Eric Assmar lança Home, álbum comprometido com o blues

O resultado é um mergulho otimista nas próprias memórias, dores e esperanças

Publicado sábado, 19 de março de 2022 às 06:00 h | Atualizado em 18/03/2022, 23:10 | Autor: João Paulo Barreto | Especial para A TARDE

Em uma das faixas de Home, seu terceiro disco, Eric Assmar diz em sua letra: "não posso cantar como um homem negro dos Estados Unidos. Este não é o meu lugar. Tenho apenas a minha história para contar. É somente o meu blues. Faço apenas o meu próprio caminho". A música chama-se It's Only My Blues, e define com precisão os passos trilhados pelo jovem de 33 anos que anda por essa estrada musical desde a adolescência.

O trecho descrito acima elabora uma reflexão direta sobre as escolhas do exímio guitarrista em sua própria carreira. Distante de qualquer deslumbramento, o perceptível foco de Eric em relação ao fazer musical, em relação à construção de uma carreira, é direto: a busca por algo que o permita viver de sua própria arte, mas, também, focado em uma elaboração técnica e respeitosa diante de um estilo musical que possui raízes culturais seculares e profundas. Acompanhar essa trajetória evidencia a percepção de estarmos diante de algo especial. 

Pouco mais de cinco anos separa a chegada de Home do seu predecessor, o solar Morning, disco lançado em um distante 2016. De lá para, muita coisa aconteceu. Muitas curvas sinuosas nessa estrada trilhada pelo cantor. Muitos percalços e perdas. Impossível não citar o súbito falecimento de seu pai, o pioneiro mestre baiano do blues, o guitarrista Álvaro Assmar, que nos deixou em dezembro de 2017.

Também não dá para não citar o processo cirúrgico enfrentado por Eric em 2018, quando teve que se submeter a uma intervenção médica para sanar um problema nas cordas vocais. Precisou ficar sem cantar por três meses e sem falar qualquer palavra por quase um mês. Nessa fase, perdeu 13 kg, e foi quando mergulhou profundamente na introspecção diante da perda recente do pai. Recuperado, trouxe o foco para a continuidade de seu legado, tanto como guitarrista quanto como radialista, apresentando o programa de rádio Educadora Blues, que, em breve, completa vinte anos.

Um ano depois daquela fase, em 2019, lançou Family & Friends, disco que Álvaro havia deixado quase pronto. Da homenagem ao saudoso guitarrista, Eric arregaçou as mangas e passou a trabalhar na criação de Home, primeiro disco sem Álvaro como produtor, e, como o próprio Eric definiu, o mais comprometido com blues entre seus trabalhos. Além disso, é o disco com uma maior entrega pessoal e autobiográfica em suas letras. 

Mergulho pessoal

Dentre as letras que seguem por esse viés mais pessoal, I'm Still Working descreve essa fase de recuperação. "É uma música bem autobiográfica. Eu passei por algumas reviravoltas na vida nesses últimos anos", relembra Eric.

"Nesse período, eu estive sempre envolvido com alguma coisa que me mantinha trabalhando, coisas nas quais eu acredito e que fazem sentido para minha alma. Essa música é um desabafo, na verdade. Talvez seja a música mais confessional do álbum todo. Ela é um blues porque tinha que ser um blues. Uma coisa que, para dizer, eu precisava ser sincero com a forma de expressão mais natural que eu tenho fazendo música: tocando um blues", pontua o guitarrista. 

Outra que não dá para não citar ainda observando o quão confessional é Home, Can You Hear Me é daquelas músicas cuja percepção de se tratar de um extravasar da dor, cativa o ouvinte. "Foi uma música que surgiu em uma madrugada dessas. Uma canção acústica, a primeira canção que eu escrevi na pandemia, já quando começou. E era uma canção diretamente confessional e de saudade de meu pai. Que escrevi para ele, mesmo. Ela foi escrita com violões que toquei e gravei aqui no meu home studio. Eu me imaginando a conversar com ele. Pensando na saudade que eu tenho de conversar com meu pai. E, sobretudo, aqueles momentos que você quer compartilhar, tipo: eu queria que ele estivesse aqui agora para eu contar tudo o que aconteceu desde que ele não mais estava, entendeu? Saber como ele reagiria aos acontecimentos, vendo tudo o que aconteceu, vendo tudo que está rolando comigo, com a vida, com o mundo, enfim... Muita coisa para contar", descreve Eric com pesar.

Para além do Trio

Home é, também, um disco no qual Eric Assmar vai além do power trio, cujo nome definia o conjunto musical composto com o baterista Thiago Brandão e o baixista Rafael Zumaeta. "O primeiro disco, Eric Assmar Trio (2012), e o Morning (2016), são álbuns que surgiram de um trio em um estúdio tocando. Essas músicas surgiram, eu ia compondo, gravando, mas a gente ia maturando os arranjos de maneira coletiva no estúdio. Então, o conceito Eric Assmar Trio fazia sentido para aquele contexto”, observa.

“Agora, o Home não só é um disco que surgiu em um contexto mais solidário em termos de ideias e concepção de arranjos, como havia mais elementos. No Morning, já havia um pouco disso, com violões em algumas faixas. Mas no Home tem essas camadas de violões em várias faixas, e é um disco que eu incorporo mais o órgão Hammond, além de mais vozes", acrescenta o guitarrista. 

Dentre os nomes que Eric trouxe para Home, os organistas Luciano Leães, Jelber Oliveira (que também participa ao piano) e André T (também responsável pela mixagem e masterização) deixam suas marcas de qualidade em faixas como Close to Me, cuja pegada reggae junto ao Hammond tocado por Leães cativa. Do mesmo modo, a atuação de Jelber Oliveira ao órgão em I'm Still Working traz a lembrança da inserção de Boom Gaspar ao Pearl Jam de modo tão acachapante quanto. Já André T traz tanto para a faixa título, a singela Home, quanto para a clamante por socorro Bad Dream, uma participação mais discreta, mas bem perceptível em seu somar necessário às guitarras de Eric. Dividindo com Thiago Brandão, parceiro de baquetas que acompanha Eric há longa data, o baterista Victor Brasil deixa sua marca positiva nesse disco tão agregador que, claro, traz Rafael "Zuma" Zumaeta no contrabaixo, como aquele que o próprio Eric define como pilar de sustentação para a banda.

"Zuma é meu fiel parceiro e que está sempre comigo. De fato, ele é um 'chão'. É o músico com quem eu há mais tempo toco. E é um cara com quem eu tenho uma identificação surreal por conta dessa solidez de convívio que criamos", salienta Eric.

Respeito às origens

Sobre a letra que abre esse texto, na qual Eric aborda a ideia de seguir a própria estrada não se considerando um bluesman, uma vez que esse status pertence aos guitarristas negros cujas trajetórias de vida nos racistas Estados Unidos transparece de maneira pulsante em seus trabalhos, o guitarrista soteropolitano, cujas pesquisas de mestrado e de doutorado tiveram o blues como objeto de estudo, explica: "são reflexões que eu sempre venho tendo e que, nesse período, se maximizaram. Qual o meu lugar como músico de blues aqui no Brasil? Será que é a mesma coisa, será que não é uma outra coisa, ou será ainda que não é muito mais legitimo eu assumir ser quem eu sou, eu escrever músicas, contar a minha história, sendo do jeito que eu sou, vindo do lugar de onde eu venho, sem querer calçar sapatos que não são os meus? Sem viver aquele fetiche de querer ser um músico nascido no Texas, nas década de 1950, ou o cara que veio de uma família de pessoas que foram escravizadas, querendo vestir a capa de um histórico de dor e sofrimento racial sem ter vivido. Ou seja, superficializar um histórico de luta? Não vou fazer isso. Não é humanamente decente na minha visão de vida eu querer vestir uma capa de bluesman.  Eu não sou bluesman. Bluesman é o Robert Finley. Bluesman foi o Robert Johnson, Muddy Waters, BB King, Albert King. Esses caras são Bluesmen", finaliza. 

Arrisco dizer que esses mesmos caras teriam orgulho de vê-lo levar à frente, aqui na minha maltratada e amada Salvador, o legado da música deles, caro Eric.

Vida longa ao Blues! Álvaro sorri em algum lugar.

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    TSelo Star Blues / Disponível nas principais plataformas digitais de streaming
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