Rapper Edgar se inspira na ecologia e cria instrumentos

Publicado sábado, 19 de junho de 2021 às 06:06 h | Atualizado em 18/06/2021, 21:43 | Autor: João Gabriel Veiga*

O multiartista e rapper Edgar lançou em maio seu quarto disco, o solar Ultraleve. Uma continuação de seu trabalho anterior, Ultrassom, o álbum chega como mais uma amostra da personalidade artística psicodélica do artista de Guarulhos, que trata de temas que ele considera “pouco recorrentes no cenário hip-hop” – como meio ambiente, tecnologia e ufologia.

“Eu sempre passeei sobre esses caminhos. Falar do apocalíptico é meio que um exercício. Eu escrevo conto, gosto de ficção, gosto de misturar doc com ficção quando faço proposta de documentário, gosto de alterar um pouco a realidade. Sempre pratiquei esse tipo de escrita mais ácida, política, misturando metáfora com poesia”, ele explica.

Em Ultraleve, no entanto, esse apocalipse ganha um tom menos pesado, como o título sugere. Para Edgar, essa decisão veio para ele “como uma projeção astral”: “Vem de fora do corpo para entender o que eu tô dizendo e fazendo”. “Eu não queria ser um agente de ansiedade, de gatilho”, ele diz. “Qualquer coisa é um gatilho pra alguém, e a gente sabe muito bem qual mão está apertando o gatilho. Eu queria ser um lugar mais seguro, mais ansiolítico. Dei uns tapas na cara, mas de uma forma mais sarcástica, tentando ser mais divertido”, afirma.

A paleta de temas do disco permanece variada. Um dos temas principais é o meio ambiente, um tópico próximo do rapper desde que ele fez sua formação profissional inicial em gestão ambiental. “Fui para um lugar de ecovila, bioconstrução, fui morar em Minas Gerais para aprender com um biólogo de Alfenas. Comecei a falar das coisas que eu tava vivendo, que eu tava vendo”, conta.

A natureza não aparece em Ultraleve apenas nas letras. O disco foi gravado também com alguns dos instrumentos criados pelo próprio Edgar, algo que ele faz desde 2016, após pesquisas sobre som, timbre e sound art. “Queria trazer a ecologia no som, mas não indo na floresta gravar sapo. Queria um som reciclado”, ele diz, e explica também que muitos desses instrumentos nascem de objetos que ele encontra e ressignifica em seu dia a dia, na rua ou em casa.

Krukutu e inuíte

Um contraponto do tema da ecologia em Ultraleve é a questão do excesso de tecnologia, uma grande preocupação para o artista. “Via uma criança de 4 anos no Japão que monta um robô e desmonta, e eu aqui no Brasil aprendendo a abaixar de bala perdida. Acho que pela escassez de tecnologia, dá vontade de falar”, ele conta. Além disso, parte de seu artesanato musical vem também de resíduos de lixo eletrônico.

Ultraleve traz também duas participações especiais que Edgar considera essenciais para a formação do álbum. Uma delas é do rapper Kunumi MC, morador da aldeia indígena Krukutu, na região paulista de Parelheiros, que canta na faixa final Que A Natureza Nos Conduza. Outra é a cantora iunk Elisapie, descendente de povos originários do Alasca e Groelândia, que aparece na canção A Procissão dos Clones.

Os dois cantam no disco em seus idiomas nativos. “Foi o contraponto perfeito para todo o enredo do disco. Eles são dos povos originários, do Guarani e do Polo Norte. Foi uma coisa que foi se transformando, foi bem orgânico”, diz Edgar.

Ele conta também que seu encontro com Elisapie nasceu de forma inesperada e resultou em muito aprendizado, quando os dois se apresentavam em um festival na França. “A gente se conectou por causa dos problemas do país de cada um. Ela me ensinou que ‘esquimó’ é pejorativo, o certo é ‘inuíte’, que também foi um povo dizimado. A gente estava numa entrevista, e a radialista provocou a gente a fazer um som lá na hora, no freestyle”, ele relembra.

Ultraleve está disponível em todas as plataformas digitais de streaming.

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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