Devoto de Santo Antônio explica costumes que envolvem a religiosidade

Publicado sexta-feira, 11 de junho de 2021 às 10:00 h | Atualizado em 19/11/2021, 12:15 | Autor: Amanda Souza

O que é ser um devoto? Para o dicionário, é um adjetivo para se referir a quem tem devoção. Para Rodrigo Guedes, um artista plástico de 32 anos, vai muito além.

Rodrigo é devoto de Santo Antônio, o santo português que foi abraçado pelos brasileiros. Para além, o significado de devoção reúne bem mais palavras.

“Ser devoto, especialmente dele, é seguir os exemplos que ele deixou”, explica Rodrigo. “É ter fé e resistir a tudo isso que a gente resiste”, completa.

Ao olhar para o passado e buscar referências de onde e quando começou tudo isso, Rodrigo lembra que a relação entre ele e Santo Antônio tem raízes na família.

“Minhas avós, moradoras do bairro de Santo Antônio Além do Carmo, conseguiram suas casas por graça de Santo Antônio. Todo mês de junho rezávamos o Santo Antônio em casa, assim fui ensinado”, diz.

Além das raízes, as referências também se fazem presentes na vida de Rodrigo, atualmente, como artista plástico, confecciona todos os anos um altar para o Santo na sala de casa, de frente para a janela, chamando a atenção de quem por ali passa.

Para chegar ao altar delicadamente decorado, ele se apoia na referência do passado. “Eu me lembro que o meu primeiro altar de Santo Antônio foi a da minha bisavó. Uma caixa de bombom garoto em cima do guarda-roupas. Foi a minha primeira visão de altar”, conta o devoto.

Desde então, Rodrigo é fiel às trezenas de Santo Antônio, o hábito católico de rezar periodicamente nos 13 primeiros dias de junho - sendo o 13º o dia do calendário dedicado ao Santo.

Ainda na infância, acompanhava as tradicionais rezas nas casas das pessoas, mas também participava das orações na igreja.

“Eu ia para a igreja vestido de Santo Antônio. Elas [as avós] mandavam fazer um hábito franciscano pra mim. Assim eu conduzia incenso, água benta... assessorava a trezena na Igreja Matriz”, lembra.

Rodrigo cresceu e não perdeu o hábito, mas mudou de endereço. Se quando criança era um assistente na igreja, atualmente é quem organiza as festividades dentro da própria casa, lugar onde há 15 anos recebe quem quer que queira entrar para ver o altar de Santo Antônio em junho.

“Eu tive um ‘tino’ de que a gente voltasse a rezar em casa. E aí veio a minha ousadia de abrir as portas para que as pessoas rezassem como antigamente”, conta. É coisa de que só quem tem santo entende.

Homem de fé, Rodrigo não se coloca dentro de uma doutrina. Mesmo nascido na igreja católica e devoto de Santo Antônio, não coloca sua religiosidade acima de si, especialmente dentro da sua profissão. “Eu ornamento igrejas, terreiros de candomblé, confecciono paramentas de orixás; como artista, me sinto neutro diante desses espaços. A minha missão é enfeitar. Acima do que eu acredito está aquilo que eu faço”, aponta.

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Mesmo nascido na igreja católica e devoto de Santo Antônio, Rodrigo não se coloca dentro de uma doutrina | Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE

O respeito e cuidado com o próximo, que são ensinamentos do santo a quem devota, são muito presentes na vida do jovem artista. “Se você me chamar para ornamentar o seu sagrado, se é sagrado pra você é pra mim também. A minha religião não interfere. Eu sei respeitar o seu sagrado”.

Baiano de Salvador, Rodrigo vê a religião e a cultura como um casamento no Estado. Pela tradição, são coisas que aparecem intimamente ligadas e, por isso, despontam como uma característica nata da Bahia: a fé que move.

“A gente celebra a religiosidade de uma forma muito diferente, única. Eu não sei como é o festejo de Santo Antônio em São Paulo, no Rio de Janeiro; talvez não seja do de Salvador”, argumenta Rodrigo. “Isso é o que faz essa devoção ser bonita, porque a diferença tem beleza, é cultural”, completa.

Mas essa vida de devoção, quando não no campo espiritual, também não foi das mais fáceis. Rodrigo e avó mantêm o altar, a casa e tudo o que envolve o festejo com a ajuda de amigos, devotos e do próprio bolso. Sem apoio de empresas, instituições ou órgãos públicos, perseverou na fé para seguir com o projeto.

Apesar disso, nunca lhe faltou fé. “Muitas pessoas fazem coisas em nome da religião mas não enchem a boca pra dizer que tem fé. Eu tenho fé”, garante. E é assim que ele segue, mesmo em tempos difíceis, fazendo da sua casa um templo de oração e devoção a quem interessar possa.

O altar segue e seguirá sendo montado, com a ajuda de muitos devotos, a fé de Rodrigo e a graça de Santo Antônio. "Neste altar estão muitos nãos, muitas portas fechadas. Buscamos ajuda, patrocínio, apoio, e sempre fomos negados. Mas a fé, a persistência e a ousadia é que contribui para que essa festa chegue aonde chegou, completando 15 anos de reza pública. É tudo mágico e lindo, e essa é a missão”, celebra.

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