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LITERATURA

Escritores discorrem sobre universo brega em livro

Marcos Dias

Por Marcos Dias

03/01/2013 - 8:54 h
Marcelino Freire
Marcelino Freire -

Se a questão do universo brega se resumisse a um pinguim sobre a geladeira, não haveria problema algum. Usá-lo é uma questão de gosto - e não necessariamente mau gosto.

Mas são tantas coisinhas miúdas que gravitam nessa órbita que, mesmo os 20 contos do livro Assim Você me Mata, não conseguem esgotá-las.

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A organização do volume que conta com a participação de 20 ficcionistas contemporâneos, como André de Leones, Xico Sá, Reynaldo Bessa e Natércia Pontes, entre outros, foi do editor e escritor Claudio Brites.

O mérito dele foi reunir narrativas curtas que destacam dimensões de um termo, como frisa na apresentação, que "abriga disputas ideológicas, podendo habitar os terrenos pedregosos do preconceito".

O que dizer, assim, das muitas músicas populares que, a despeito de gostarmos ou não, nos pegamos cantando? Ou pior, com elas na cabeça?
Sem precisar apelar para a famigerada música de Michel Teló, é interessante salientar que Assim Você me Mata dá nome a uma canção gravada antes por Elymar Santos.
Muitos contos, a propósito, se valem da referência da canção popular. É o caso do conto que abre o volume, de Xico Sá: Aparências Nada Mais Sustentaram Nossas Vidas. Aí, um radialista conta a crise dos sete anos de casamento de um ouvinte.

O casal só consegue discutir a relação com frases pinçadas do cancioneiro mais-que-popular. Núbia Lafayete, Marcio Greyck e outros servem à educação sentimental.
"Não era apenas essas coisas ditas da boca para fora. Vinham do âmago. Lá dos intervalos entre a sístole e a diástole", escreve Sá, mal contendo o escracho de um reprimido crime passional.

Relações - E se as músicas é que são bregas no romance do casal de Sá, em Mais um Casal, de João Anzanerllo Carrascoza, a dimensão pantanosa da expressão parece atingir toda a esfera das relações sentimentais.

Onisciente, o narrador sabe perfeitamente qual será a sina de um casal. E não só a deste, iludido com a esperança da completude mútua: com eles mesmos, depois com filhos, viagens, casas, carros, na razão patética que anima o ressentimento.

Mas tudo deve ser visto, por fim, na perspectiva extravagante e cômica que o tema abriga, como em Dê Profunda. No conto de Kizzy Ysatis, uma transformista Denis/Denise ("vou de Adele a Ângela Maria sem dublar"), é entrevistada por estudantes de jornalismo do primeiro semestre.
Com uma grande história em mãos, querem simplesmente saber por que ela se sentiu atraída pela cafonice. Daí um jogo de verdades e mentiras se instaura, tornando complexa a equação que os personagens criam.

Como coletânea, Assim Você me Mata não foge à regra de ter seus altos e baixos. Às vezes, o texto é tenso e sinuoso, como em Carrascoza; já Ysastis, mesmo com um bom argumento, é tosco nos diálogos.

Mas logo o ritmo se refaz, com Marcelino Freire e seu Nóbrega em que um professor de violão devaneia fascinado pelo pupilo que se prepara para um concurso. Amar alguém, independentemente da trilha sonora, tem mesmo algo burlesco.

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