Com "O Sári Vermelho", você enfrentou questionamentos da própria biografada, Sonia Gandhi. Como avalia essas críticas?
Acho que são casos distintos. No caso de Sonia Gandhi, era um assunto político. Os membros de seu partido não queriam publicizar a face italiana de Sonia. Há muita gente na Índia que não admite que a pessoa mais poderosa de um País com mais de 1 bilhão de pessoas seja italiana. É um tema espinhoso e meu livro era como uma pedra no sapato. Quanto à reação de alguns autores brasileiros para meu último livro, francamente me deixa intrigado. O livro é muito bem documentado, mas é uma dramatização da história.  Você não pode julgar um livro que recria a história como um livro de história, pura e simples. O que disse Laurentino Gomes me decepcionou muito porque eu era um fã dele. Ele afirmou que meu livro era um exemplo de neo-colonização da Espanha com o Brasil. É uma bobagem tão grande dizer algo assim, que que você acaba suspeitando dos reais motivos por trás de tais críticas. Será que ele viu seu jardim em perigo, seu reinado de jornalista e historiador especializado na história do Brasil ameaçado por um alienígena? 

Sua incursão em "O Império é Você" o obrigou a um contato estreito com a monarquia brasileira. Isso se refletiu de alguma forma em sua visão política da Espanha, que agora se encontra em uma crise econômica e volta discutir o papel da monarquia?
De alguna maneira, escrever "O Império é Você" me deixou mais monárquico, porque entendi a funcão de uma monarquia. Ela é essencial para a unidade de um País, uma aglutinadora de interesses em comum. O Brasil não seria o grande País que é hoje se não fosse a monarquia de João VI e Pedro I, que protagonizaram uma história inédita: deixaram seu reino para viajar para a colônia. Essa foi uma decisão que começou a desenhar o Brasil de hoje. Uma decisão muito complicada porque salvou o império, mas afundou a metrópole.

Seu primeiro livro, "Caminhos da Liberdade", tratou de Chico Mendes e da ocupação da Amazônia. Em 2012, as unidades de conservação da região (UCs) foram reduzidas e dados do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) revelam aumento de 50% no desmatamento no Pará comparado a 2011. Como você, que passou dois anos em contato com a região, analisa esse cenário?
A realidade não mudou muito. Segue a violência, a ocupação de terras, o desmatamento ilegal. Uma parte do Brasil, o Brasil do sul, próspero e rico, não quer olhar nem falar sobre o que se passa nessa outra parte do Brasil. As pessoas compartam-se como se isso não existisse. "Caminhos da Liberdade" vendeu bem em muitos países, mas no Brasil não. Isso mostra a completa indiferença dos brasileiros com esse tema. Mas a realidade está aí, os conflitos sociais e ambientais no Brasil estão longe de serem resolvidos, porque a solução não está só nas mãos dos políticos.

Na Flica, você participará de uma mesa sobre a independência da Bahia. O que há para ser revelado sobre esse episódio que ainda não conhecemos?
Não quero entregar o ouro, mas quem sabe a participação de Lord Cochrane.

Como escritor espanhol, que já escreveu sobre o Brasil, China e Índia, você nunca se sentiu impelido a se debruçar sobre a história de seu próprio País?
Eu gosto muito de viajar, e escrever um livro é uma aventura que me toma, em média, três anos de vida. Prefiro passar meses investigando no Rio de Janeiro ou em Nova Déli, do que em Madri. Quando estiver cansado de tanta viagem, quem sabe me dedique a escrever sobre a Espanha.

E depois de passar três anos com uma história, como é se ver sozinho após o ponto final?
Sinto um vazio grande porque me vejo sem os personagens com os quais dormi todos as noites. É como o leitor, que não quer que um livro acabe para não ter que voltar a realidade.

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