Vivendo no RJ, Larissa Luz investe na música e no teatro

Publicado domingo, 25 de outubro de 2015 às 21:22 h | Atualizado em 25/10/2015, 21:22 | Autor: Gislene Ramos

Ela dança, canta, atua e compõe. Impossível não fazer um trocadilho  com o seu talento e o  sobrenome:  Luz.  Larissa    tem o corpo em constante  movimento e  faz do palco o seu verbo. Mulher, negra, baiana e  filha de Oyá, ela une música, força e cor.  Larissa Luz é o tipo de artista que, quando está no palco, é impossível não se deixar abater por sua expressividade.

Apostando numa musicalidade própria e cheia de referências, Larissa é inspirada em ritmos da música negra universal. Vai das batidas das matrizes africanas, passando pelo soul, funk, rap, ao afro-reggae e o afro-pop baiano.

Tudo começou nas gravações de infância, cantando e dançando. Depois, uma banda de rock só de garotas na escola. Ainda adolescente, ingressou no grupo de dança Interart e, depois, na banda afro-percussiva  Egrégoras.  Com apenas 20 anos, em 2007, ela assumiu os vocais do Araketu.
Mas, a vontade era de ir mais além, quando  seguiu para carreira solo e o teatro profissional. "Eu sempre quis conciliar a carreira de cantora e  de atriz. Descobri as duas coisas ao mesmo tempo", lembra.

Crescimento

Sua experiência no Araketu foi uma escola, pois  enxergou ali uma possibilidade de crescimento.  "Aprendi tudo o que eu podia sobre estrutura  de uma grande bandade produção, organização, distribuição, gravadora, relação empresário/artista, venda de shows, etc". Larissa conta também que aprendeu com os músicos nas horas de viagens no ônibus: "A gente fazia verdadeiros workshop de percussão, aprendi como eram as  claves do Araketu, Olodum,  Malê de Balê,  Muzenza, aproveitei tudo que  pude".

Além disso, havia a questão da afirmação enquanto mulher negra dentro do Axé. "A gente sabe que o mercado musical baiano é um mercado que, apesar da grande parte população da Bahia ser negra, a gente não vê muitas mulheres negras protagonizando a cena do Axé,  então achei que poderia ser uma  oportunidade para estar ali e fazer uma diferença", conta.

E nesse processo de aprendizagem que sua bagagem foi crescendo e então, depois de quatro anos, assumiu seu trabalho autoral. "Foi aí que eu falei quero cantar as minhas músicas, quero fazer um trabalho que eu tenha liberdade de criar sem barreiras, sem limitações, e agora eu tenho noção de que agora posso realizar... e fui". E  foi cantando para o grande público que Larissa  percebeu o impacto que a música pode  causar nas pessoas e gerar uma transformação. "Isso começou a gerar uma inquietação e quis   cantar  as músicas que eu acreditava, as ideias que eu queria dar, do jeito que eu queria dizer", conta.  

Daí nasceu o primeiro disco solo,  MunDança (2012), cujo nome marca o  momento da carreira da cantora. "Eu comecei a achar que já tava perdendo um pouco o meu propósito, o pra quê que eu tô aqui? pra quem que eu tô cantando? E ganhar dinheiro não é o meu propósito dentro da arte. Para mim, a raiz de tudo é o por quê, o para quê e o para quem. Tem que ter  essência,  alma, senão não contagia, e fui atrás do meu propósito e hoje  acho que tomei a decisão certa", afirma.

No teatro, Larissa Luz atuou no musical Gonzagão, A Lenda e, recentemente, estrelou na Ópera do Malandro, ambas montagens com direção de João Falcão, que conheceu a artista  e se encantou com seu talento e versatilidade.
"A Larissa é uma luz mesmo (risos). Ela tem um brilho em cena. É uma artista de palco. Ela só nunca tinha experimentado atuar, mas poderia fazer isso, pois faz muito bem, é  talento mesmo. É uma artista completa", afirma João.

Ao longo do caminho, Larissa foi criando laços, a exemplo de Russo Passapusso (Baiana System, BembaTrio), que rende-se ao talento da baiana: "A Larissa é inquieta do jeito que todo mundo aqui tem que ser, e eu  tenho essa identificação e admiração por ela justamente por conta dessa necessidade de mudança, ela não se acomodou dentro dessa estrutura toda, buscou entender qual era alma, o caminho musical dela e, quando  pega o microfone, a gente sente essa verdade".

Território Conquistado

E Larissa não parou por aí. Para dar forma à sua vivência no Araketo com a musicalidade autoral do encontro com a música eletrônica,  Criou o show MaquinAfro - um projeto experimental que unia os ritmos afros e afro-baianos com batidas eletrônicas da música negra, como o rap, dancehall e o ragga.
"Acredito que o novo vem dos nossos ancestrais. Ter como base  nossas raízes e utilizar os recursos contemporâneos para reconstruir".

Inserida no cenário  da música afro-baiana e independente, Larissa faz força junto com nomes como Orkestra Rumpilezz, Baiana System, Ifá Afrobeat, O Quadro, Ministério Público, entre outros. "Acho maravilhoso estar nessa cena, que eu sempre acreditei,  e são artistas que eu admiro muito".
A cantora lembra de um dos motivos de sua saída do Araketu: "Eu acreditava numa outra forma de relação do artista como  agente transformador. Acredito na descentralização, não é mais o artista,  a diva, a rainha. Temos várias pessoas fazendo seu trabalho acontecer e dando certo. Acho que a gente 'tá' invadindo geral".

E, citando o poema que canta em seu show, Me Gritaram Negra, de Victoria Santa Cruz,  Larissa comenta sobre o seu atual empoderamento como  mulher negra, que vem  mais forte  no  segundo CD,  Território Conquistado, pelo Natura Musical, produzido por ela,  Jr. Tostoi, Pedro Tie e Pedro Itan, a ser lançado em  novembro.
"Resolvi fazer um disco para falar das mulheres negras, da nossa força, do nosso poder, de outros personagens que construíram  nossa história, mulheres como Carolina de Jesus, Bell Hooks, Beatriz Nascimento e outras". No CD, há participações  como  as de Elza Soares e Thalma de Freitas. Lançado pelo Natura Musical, Larissa conta da satisfação de estar no projeto que selecionou outros artistas que também admira. "Quando olhei em volta, vi BNegão, Emicida, Elza Soares, Chico César, Aláfia... então falei: 'Tá acontecendo!".

Nesse caminho, a filha de Oyá segue querendo aprender mais e mais. "Tenho muito respeito pelo dom que me foi concedido, sei que tenho ferramentas na mão que eu posso fazer coisas  que podem somar no todo".  Sem pestanejar, afirma: "A minha maior motivação e o que move a minha inquietude é  querer contribuir,  mudar, transformar!".

Publicações relacionadas