Poético e filosófico, livro ‘A Alma Perdida’ trata da busca humana por si mesmo

Publicado terça-feira, 06 de outubro de 2020 às 10:59 h | Atualizado em 21/01/2021, 00:00 | Autor: Eduarda Uzêda

"Era uma vez um homem que trabalhava com muita pressa e sem descanso, e que já há muito tempo tinha deixado a própria alma em algum ponto distante. Sem a alma, a vida dele até que era boa — ele dormia, comia, trabalhava, dirigia um carro e até jogava tênis. Mas às vezes ele tinha a impressão de que tudo à sua volta tinha ficado plano e sem graça, como se ele se movimentasse numa folha em branco de um caderno de matemática — uma folha coberta por quadradinhos iguaizinhos e onipresentes".

"Uma noite, durante uma de suas muitas viagens, o homem acordou no meio da madrugada em um quarto de hotel e sentiu que mal podia respirar. Olhou pela janela, mas não sabia muito bem em que cidade se encontrava, porque todas as cidades parecem iguais das janelas dos hotéis. Não sabia também como tinha ido parar ali nem para que viera. E, infelizmente, esqueceu também seu próprio nome”.

Assim começa o livro A Alma Perdida, uma fábula para todas as idades elaborado a quatro mãos por duas polonesas: a escritora Olga Tokarczuk, Prêmio Nobel de Literatura 2018 e autora da obra Sobre os Ossos dos Mortos e a ceramista e ilustradora Joanna Concejo, que tem livros destinados ao público infantil publicados em diversos países. A publicação tem selo da Editora Todavia e chega ao mercado esta quarta-feira, dia 7, celebrando o mês das crianças.

Mas que ninguém pense que é uma obra de ficção ilustrada. Não é. As ilustracões ocupam a maioria das páginas e o texto fica reduzido a menos de quatro páginas de um total de 48. O casamento da escrita e foto, entretanto, presenteia os leitores com um belíssimo projeto editorial.

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Olga Tokarczuk, Nobel de Literatura, autora de 'A Alma Perdida' | Foto: Jacek Kotodziejski | Divulgação

Perda da identidade

Na publicação, o esquecimento do nome é uma clara metáfora da perda da identidade do homem que depois saberemos que se chama João. Ele é tragado por um mundo repleto de estímulos e tarefas, onde as pessoas vivem em moto contínuo, sendo absorvido pelas atividades cotidianas.

Confuso e triste, ele então resolve consultar uma médica velha e sábia, que lhe diz: "Se alguém pudesse nos olhar do alto, veria que o mundo está repleto de pessoas que andam apressadas, suadas e exaustas, e também veria suas almas, atrasadas e perdidas no caminho por não conseguirem acompanhar seus donos".

"E isso cria uma grande confusão. As almas perdem a cabeça e as pessoas deixam de ter coração. As almas sabem que ficaram sem seus donos, mas as pessoas muitas vezes nem sequer percebem que perderam a própria alma". A partir daí comeca a jornada do homem em busca de sua alma.

E é aí que entra o diferencial da obra. São as ilustrações que sinalizam o caminho do homem na busca da sua essência, pois a sábia médica é bem clara: a cura só ocorrerá quando ele encontrar um lugar tranquilo para sentar e esperar sua alma vagante.

O discurso das imagens

É o que faz João. Acha uma casinha pequenina nos arredores da cidade, e todos os dias passa a se sentar numa cadeira e a esperar. Ele deixa a barba crescer e comeca a observar o mundo, pois a publicação critica a pressa e fala da espera e da importância de todos verem o que está no seu entorno.

Neste momento da leitura, as palavras saem de cena da publicação e entram as imagens para contar a história. Como em um universo onírico, são mostradas ilustrações de criança na neve, florestas, árvores em profusão e pessoas solitárias em restaurantes , além da vida do homem na casinha onde vive.

Ele é mostrado sentado, olhando a janela, vendo televisão, observando casais dançando felizes na rua. Todas estas imagens são em preto e branco, mas a partir de um acontecimento vital para a trama, a cor começa a surgir nas ilustrações, a princípio em apenas alguns detalhes e depois tomando toda a página.

É como se a partir deste evento crucial, o homem olhasse o mundo com uma percepção diferente, vendo mais cor em tudo, o que é muito interessante, pois, de acordo com relato de psicólogos, os deprimidos enxergam o mundo em preto e branco ou com predominância da cor cinza. Outros garantem que quando estamos apaixonados ou muito felizes vemos tudo mais colorido, os raios de sol mais amarelos, as árvores mais verdes, o céu mais azul, o vermelho mais intenso.

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Joanna Concejo, autora das imagens do livro | Foto: Divulgação

O Pequeno Príncipe

O livro, embora seja destinado ao público infantil, tem um caráter filosófico que enfatiza a importância de não perdermos nossa alma, algo que será melhor compreendido pelos que alcançaram a maioridade. Por outro lado, as crianças vão adorar as árvores, plantas e os diversos animais retratados, como o gato, o veado, o cão, o coelho e os pássaros.

Como na obra O Pequeno Príncipe, do francês Antoine de Saint-Exupéry, que traz uma mensagens e reflexões profundas direcionadas principalmente para os adultos, A Alma Perdida também traz temas caros aos grandes, como a solidão, a perda de identidade e o vazio existencial, além da importância da espera e da essência. No mês da garotada, é uma bela leitura, com texto reflexivo e imagens de perder o fôlego, que esbanjam grande beleza e técnica no universo da arte visual.

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