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Maria Bethânia: "Quando canto, tenho a idade que nasci"

Publicado sábado, 07 de fevereiro de 2015 às 08:04 h | Atualizado em 06/02/2015, 20:06 | Autor: Mariana Paiva
Maria Bethãnia
Maria Bethãnia -
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Quintal de casa já foi palco. De cima da árvore, a menina cantava as músicas que ia lembrando, junto com o irmão. Faz tempo.  50 anos se foram na folhinha, e a menina-passarinho chamada Maria Bethânia continua fazendo só o que bem entende.

E fazendo bem feito: dona de um dos caminhos mais respeitados da música brasileira, Bethânia canta com a voz, com o corpo e com a alma. Sobre o palco, diante dos flashes e holofotes, a cantora de 68 anos encarna a menina descalça e de saia, feliz em cantar, como se fosse no quintal da casa de Santo Amaro.  E o que é o tempo diante da voz? "Com a música, eu vou cada hora  pra um  lugar estranho, é tão mágico, tão perigoso, tão delicioso. São milhares de paraísos e infernos, mas é bom", ela resume, morrendo de rir.

Na entrevista, Bethânia conta ainda de seu gosto pela cozinha (garante demais o acarajé que faz), os livros de Clarice na cabeceira da cama, o silêncio de quando está escolhendo repertório. E o amor pela música: "Quando eu canto, tenho a idade que nasci. Eu namoro, digo tudo que eu tenho vontade, viajo pra Paris, vou pra Santo Amaro.  A música permite que você viaje, se transporte".

Você foi criada numa casa cheia de livros de Clarice Lispector, com piano tocando. Como a infância em Santo Amaro te preparou para esses 50 anos de carreira?
Acho que ali  foi o alicerce de tudo. Meu pai e minha mãe com um amor nítido e com uma iluminação para criar a gente, porque hoje eu fico vendo amigos, colégios, professores e alunos. Vejo uma diferença na condução de tudo. Na minha casa eram poucas palavras mas muitas atitudes, isso me guiou muito, me guia e vai me guiar para sempre. Particularmente por minha mãe, sou cacula, ela era muito próxima de mim. Eu com todas as minhas estranhezas, e meu pai dizia: 'Canô que resolve'. E ela dizia: 'Deixe ela assim'. Eu era louca, bem soltinha mesmo, uma cabeça solta. Mabel (uma das irmãs mais velhas, a poeta e professora Mabel Velloso) disse que eu fui a criança que fez as perguntas mais difíceis a ela, disse que  tinha que rebolar pra achar uma saída. Eu gostava de aprender mas não gostava de estudar, e Mabel nasceu com o talento pra ensinar. Não me lembro de alguém ter me dito 'vai estudar'. Pode até ter acontecido, mas na minha memória, no meu sentimento, não lembro. Mabel dava umas aulas pra umas crianças da cidade e eu ficava ali bicando, prestando atenção.  Foi maravilhoso, esclareceu tudo, menos  matemática (Bethânia cai na risada), pois é, pois é, aquilo ali foi um núcleo muito rico. Todos os amigos de meu pai eram poetas, meu pai lia e dizia poesia, Mabel com talento de poeta, Caetano sendo um gênio que gostava de pintura, de poesia, de música. Aquilo foi formando um núcleo de amor, de segurança, de tempo de observação. A gente podia ver a flor até o fruto estar pronto pra a gente comer. Acho que é essa a grande obra do amor de um homem e uma mulher. Nós todos tivemos essa felicidade, é uma raiz total, não existo sem. Isso alicerçou toda a minha determinação. Tive que sair de casa cedo, era uma menina caçula de 19 anos e bem menina mesmo. Fui pro Rio e me tornei a mulher mais famosa do Brasil da noite pro dia. Saí da infância para a maturidade. Lógico que doeu, sentia saudade, tinha rigor comigo mesma de tudo que aprendi e que Deus me deu. Eu tinha que retribuir. O sucesso nunca me nublou a vista.

Quando foi que você começou a cantar?
Caetano era meu irmão mais próximo, a diferença era de quatro anos, então dava pra brincar comigo ainda. Ele era muito musical, criava musicais no piano, e ficava me chamando para mostrar. Eu dava as opiniões loucas. Coisa de criança mesmo. A casa inteira ouvia músicas de gostos diferentes, a gente teve um ouvido grandão que nos libertou muito. Eu e Caetano tínhamos uma brincadeira que era muito boa, a gente brincava no quintal, subia na árvore e ficava cantando. Um falava: 'Lembra aquela de Cauby?', e o outro cantava. Eu sempre soube que ia trabalhar em palco ou em circo. Isso eu tinha certeza que era o que eu queria na minha vida. Quando eu já estava estudando em Salvador, Caetano foi chamado pra gravar uma trilha sonora de filme. Aí me disse: 'Tome banho que você é que vai cantar'. Eu cantei e adorei, falei: 'Ah, eu quero cantar'. Acabamos criando o grupo musical com Gil e Gal, fomos fazer o show Nós, Por Exemplo. Era um show de bossa nova, Caetano e Gil amavam. Eu falei: 'Acho tudo lindo, mas eu não sou nada disso, vou cantar Noel Rosa'. Cantei Feitio de Oração e todos compreenderam, eles apoiaram.

Qual o lugar mais longe que sua música já te levou?
Ah, menina... com a música, eu vou cada hora  pra um  lugar estranho, é tão mágico, tão perigoso, tão delicioso. São milhares de paraísos e infernos, mas é bom. Eu costumo dizer que sou uma mulher de 68 anos, não sou mais menina e tal, mas quando eu canto, tenho a idade que nasci. Eu namoro, digo tudo que eu tenho vontade, viajo pra Paris, vou pra Santo Amaro. A música permite que você viaje, se transporte.

E como fica sua relação com ouvir música, já que ela é sinônimo de trabalho pra você?
Como eu trabalho muito, fico ouvindo música 24 horas. Mas depois que escolho o que vou cantar, dou um tempinho, se possível fico sem ouvir nada. Aí quando já estou relaxada com  minha mente e meu sentimento, gosto de ouvir Edith Piaf,  Judy Garland, Billie Holiday. Gosto das intérpretes geniais. E Nana Caymmi, que eu adoro ouvir também. Às vezes tem um amigo que vai tomar cerveja comigo às 13 horas. Tomar cerveja é meio maluco e eu gosto, aí nessa hora eu ouço Marisa Monte, ouço Bruno e Marrone cantando "Do jeito que você me olha, vai dar namoro". Me divirto.

O que mais tem além da música?
Gosto de dormir cedo, sou de interior, não suporto sair de noite, mas quando é meu trabalho eu adoro. Gosto do dia. Acordo cedo,  gosto de ver o dia nascer, rezar. E gosto de cozinhar. Sou minha cozinheira. Arrebento no acarajé. Vatapá eu não como porque é gostoso logo, não tem que pensar no gosto. Não gosto de nada assim. Acarajé demora pra chegar no gosto, é bom. Mas eu estou viva, e o que tiver de bom, eu quero.

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