Obra 'Terra Faminta' conjuga terror sobrenatural e drama familiar

Publicado segunda-feira, 14 de junho de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 13/06/2021, 12:43 | Autor: Eduarda Uzêda

Terra Faminta, o novo livro do autor britânico Andrew Michael Hurley, apresenta uma trama que mistura terror sobrenatural e drama familiar. A história, que acena para a presença de espíritos malignos   prende a atenção do leitor, mas está longe de ser uma unanimidade.

A bela edição brasileira da Editora Intrínseca – com capa dura e ilustrações sinistras do artista alagoano Midrusa, que combinam com o clima do enredo – é um dos pontos altos da publicação, que infelizmente também traz alguns equívocos e contradições.

A narrativa mostra a história de um casal, Juliette e Richard. Quando eles se mudam para uma casa herdada no interior da Inglaterra, Starve Acre, (também o título original da obra) não esperavam que suas vidas fossem sofrer uma drástica transformação.

Já instalados na região, eles acabam sofrendo uma grande perda: a morte inesperada do único filho do casal, Ewan, de cinco anos, que apresenta mudanças de comportamento, realizando alguns atos violentos. Segundo o garoto, eles seriam ordenados por uma pessoa que teria morado na comunidade há tempos.

Até quase o fim do livro o leitor se vê enredado a um grande suspense, pois o vilarejo isolado onde o casal mora  tem fama de ser uma terra almaldiçoada – teria havido em tempos passados o enforcamento de três pessoas também por atos de crueldade – ao mesmo tempo, o casal demonstra sinais de desequilíbrio e sofrimento psicológico.

Fuga da realidade

Enquanto Juliette se recusa a abandonar o quarto do filho e seus pertences e começa a acreditar que seu o menino pode está por perto de alguma forma,  e por isto passa grande parte do tempo ouvindo  gravadores instalados  no ambiente, Richard, que foi afastado das funções que exercia da universidade, se atira na  busca de fragmentos de um antigo carvalho lendário, a mesma busca do pai dele. 

Durante  a leitura, o leitor acaba conhecendo mais detalhes da vida do pai de Richard, que apontam  para problemas psíquicos. Ao mesmo tempo a criança, antes de morrer, tem atos de perversidade inexplicáveis. Afinal, há espíritos malignos? Trata-se de um casal doentio, que não superou ainda ador e luto do filho? Ou são as duas coisas juntas? 

Novos personagens surgem. Para tenta esclarecer  alguns enigmas, uma espécie de medium é chamada à casa pela esposa, mas seus métodos não convencionais – antes da chamada sessão de vidência, é tirado sangue das pessoas – só traz mais um ingrediente de mistério. Seria ela uma farsante? O que ela diz que sente seria uma encenaçao?

O marido acredita que sim e desconfia até do amigo Gordon, que levou a tal médium à casa. Foi ele quem contou histórias apavorantes ao garoto. Seriam os dois membros de alguma seita? Juliette, por outro lado, depois da sessão espiritual, se sente renovada. A médium, por outro lado, se recusa a voltar ao lar destruído

O autor acerta o tom em grande parte da obra nesta chave que, se por um lado pende para  segredos de uma terra maldita que pode gerar assombrações, por outro pende para um casal desestruturado emocionalmente. Esta dualidade é muito bem trabalhada.

Equívocos

A  trama começa a desandar quando Richard descobre um coelho. Há um mistério sobrenatural envolvendo o animal, mas ele age naturalmente, como se fosse a coisa mais corriqueira  do mundo. Por outro lado, quando a esposa desenvolve uma relação afetiva com o bicho, ele  parece temeroso, o que na minha leitura é incoerente com tudo que ele presenciou antes e não se abalou.

Mas o grande equívoco vem no final abrupto que não explica a  trama. Um final aberto pode ser interessante, mas neste caso, alguns leitores – e eu me incluo – se sentiram bastante frustrados com a falta de costuras do tecido que constitui e amarra a história. Nada é explicado e a sensação é que pode vir por aí um Terra Faminta 2, para arrematar o nó derradeiro do livro.

Os personagens, com exceção do mulher e do marido, também são rasos. Falta estofo para torná-los mais interessantes, mas complexos. Também tudo gira em torno do casal. Uma trama paralela poderia tornar a leitura mais interessante  e dinâmica.

Apesar de tudo isto, é um livro que quando se começa a ler não se quer parar mais. A atmosfera de medo, ansiedade e expectativa atrai. Sim, há clichês (as vozes que o menino diz ouvir, o povoado com fama de mal assombrado, crimes  violentos, os atos do passado interferindo no presente), mas tudo isso é o que espera os amantes dos romances góticos de terror, seja  real, espiritual ou psicológico. 

Por fim, Terra Faminta é uma boa  leitura para os que gostam de exercitar a imaginação com finais inconclusivos. É indicado para aqueles que preferem tirar suas próprias conclusões de uma historia, sem maiores interferências do autor. E que gostam de ser desafiados com finais abertos ou abruptos porque não são convencionais,  costurando por si mesmo as fissuras da obra.

Imagem ilustrativa da imagem Obra 'Terra Faminta' conjuga terror sobrenatural e drama familiar
Andrew Michal Hurley leciona literatura na Inglaterra | Foto: Johnny Bean | Divulgação

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