Dave Grohl revela em livro de memórias seu lado místico

Publicado quarta-feira, 16 de março de 2022 às 06:02 h | Atualizado em 15/03/2022, 23:01 | Autor: Chico Castro Jr.
Nos últimos meses, lançou livro, um filme (Studio 666) e um EP novo
Nos últimos meses, lançou livro, um filme (Studio 666) e um EP novo -

Entre os muitos episódios reveladores e divertidos de sua vida narrados por Dave Grohl em seu livro O Contador de Histórias, há um que se destaca pelo inusitado.

Quando tinha 17 anos, Dave se trancou certa noite na garagem da casinha suburbana da Virgínia, onde cresceu com a mãe e a irmã. Acendeu umas velas em um altar improvisado no chão e ali riscou a giz alguns símbolos místicos, entre eles, no centro, o que identifica John Bonham, baterista do Led Zeppelin no álbum IV (1971).

Ajoelhou-se, fechou os olhos, meditou e rezou até ter certeza que seu pedido foi ouvido pelos deuses. Dave queria ser um astro do rock, tocar em uma banda de sucesso, fazer fama e fortuna, correr o mundo e, acima de tudo, ser um grande músico. 

“Por meio da minha própria forma de telepatia, listava os meus desejos mais profundos na esperança de que alguém, alguma coisa,  respondesse ao meu chamado”, escreve.

Invocando deuses obscuros e apelando à chamada lei da atração (“a ideia de que o universo cria para você aquilo em que sua mente foca”, diz ele), Grohl revela em O Contador de Histórias uma faceta até então oculta de sua personalidade: o místico, quase um coach esotérico.

Sua relação com a música em si parece passar completamente por essa chave misteriosa, intuitiva – basta ver o que ele escreve sobre como o som de John Bonham o afetou: “Ao ouvi-lo tocar bateria, literalmente escutava vozes que falavam comigo, às vezes sussurrando, às vezes gritando. (...) Eu sentia o tempo ficar mais devagar nos milésimos de segundo entre cada ressoar da caixa, como se eu estivesse caindo repetidas vezes num buraco sombrio esmagador. O peso de sua levada ia além do físico. Era espiritual”.

Hoje, Dave acredita com certeza que tocou em algo fora deste mundo naquele ritual improvisado: “Sou levado a pensar que, naquela noite, manifestei o meu destino, utilizando a Lei da Atração, ou o que quer que seja. Tudo o que sei hoje é que o sucesso pelo qual rezei naquela noite veio ao meu encontro. Ou talvez eu tenha vendido a minha alma ao rock ‘n’ roll”, escreve.

Com seu amigo e baterista do Foo Fighters, Taylor Hawkins: “Mas isso é pra botar no nariz?”
Com seu amigo e baterista do Foo Fighters, Taylor Hawkins: “Mas isso é pra botar no nariz?” |  Foto: Danny Clinch | Divulgação
 

Incêndio florestal

Evidentemente, todo o sucesso alcançado por Grohl, primeiro como baterista do Nirvana, depois como líder dos Foo Fighters, não caiu do céu.

Após concluir o ensino médio, o jovem Dave fez um teste e conseguiu a vaga de baterista do Scream, heróica banda da cena punk rock da Virgínia.

Com eles, rodou os EUA e a Europa no aperto das vans atochadas de equipamento e dormindo no chão frio de bares, casas de show  e squats (imóveis ocupados pelo movimento punk). Sobrevivia com menos de dez dólares por dia, gastos em sanduíches vagabundos, cerveja e cigarros.

Eventualmente, foi convidado para entrar no Nirvana, banda que executivos e olheiros de gravadora já apostavam que ia estourar, dada a fama crescente angariada na região metropolitana de Seattle.

Ele entrou pouco antes de iniciarem as gravações do álbum Nevermind (1991), o segundo do grupo. Mas ninguém imaginava que, em questão de meses, aquele disco mudaria o status quo do próprio rock na mídia, expulsando Michael Jackson e Bon Jovi das paradas de sucesso.

Quando o clipe de Smells Like Teen Spirit estreou na MTV, o destino do trio foi selado para sempre. “A partir daí, se espalhou feito incêndio florestal e carbonizou nosso mundo inteiro”, observa o autor.

No livro, Grohl dá ao leitor um bom vislumbre do que foi viver aquele furacão todo em pouco mais de três anos, desde sua entrada na banda em 1991 até o amargo fim em 1994, com o suicídio do atormentado Kurt Cobain.

 Até para não enlouquecer, pouco depois da tragédia, ele se trancou no estúdio que construiu no porão de sua nova casa e gravou sozinho o primeiro álbum de seu próprio projeto musical, Foo Fighters.

Bem escrito, o livro detalha todos estes episódios com leveza: Grohl escancara em suas páginas o seu caráter jovial sem remédio: ele diz muitas vezes esquecer que está ficando velho (está com 53 anos). 

Não perde uma chance de tietar seus ídolos. Seus encontros com Paul McCartney (hoje um amigo e parceiro), Tom Petty e Little Richard são impagáveis, assim como alguns episódios com o Foo Fighers, como aquele em que caiu do palco e fraturou uma perna na segunda música e assim mesmo levou o show até o final, sentado em uma cadeira.

Talvez esse negócio de focar um objetivo e rezar para o universo seja quente, mesmo.


Serviço

O quê: O Contador de Histórias / Dave Grohl / Intrínseca/ 416 páginas/

Preço: R$ 59,90 / E-book: R$ 39,90

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