Escritores procuram artista baiano que viveu no RJ nos anos 50

Os Albertos são reconhecidos pelo profundo trabalho de pesquisa sobre artistas relegados ao obscurantismo

Publicado segunda-feira, 17 de janeiro de 2022 às 08:15 h | Atualizado em 16/01/2022, 20:03 | Autor: Eugênio Afonso*

Os historiadores, produtores culturais e fuçadores paulistas Alberto de Oliveira e Alberto Camarero, mais conhecidos como os Albertos – como eles mesmo gostam de se autodefinir –, estão à caça de mais um personagem obscuro da história do entretenimento nacional. Desta vez é o pintor e desenhista baiano Abel Marti.

É de autoria dos Albertos, dentre outros, o livro Suzy King, a pitonisa da modernidade. A obra conta a história de uma baiana “marginal”, iconoclasta, feminista e obcecada pelo sucesso, cujo nome de batismo era Georgina Pires Sampaio. Suzy foi cantora, vedete, encantadora de serpentes, faquiresa, pintora, professora de dança e autora de peças de teatro. Viveu seu apogeu na metade do século passado e morreu esquecida e solitária, em 1985, na Califórnia (EUA), com supostos 67 anos.

Agora, os Albertos estão fuçando a vida de outro baiano, o pintor e desenhista Abel Marti, que viveu no Rio de Janeiro no século passado, mais provavelmente entre fins dos anos 1940 e meados dos anos 1950. 

Em 2020, pesquisando sobre a poeta carioca Yole Manon, proprietária da Boite do Sonhador, um ponto de encontro de poetas, escritores, bailarinos, artistas em geral, além de pessoas, digamos, transgressoras ou fora dos padrões sociais vigentes – mulheres livres e homens homossexuais –, os Albertos se depararam com a figura de Abel e ficaram curiosos e fascinados com as ilustrações que ele fez para o livro Flamas de amor, de Yole.

“Como historiadores, temos um interesse especial em resgatar histórias que ainda não foram contadas, lançando luz em personagens marginalizados ou incompreendidos no tempo em que viveram. Temos especial interesse em personagens femininos e também LGBTQIA+, justamente por terem sido invisibilizados muitas vezes ao longo dos tempos”, relata Alberto de Oliveira.

Ilustrações do artista baiano Abel Marti, um dos integrantes da turma da poeta carioca Yole Manon, um grupo de intelectuais  formado por escritores, poetas, bailarinos e artistas em geral
Ilustrações do artista baiano Abel Marti, um dos integrantes da turma da poeta carioca Yole Manon, um grupo de intelectuais formado por escritores, poetas, bailarinos e artistas em geral |  Foto: Divulgação
 

Escritores e bailarinos

Desde que descobriram a figura de Abel, os dois estão determinados a encontrar o paradeiro do artista para poder finalizar o livro (Yole Manon, a Vestal do Sonho – título provisório) que escrevem sobre a trupe da poeta carioca, mas ainda não têm pistas suficientes do baiano. 

O desejo deles é que, ao lerem notícias na imprensa, alguém possa reconhecer o personagem e dar um sinal.

Os Albertos acreditam, inclusive, que Abel ainda pode estar vivo, já que era bem jovem na época em que ilustrou o livro da poeta carioca. 

“Estamos escrevendo um livro sobre esse grupo de Yole Manon. Abel era personagem importante nessa turma, quase toda composta por escritores e bailarinos. Ele era o único pintor ali. Retratou todos eles. Colher seu depoimento ou mesmo o de alguém que ouviu histórias contadas por ele é precioso para nós”, conta de Oliveira.

Camarero acredita, inclusive, que Abel era, naquela turma, o representante das artes plásticas. “O grupo se propunha a discutir e celebrar as artes, a literatura, a dança. Ele não só cobriu as paredes com pinturas alusivas aos temas dos encontros, como fazia caricaturas dos frequentadores (da Boite do Sonhador) e ilustrações de muitos livros. Ele era o artista que, de alguma forma, atendia as necessidades do grupo na sua área”.

A dupla admite até que o nome dele talvez nem seja esse. “Provavelmente, Abel era nome artístico. Uma sobrinha de Yole, que está com quase 90 anos, tem a vaga lembrança de que ele se chamava Raimundo, mas não tem certeza”, comenta de Oliveira. 

No acervo deixado por Manon, que faleceu em 1960, há uma única fotografia em que Abel aparece, exatamente na Boite do Sonhador.

Mas existem algumas caricaturas e vários desenhos que ele fez dela. 

“Sobre o paradeiro dos quadros de Abel, nada se sabe - exceto por uma única obra: O Retrato de Dorian Gray, que tivemos a sorte de encontrar em um leilão e arrematar. Esse quadro, inclusive, estava exposto na Boite do Sonhador e era o grande destaque do ambiente”, revela Alberto de Oliveira.

Fora da mídia

No decorrer da pesquisa, os Albertos descobriram também um livro do escritor campineiro Antoni Di Monti, publicado em 1951, em que Abel é citado e cujo título é Lábios Trêmulos. 

“O autor transformou em romance os ambientes que frequentava e as pessoas que conhecia no Rio de Janeiro. E um dos locais onde a história se passa é justamente a Boite do Sonhador. A maior parte dos nomes reais foram alterados. Yole Manon, por exemplo, virou Ivone Mendes. Abel é um dos únicos personagens que tiveram seus nomes reais mantidos no romance, com um detalhe, se tornou Abel Sampaio em vez de Abel Marti”, informa Oliveira.

Acontece que depois da morte de Yole, Abel desapareceu da mídia completamente e nada se sabe sobre seu paradeiro.

“Imagino que ele tenha se fechado ao grupo, abrindo mão de uma carreira mais ampla, fora daquele meio. Foi citado, uma certa vez, que ele tinha como objetivo se recolher em uma vida monástica”, complementa Camarero.

Para Oliveira, é impossível finalizar o livro sem formatar a figura de Abel. O escritor argumenta que é fundamental saber quem era esse ilustrador baiano que foi tão valoroso para aquele grupo de intelectuais. 

“Basicamente, desejamos encontrar ele próprio ou seu acervo de pinturas, cartas, fotografias. É fundamental para nossa pesquisa descobrir seu nome real, como foi sua vida, quem é sua família. Sabemos apenas que ele viajava frequentemente para Salvador, o que nos leva a crer que seus familiares viviam na cidade”, finaliza Alberto de Oliveira”. 

Se o provável Abel/Raimundo está vivo ou não é uma incógnita que os escritores paulistas desejam muito desvendar. Reconhecidos pelo profundo trabalho de pesquisa sobre artistas relegados ao obscurantismo, a dupla de escritores conta agora com o adjutório dos baianos, e uma boa dose de sorte, obviamente, para chegar ao intento de poder finalizar a obra. 

Quem, por acaso, tiver informações sobre Abel/Raimundo e quiser colaborar com os Albertos, pode entrar em contato com Alberto de Oliveira pelo e-mail [email protected] ou telefone (11) 94837-2278.

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